2011 – Portugal pede ajuda à ‘troika’

“É preciso dar este passo. Não tomar essa decisão acarretaria riscos que o País não deve correr”, escrevia o DN na primeira página de 7 de abril de 2011, citando o discurso do primeiro-ministro, cuja foto aparecia lado a lado com a do líder da oposição, Passos Coelho. O jornal destinou dez páginas ao acontecimento e aos dias alucinantes que o antecederam, incluindo as pressões dos banqueiros para que José Sócrates avançasse com o pedido de ajuda. Recordava que este era já o terceiro resgate internacional a que o País recorria desde o 25 de Abril, com o FMI a entrar em Portugal em 1977 e em 1983.

Há muito antecipado mas sempre recusado por José Sócrates, o pedido de ajuda à UE e ao FMI acabaria por ser anunciado pelo primeiro-ministro demissionário a 6 de abril de 2011. “O Governo decidiu hoje dirigir à Comissão Europeia um pedido de financiamento”, disse José Sócrates numa declaração ao País pela televisão pouco passava das 20.30.

O então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e a situação financeira portuguesa numa ilustração de André Carrilho

O então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e a situação financeira portuguesa numa ilustração de André Carrilho

Acompanhava-o, em silêncio, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, que duas horas e meia antes já tinha avançado este desfecho. “O País foi irresponsavelmente empurrado para uma situação muito difícil nos mercados financeiros. Perante esta difícil situação, que podia ter sido evitada, entendo que é necessário recorrer aos mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu em termos adequados à atual situação política”, tinha dito ao Jornal de Negócios.

O Estado tinha feito pela manhã uma emissão de dívida de curto prazo com resultados desastrosos, pagando quase 6% para se financiar a um ano. Ao mesmo tempo, no mercado secundário, a dívida a cinco anos negociava já acima dos 10%, enquanto os juros exigidos pelos investidores para as obrigações do Tesouro a dez anos rasavam os 9%. A culpa, acusava Sócrates, era da oposição que duas semanas antes chumbara o PEC IV, um pacote com novas medidas de austeridade anunciado dois dias depois de o Presidente da República ter afirmado que “há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos”.

“Ao longo deste último ano, lutei todos os dias para que isto não acontecesse [um resgate internacional]. A verdade é que tínhamos uma solução e ela foi deitada fora. Como na altura alertei, a rejeição do PEC e a abertura de uma crise política vieram fragilizar o País e diminuir a capacidade do Governo para responder às dificuldades”, justificou Sócrates.

Seis dias depois chegava a Lisboa a troika – FMI, Comissão Europeia e BCE -, para negociar um programa de ajustamento em troca de um empréstimo de 78 mil milhões de euros em três anos. O memorando de entendimento, aprovado a 17 de maio pelos ministros das Finanças da zona euro, foi o prelúdio de um triénio de pesados sacrifícios para os portugueses. A bem das contas públicas, mas à custa de desemprego, cortes salariais, aumento de impostos e empobrecimento.

No final, a 17 de maio de 2014, exatamente três anos depois, Portugal saiu do programa de ajustamento de forma “limpa”. Isto é, regressando ao mercado de dívida para se financiar, sem mais ajudas da UE e do FMI. Foi o adeus à troika, mas não ainda aos sacrifícios.  EDUARDA FROMMHOLD

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