Araújos: Ourivesaria oitocentista vive 4.ª geração na baixa

Para além do chão de mármore preto que substituiu o soalho original, a decoração da pequena loja do número 261 da Rua do Ouro em Lisboa quase não sofreu alterações em 136 anos. No teto, uma tela do pintor Domingos Costa dá um toque único à Ourivesaria Araújos, casa que tem em Clarisse Mota a quarta geração da família à frente do negócio.

Teresa, ao fundo à esquerda, Clarisse Mota, ao centro, e Sílvia trabalham nesta pequena loja da Baixa lisboeta onde a oferta passa pela ourivesaria tradicional portuguesa, sobretudo em prata

Teresa, ao fundo à esquerda, Clarisse Mota, ao centro, e Sílvia trabalham nesta pequena loja da Baixa lisboeta onde a oferta passa pela ourivesaria tradicional portuguesa, sobretudo em prata

Quando, no princípio de maio, pelas 10.00 da manhã, Clarisse Mota abriu a porta da loja do número 261 da Rua do Ouro, para mais um dia de trabalho, nem se deu conta, mas iniciou o 137.º ano de atividade da Ourivesaria Araújos. Fundada pelo bisavô paterno, João Carlos Araújo, a pequena ourivesaria distingue-se na Baixa lisboeta pela fachada de ferro trabalhado, num estilo a denunciar as suas origens que remontam a 1878.

Aos 64 anos, Clarisse, que representa a quarta geração da família, conta em traços muito largos como surgiu o negócio. “O meu bisavô foi empregado da [Ourivesaria] Sarmento durante alguns anos e depois acabou por abrir esta loja”, desfia, numa referência à vizinha W. A. Sarmento, a apenas a uma distância de dez números de porta.

Desde os 16 anos que a loja faz parte do seu dia a dia e pouco mudou na decoração desde que abriu portas pela primeira vez. Com móveis de madeira preta e chão de mármore preto (a grande inovação), destaque para o teto, com uma tela a óleo de Domingos Costa, com moldura pintada a fresco. Quando questionada sobre a ligação da loja a um dos mais destacados pintores do final do século XIX e início do século XX – autor de pinturas que ainda hoje se podem observar nos Palácio Foz e Palácio Vale Flor, em Lisboa ou no Teatro Circo, em Braga, entre tantos outros -, a bisneta de João Carlos Araújo foi incapaz de explicar.

Tanto o exterior, com decoração em ferro forjado, como o interior se mantêm praticamente inalterados desde a fundação da Ourivesaria Araújos, em 1878

Tanto o exterior, com decoração em ferro forjado, como o interior se mantêm praticamente inalterados desde a fundação da Ourivesaria Araújos, em 1878

Nas vitrinas, as peças não são exatamente as mesmas de sempre, mas o tipo de oferta continua semelhante: ourivesaria tradicional portuguesa. No entanto, o ouro cedeu o lugar à prata. “Temos alguns fios e alianças de ouro, mas pouco. E de joalharia não temos uma única peça. As pessoas agora procuram mais as peças de prata, são essas que se vendem melhor”, diz, adiantando que as peças são compradas no Norte do País. “Temos fornecedores fantásticos e a oferta até é superior ao que precisamos.”

Nesta altura do ano, “os turistas são os principais clientes”. E se alguns tomam contacto pela primeira vez com a filigrana nacional, outros já chegam informados. “Desde que ofereceram o coração de filigrana à atriz Sharon Stone, com as notícias que saíram sobre isso nas revistas internacionais, esta arte tornou-se muito mais conhecida”, afirma a proprietária da loja, informação confirmada com aceno de cabeça pelas duas empregadas que com ela trabalham, Sílvia (há 22 anos) e Teresa (há três).

“O bailarino Benvindo da Fonseca é um dos clientes habituais”, aponta Sónia, substituindo a confessa “má memória para nomes” da patroa. Roberto Leal, Bárbara Guimarães e Mariza são outras figuras públicas que já passaram pelo espaço. “Numa ocasião, uma senhora brasileira ligada às telenovelas comprou aqui uma série de marcasites (anéis e pregadeiras), para serem utilizados numa telenovela, mas não sei qual”, junta Clarisse.

A localização da loja é uma mais–valia inestimável. “Estar na Baixa e tão perto do Elevador de Santa Justa é determinante”, admite Clarisse que, nos quase 50 anos de trabalho, já viu muitas “modas”. “Agora deu--lhes para os hotéis e hostels”, assinala, apressando-se a acrescentar: “O que até é bom, traz mais gente para a Baixa e até mais tarde.” Mesmo assim continuam a fechar às 19.00? “Não compensa ficar até mais tarde. E depois há a questão familiar. Eu sou sozinha mas elas têm crianças, marido…” A única mudança de horário, implementada há um par de anos, foi a abertura à hora de almoço. “E foi ideia delas”, aponta Clarisse. “Há dias em que a primeira venda só é feita por volta da uma”, diz Sílvia, justificando a opção.

O que mudou também foi o atendimento ao cliente: Clarisse e Sílvia relembram a postura imposta por Jorge Ereira de Araújo, o pai de Clarisse. “Tínhamos de estar sempre em pé, com as mãos atrás das costas, tipo tropa”, começa Clarisse quase interrompida por Sílvia: “Ainda me lembro do patrão dizer que não me podia rir para os clientes.”

O futuro não preocupa Clarisse, embora considere pouco provável que qualquer um dos filhos regresse de Londres ou de Copenhaga para manter as portas da Ourivesaria Araújos abertas. “Até podem vir a ser elas [Sílvia e Teresa] a ficar com a loja. Quem sabe?”

MARINA MARQUES

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