1998 – Um Nobel para Saramago

A notícia do Nobel a Saramago correu depressa. Na redação do DN acompanhava-se em direto o anúncio, e ao saber-se o vencedor, a edição foi alterada, de modo a abrir com um dossiê de dez páginas com a notícia, reações, a vida e obra do Nobel 1998. Foram distribuídas tarefas, e ao fechar a edição estava-se perante um trabalho completo, para o qual contou muito a foto da primeira página de Augusto Brázio.

Se o Prémio Nobel já existisse no tempo de Camões, o poeta poderia ter sido um sério candidato. No entanto, posteriormente, a poesia não favoreceu Fernando Pessoa, nem Miguel Torga, nem Sophia de Mello Breyner Andresen de modo que integrassem a breve lista de candidatos. Essa escolha só se veio a dar com José Saramago, em 1998, tornando-se o único representante da língua portuguesa a ser galardoado pela Academia Sueca.

Saramago a receber o Nobel

Saramago a receber o Nobel

Tal como os autores citados, também José Saramago era dado a versos, tendo publicado três volumes nesse género, mas o que o fez chegar a Estocolmo foram os romances. Principalmente Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Ensaio sobre a Cegueira. No ano anterior ao do anúncio do nobel publicara Todos os Nomes, romance que o preocupava no que respeitava à opinião dos académicos nórdicos sob a sua trama, mas o fio que conduzia as personagens seduziu-os. Mesmo assim, como qualquer português que se destaque mundialmente, o lançamento de um dos seus mais premonitórios romances, A Caverna, dois anos depois do nobel, valeu-lhe todos os epítetos das carpideiras.

Mas o que estava em causa quando da atribuição do Prémio Nobel era a obra feita, tão importante como a contabilidade dos anteriores títulos, e uma outra razão, mais importante no que toca à escolha de uma obra para ser nobelizada: o registo. Essa novidade estilística – a tão mencionada ausência de pontos, vírgulas e fraseados tradicionais – foi o divisor de águas para o facto de a literatura em língua portuguesa ter sido levada a sério a partir do momento em que Levantado do Chão viu a luz do dia. Quase tudo o que se fizera literariamente antes e depois nesse século XX estava distante da radicalidade apreendida por José Saramago no exílio voluntário numa cooperativa agrícola, onde ouvia o cante da palavra alentejana proferida pelos trabalhadores e perseguia as paisagens acompanhado de um gravador e de um cão.

Quando veio de Lavre, escreveu as primeiras duas dezenas de páginas, mas um raio de vozes e imagens fulminou a sua narrativa e tudo mudou para sempre.

Saramago foi informado da atribuição do Prémio Nobel no dia 8 de outubro de 1998. No dia da entrega, a 10 de dezembro, o escritor nascido na Azinhaga do Ribatejo passeou por Estocolmo envergando uma samarra tradicional portuguesa. No discurso da cerimónia falou do avô – o homem mais sábio do mundo mas que não sabia ler – e da avó, que guardava os porcos na cama para não morrerem de frio antes de chegar a hora de lhes cortar a goela. Um discurso próprio do único nobel da língua portuguesa, que continua por repetir. JOÃO CÉU E SILVA

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