1980 – Morte de Sá Carneiro

“Há ocasiões em que as palavras parecem escassas para exprimirem o sentimento trágico que se apodera da comunidade nacional.” A frase retirada do editorial do DN, na altura dirigido por Mário Mesquita, numa segunda edição do dia 5 de dezembro de 1980, enquadrou as primeiras notícias. Os títulos também, entre eles o de “surpresa e estupefação”. Inevitável, o acontecimento invadiu a primeira página e as seguintes com o relato da tragédia e os testemunhos das principais figuras políticas da altura. Mas também reportagem em vários locais do País sobre o sentimento de incredibilidade dos portugueses.

Acidente que matou Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa

Acidente que matou Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa

Muitos portugueses têm ainda gravada na memória a noite de 4 de dezembro de 1980, uma quinta-feira, quando a RTP interrompeu a emissão. Foi um longo, longo momento de vazio, acompanhado de uma música solene que marcou o compasso do trágico acontecimento: o avião em que viajava o primeiro-ministro caiu em Camarate e Francisco Sá Carneiro morreu.

A notícia foi um vendaval num país a três dias das eleições presidenciais. O Cessna em que viajava o líder do Governo leva-o precisamente a mais um comício do general Soares Carneiro, o candidato presidencial apoiado pelo PSD e CDS. O avião descolara do aeroporto da Portela e despenhou-se um minuto depois sobre as habitações do bairro das Fontainhas. No voo seguiam também o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, e a mulher, a companheira de Sá Carneiro, Snu Abecassis, e o seu chefe de gabinete, António Patrício Gouveia. Morreram todos, tal como os dois pilotos.

O vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros confirmou a notícia na televisão. Freitas do Amaral pediu “calma e serenidade” e anunciou “um rigoroso inquérito”. No Rossio, o mais importante comício de campanha do general Eanes, recandidato a Belém, foi cancelado. Em Camarate, os jornalistas procuraram em Helena Roseta a resposta à pergunta que todos faziam: “E agora?” Visivelmente abalada, a social-democrata só retorquiu: “Continuamos. Portugal continua!” No mesmo local, Eanes confirmou o luto nacional de cinco dias e a manutenção das presidenciais para o domingo seguinte.

Esse dia uniu os dois acontecimentos. O funeral de Sá Carneiro saiu dos Jerónimos para o Cemitério do Alto de São João, num cortejo que durou cinco horas. A comoção nacional ficou patente nos milhares de pessoas que quiseram acompanhar a despedida do líder da AD. Comentadores políticos ainda vaticinaram que a sua morte e as imagens do funeral poderia inverter a tendência de vitória de Eanes, candidato apoiado pelo PS. Previa-se uma segunda volta. Não aconteceu. Eanes foi reeleito com maioria absoluta. O sonho de Sá Carneiro – “uma maioria, um governo e um presidente” – não se concretizou.

Acidente ou atentado? É a pergunta que tem alimentado sucessivas comissões de inquérito. São já dez e com conclusões díspares. Da inicial tese de acidente, caminhou-se nos últimos anos para a tese de um crime político que teria por alvo Adelino Amaro da Costa e na base negócios de venda ilegal de armas. PAULA SÁ

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