1999 – O adeus da rainha do fado

“Amália, quis Deus que fosse o meu nome.” Foi com o verso de Fado Amália que o DN noticiou, na primeira página de 7 de outubro de 1999, a morte da fadista. O jornal publicou um trabalho de 11 páginas sobre várias facetas do seu percurso. Foi ainda publicados depoimentos de David Ferreira (então administrador da EMI – Valentim de Carvalho) e do poeta e político Manuel Alegre.

Eram apenas oito da manhã quando Amália Rodrigues foi encontrada sem vida na sua casa, em Lisboa, a 6 de outubro de 1999. Tinha 79 anos. Desde logo foram muitos os populares que se dirigiram à porta do n.º 193 da Rua de São Bento para dar um último adeus à fadista. No dia do funeral, não faltaram os lenços brancos e nas ruas bateram-se palmas enquanto a multidão acompanhava o carro funerário até à Basílica da Estrela.

Milhares de pessoas despediram-se de Amália

Milhares de pessoas despediram-se de Amália

O Governo do socialista António Guterres decretou três dias de luto nacional. Nas lojas da capital ouviram-se álbuns da fadista durante todo o dia, enquanto os livros esgotaram em horas.

Familiares e amigos da fadista deslocaram-se à sua casa durante o dia, enquanto na rua vizinhos e admiradores trocavam histórias sobre esta voz maior da cultura portuguesa.

“A voz. O ídolo. A Diva. Renderam-se–lhe plateias nas maiores salas de espetáculos internacionais. Que mistério o de uma voz que todos entendiam, cantasse em português ou nos diversos idiomas que aprendeu sem esforço? Que fenómeno o de uma voz gigante, melódica, vibrante, tivesse por companhia a guitarra e a viola, a grande orquestra ou as castanholas?”, escreveu na altura Maria Augusta Silva no DN.

A cantora, que era descrita como a “rainha do fado” mas cuja carreira passou também pela Sétima Arte e pelos palcos dos teatros, foi amplamente distinguida ao longo do seu percurso.

Em 1958, Amália Rodrigues foi condecorada com o grau de dama da Ordem Militar Sant’Iago da Espada, tendo sido promovida depois a oficial. Em 1980 foi condecorada com o grau de grande oficial da Ordem do Infante D. Henrique. França, Espanha e o Líbano também lhe entregaram distinções.

Amália deu voz a poetas trovadores e renascentistas, mas também interpretou versos populares e contemporâneos. A própria fadista sempre gostou de escrever os seus versos. Na edição de 7 de outubro de 1999, o DN publicou o manuscrito do poema “Estranha forma de vida”, da autoria da fadista.

O funeral de Amália Rodrigues realizou-se dois dias depois da sua morte, tendo centenas de milhares de pessoas saído à rua para prestar a sua última homenagem. O corpo da fadista foi primeiro sepultado no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, mas dois anos depois, em julho de 2001, foi trasladado para o Panteão Nacional (onde se encontra sepultada junto a outras personalidades nacionais, como Humberto Delgado ou Almeida Garrett), algo que só foi possível com uma alteração da lei que exigia que se esperasse um mínimo de quatro anos até à trasladação. JOÃO MOÇO

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