2002 – A Europa sonha ser una

Estes acontecimentos tiveram tratamento especial no DN. A 1 de novembro de 1993 saiu o especial de sete páginas “Maastricht é já hoje”, no qual era explicado o percurso da agora UE desde o “anteontem”, quando “a sonhar começaram seis”, passando pelo “hoje”, em que havia “financeiros à procura de um ovo de Colombo” e em que se olhava para um “amanhã” e as suas “dores do crescimento”. A entrada em circulação do euro foi assinalada a 1 de janeiro de 2002 com um outro suplemento, de seis páginas, no qual se noticiava que “146 mil milhões de euros já circulam no mercado europeu”.

A forma como a Europa se relacionava entre si e se apresentava ao mundo mudou radicalmente a partir do dia 1 de novembro de 1993, data em que entrou em vigor o Tratado de Maastricht. Com ele foi criada a União Europeia (dizendo-se assim adeus à CEE) e lançadas as bases para o euro, um conceito transformado em moedas e notas nas nossas carteiras desde 1 de janeiro de 2002.

ECB PRESIDENT WIM DUISENBERG PRESENT THE NEW EURO CURRENCY DURING A CEREMONY IN FRANKFURT.Maastricht criou as metas para o livre movimento de pessoas, bens, serviços e capital e estabeleceu três pilares que se mantiveram até ao Tratado de Lisboa: a Comunidade Europeia, a política externa e de segurança comum e o pilar da cooperação policial e judicial.

Mas esta nova União Europeia, que pretendia que os então 12 países falassem a uma só voz, teve um parto complicado quando se chegou à ratificação. Na Dinamarca, o primeiro referendo realizou-se a 2 de junho de 1992, mas a sua baixa participação (menos de 50 mil votos) levou a que não fosse ratificado. Após este falhanço, foram feitas alterações ao Tratado – o Acordo de Edimburgo, que inclui quatro exceções dinamarquesas. Acabou por ser ratificado neste país, após um segundo referendo, a 18 de maio de 1993. Em setembro de 1992, o referendo em França foi aprovado por uma curta margem – 51,05% votos.

As inseguranças provocadas por estes referendos causaram uma perturbação dos mercados cambiais em setembro de 1992, provocando a expulsão da libra do Mecanismo de Taxas de Câmbio do Sistema Monetário Europeu, episódio conhecido como a “quarta-feira negra”.

A nuvem negra de Maastricht teve outras consequências no país de Sua Majestade: os opositores ao tratado eram mais do que a maioria conservadora na Câmara dos Comuns e o Governo de John Major esteve perto de cair. Mas o símbolo maior de Maastricht foi a moeda comum, uma ideia que já vinha dos anos 70 e que tinha como defensores nomes como Fred Arditti, Neil Dowling, Tommaso Padoa-Schioppa e, claro, Wim Duisenberg , o primeiro presidente do Banco Central Europeu. Reino Unido e Dinamarca escolheram ficar fora da moeda única.

O euro foi apresentado aos mercados como moeda a 1 de janeiro de 1999 e desde então tem sofrido altos em baixos, quando comparado com o dólar… Até finais de 2009, altura em que mergulhou na crise das dívidas soberanas, o que levou à criação do Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira e outras reformas que mostraram que afinal, hoje, a Europa é cada vez menos aquele espaço comum a uma só voz sonhado naquela pequena cidade da Holanda. ANA MEIRELES

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