Companhia das Lezírias: a Lezíria é muito mais do que touros e campinos

Da criação de gado ao birdwatching, passando pela produção de arroz, vinho, azeite e cortiça, a companhia das Lezírias, fundada em 1836, é a maior exploração agroflorestal do País. Os 48 mil hectares iniciais, agora reduzidos a 18 mil, foram vendidos pelo Estado por dois mil contos de réis. Nacionalizada em 1975, continua na esfera pública

 

Ajudar a abater o elevado défice público foi a razão que levou o Estado a alienar 48 mil hectares pertencentes aos senhorios da Coroa, das Casas da Rainha e do Infantado e da Patriarcal. A hasta pública rendeu dois mil contos de réis

Ajudar a abater o elevado défice público foi a razão que levou o Estado a alienar 48 mil hectares pertencentes aos senhorios da Coroa, das Casas da Rainha e do Infantado e da Patriarcal. A hasta pública rendeu dois mil contos de réis

Tradição e modernidade, cultura e história, gestão eficiente e sustentável. Conseguir o equilíbrio entre estas diferentes sensibilidades, num território com 18 mil hectares, que se pretende aberto à comunidade, é o desafio que se coloca diariamente a quem dirige a Companhia das Lezírias, maior exploração agroflorestal do País.

Na altura em que o DN foi fundado (1864), a então Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado levava já 28 anos de vida. Uma altura em que “se discutia a possibilidade de alienar terras menos rentáveis e, com esse dinheiro, recomprar ações da companhia”, situa António Saraiva, presidente da empresa desde janeiro de 2012.

Fundada em 1836, o aluguer de terras era parte importante das receitas. “Tal como ainda hoje é. Arrendamos cerca de 5500 hectares dos nossos melhores terrenos”, aponta o responsável. A produção de cereais era uma referência, tal como agora, embora o milho tenha substituído o trigo então cultivado.

Então como agora, o montado mantém-se como referência, com a companhia a possuir a maior mancha contínua de montado pertença de um único proprietário em Portugal (6730 hectares). “Havia internamente uma consciência muito grande da importância do montado e da valorização da cortiça e saiam informações para os rendeiros nesse sentido”, conta. Um papel que a empresa mantém? “Os agricultores evoluíram muito e hoje temos a trabalhar connosco os mais profissionais do País. Já não lhes ensinamos nada, aprendemos com eles, mas isso não invalida que eles continuem a olhar para a companhia como uma referência.”

Além das rendas, a atividade agroflorestal tem um peso significativo nos resultados da empresa. Integrada num agrupamento de produtores (a Orivárzea, da qual a empresa tem posição maioritária), em 2013, o arroz Bom Sucesso foi a principal fonte de rendimentos, em termos de vendas, contribuindo com 1,2 milhões dos 4,8 milhões de euros faturados. E, explica António Saraiva, “é como o Ferrero Rocher: quando se acaba o arroz já não há mais, só na próxima época”. Em termos de importância, “os vinhos e o azeite lutaram ombro a ombro pelo primeiro lugar”, refere, com vendas de 1,12 milhões.

Há pouco mais de dois anos em funções, António Saraiva explica os objetivos da sua administração: “Tentámos centrar-nos em produções interessantes, com valor de mercado.” Opções que passaram pela cultura do milho e “muito mais energia posta na produção vitivinícola desenvolvendo marcas próprias mais fortes, tentando vender os vinhos a preços mais elevados, em mercados que paguem melhor, reposicionando a imagem e reorganizando a distribuição”.

Com uma herança extraordinária, a Companhia das Lezírias tem a seu cargo, desde agosto de 2013, a gestão da Coudelaria de Alter do Chão

Com uma herança extraordinária, a Companhia das Lezírias tem a seu cargo, desde agosto de 2013, a gestão da Coudelaria de Alter do Chão

“Temos uma herança extraordinária e muito orgulho naquilo que é feito aqui e, por isso, queremos divulgá-lo ao máximo”, junta, elencando um outro desafio: “Abrir o mais possível a companhia à sociedade.” As visitas que recebem, a aposta no turismo de natureza e equestre – na Companhia são criados cavalos Puro-Sangue Lusitano – e o investimento no espaço de visitação e observação de aves (EVOA) são instrumentos para atingir esse fim.

Com parte dos terrenos no coração da Reserva Natural do Estuário do Tejo, uma das dez zonas húmidas mais importantes da Europa e a mais relevante do País, o EVOA, a funcionar em pleno desde abril de 2013, é encarado por António Saraiva como “uma área de responsabilidade”. O complexo, com cerca de 80 hectares, promove a iniciação ao birdwatching para dar a conhecer o valor do estuário do Tejo.

A consciência da importância dos diferentes habitats que fazem parte da Companhia “existe há muitos anos”, refere, ilustrando essa preocupação com todos os registos arquivados – com exceção dos que se perderam num incêndio da sede, em Samora Correia, em 1863. “Há um ativo que produzimos muito bem e que não consta dos relatórios e contas: a conservação da natureza e a preservação do que aqui temos.” “Estamos aqui de passagem e sabemos que há gente que vem a seguir e que vai utilizar a informação que hoje estamos aqui a produzir”, diz.

MARINA MARQUES

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