1966 – O Mundial de Eusébio que fez vender TV

O Diário de Notícias deu muito destaque à meia-final entre Inglaterra e Portugal. Na primeira página, o adeus lusitano foi submanchete e no interior a reportagem louvava a exibição portuguesa, com realce para as declarações de Otto Glória, que criticava a marcação a Eusébio: “É o resgate da fama. Estava tão severamente marcado que para fazer melhor era preciso que fosse um Deus.” Ficámos a saber que Eusébio recebeu 80 contos por ser o melhor do torneio, e mais à frente, um dirigente da FPF disse sob anonimato que o hotel em Londres tinha jovens demasiado belas para uma equipa de alta competição…

Eusébio no jogo frente à Coreia do Norte, no Mundial de 1966, fez uma das maiores exibições da sua carreira

Eusébio no jogo frente à Coreia do Norte, no Mundial de 1966, fez uma das maiores exibições da sua carreira

O Mundial 1966 foi um acontecimento que marcou o desporto português. Por muito que tenha feito ao serviço do Benfica, e fez, Eusébio granjeou muito do seu prestígio no evento em Inglaterra. Portugal nunca tinha disputado um Mundial, mas muito antes de a bola começar a rolar já se falava do novo Pelé. Ou seja, Eusébio. Para se perceber o amadorismo, a Federação enviou para Inglaterra apenas um funcionário, Germano Óscar.

Os magriços estrearam-se em Manchester. 3-1 à Hungria, com bis de José Augusto e um golo de Torres. Eusébio guardava-se para o jogo seguinte com a Bulgária em que Portugal aplicou uns claros 3-0 – golos de Torres e do Pantera Negra e Vutsov na baliza errada.

O último duelo da fase de grupos foi contra o Brasil de Pelé. Dizem que Vicente e Morais foram demasiado duros com Pelé, que teve de se manter em campo numa altura em que não havia substituições. Começa aqui a lenda Eusébio. No encontro com Pelé ganhou a disputa individual e o carinho dos adeptos ingleses. Os dois golos marcados ao Brasil ajudaram a seduzir os britânicos.

Mas, verdade seja dita, foi o jogo com a Coreia do Norte que catapultou Eusébio. Esses 90 minutos decidiam quem ia estar nas meias-finais. Aos 25 minutos, os asiáticos venciam por 3-0. Eusébio reduziu ao intervalo, contudo, isso não impediu Germano Óscar de, durante o descanso, começar a preparar as malas para Portugal. Enquanto isso, Otto Glória, no balneário, gritava que não podiam ser eliminados depois de terem afastado o “seu” Brasil. E aquela que ficou conhecida como a mais impressionante reviravolta em Mundiais concretizou-se. Portugal venceu por 5-3 com quatro golos, claro está, de Eusébio.

Chegava a meia-final com a Inglaterra, a 26 de julho de 1996, e a FIFA, sem consultar a equipa das quinas, deslocou o jogo de Liverpool, onde Portugal estava, para Londres. E aí tudo correu mal. A viagem foi longa, o hotel era frequentado por jovens demasiado bonitas que desconcentraram os jogadores, Vicente e Morais estavam lesionados e no dia do encontro a comitiva chegou demasiado cedo a Wembley. Portugal, conta-se, perdeu bem por 2-1 (bis de Bobby Charlton e Eusébio), mas o dedo da FIFA foi evidente. Restou o 3.º lugar, conquistado perante a URSS de Yashin, e a conquista do título de melhor marcador por parte de Eusébio (9 golos), que morreu este ano no dia 5 de janeiro. O Mundial inglês foi o acontecimento que provocou a maior venda de televisões na primeira década da RTP. Todos queriam ver os magriços sagrarem-se campeões mundiais.

A chegada deu-se a uma hora imprópria, três da madrugada, mas na Portela havia um mar de gente grata aos magriços. BRUNO PIRES

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