O fracasso dos golpistas com saudades de Franco

O DIA EM QUE O DN CONTOU: A intentona militar de 23 de fevereiro de 1981 em Espanha mereceu duas edições no DN do dia seguinte, a segunda delas já a noticiar o fracasso do golpe. O correspondente do jornal em Madrid, José António Novais, estava nas Cortes quando o tenente-coronel Tejero Molina entrou de arma em punho. E o chefe de redação, Fernando Pires, que acabava de aterrar em Barajas, de imediato se lançou também a cobrir essa tentativa de acabar com a democracia

“Às 18.20 da tarde, uma rajada de metralhadora soou no Parlamento. Um tenente-coronel da Guarda Civil, de pistola em punho, subiu até à tribuna presidencial e encostou a sua arma à cabeça do presidente das Cortes, Landelino Lavilla, enquanto uma centena de elementos da Guarda Civil entravam no Parlamento”, escreve no DN José António Novais, que assistiu em Madrid ao golpe fracassado de 23 de fevereiro de 1981.

Vencedor da Guerra Civil de 1936-1939, Francisco Franco conseguiu manter a Espanha neutral durante a Segunda Guerra Mundial e assim sobreviver ao fim de Hitler e Mussolini, que o tinham ajudado a derrotar os republicanos. Caudilho de Espanha, anticomunista como poucos, só aceitou a modernização do país a partir de 1960, integrando tecnocratas no governo, mas agarrou-se ao poder até à morte, em 1975. A sua última jogada foi nomear herdeiro o neto do último rei espanhol, e assim restaurar a monarquia. Não adivinhou, porém, que Juan Carlos seria o grande promotor da democratização .

Vencedor da Guerra Civil de 1936-1939, Francisco Franco conseguiu manter a Espanha neutral durante a Segunda Guerra Mundial e assim sobreviver ao fim de Hitler e Mussolini, que o tinham ajudado a derrotar os republicanos. Caudilho de Espanha, anticomunista como poucos, só aceitou a modernização do país a partir de 1960, integrando tecnocratas no governo, mas agarrou-se ao poder até à morte, em 1975. A sua última jogada foi nomear herdeiro o neto do último rei espanhol, e assim restaurar a monarquia. Não adivinhou, porém, que Juan Carlos seria o grande promotor da democratização .

Como é anunciado na primeira página do dia seguinte, na qual a intentona militar faz a manchete, “O correspondente do DN viveu os acontecimentos nas Cortes”. Até ser expulso pelos golpistas liderado por Tejero Molina, como o próprio contou: “Dois guardas civis de metralhadoras apontadas entram na tribuna da imprensa, onde nos encontrávamos. Ouviu-se uma voz: ‘Deitem-se no chão.’ Jornalistas e convidados deitámo-nos por terra.” Depois, relata o repórter, algumas palavras destinadas a acalmar, um “estejam tranquilos que não acontece nada”. Mas um locutor da Cadena SER, que insistia no relato dos acontecimentos, viu uma metralhadora apontada e recebeu uma ordem ameaçadora: “Corta o microfone ou mato-te.”

No instante seguinte da crónica – na realidade, passou uma hora e dez minutos -, os jornalistas estão fora do Parlamento. E Tejero Molina, figura de opereta, de bigode e com o tradicional tricórnio da Guarda Civil, é dono e senhor de uma corte onde os deputados foram obrigados a agachar-se, só resistindo três: o chefe do governo Adolfo Suárez, o seu número dois, o general Gutiérrez Mellado, e o comunista Santiago Carrillo.

O velho general, invocando ser o militar de mais elevada patente presente na sala, chegou a dar ordem de rendição ao coronel golpista, mas foi afastado à bruta, com Tejero Molina a disparar para o ar, outros a imitá-lo com rajadas de metralhadora, num ato de intimidação para cortar qualquer resistência. No exterior, o aparato militar era enorme.

“Já na rua, vimos várias centenas de guardas civis, com oito carros pesados, que cercavam o Parlamento”, conta o correspondente em Madrid, consciente de que assistia a um sério desafio da extrema-direita à democracia. Filho de um português que foi colaborador íntimo de Manuel Azaña, segundo presidente da República Espanhola, José António Novais notabilizara-se nas últimas décadas do fascismo como correspondente do Le Monde. Além da colaboração com o DN, publicava ainda em jornais brasileiros.

As reportagens no diário francês irritaram  várias vezes Francisco Franco, que, impedido de retaliar à luz do dia, multiplicava os obstáculos burocráticos ao repórter, chegando a tirar-lhe as credenciais que lhe permitiam trabalhar como jornalista. Com os seus artigos, José António Novais travava também a brutalidade do regime. Aquando da sua morte, o El País relembrou que “sair nas crónicas de Novais no Le Monde era uma proteção contra a tortura”. Passava a ter-se nome.

Tejero Molina já tinha participado numa revolta falhada e sabia-se do seu desagrado com o caos no país, assolado pelos atentados da ETA e não só. Fracassado o novo golpe, foi condenado a 30 anos de prisão. Saiu ao fim de 15.

Tejero Molina já tinha participado numa revolta falhada e sabia-se do seu desagrado com o caos no país, assolado pelos atentados da ETA e não só. Fracassado o novo golpe, foi condenado a 30 anos de prisão. Saiu ao fim de 15.

Num golpe de sorte, o DN consegue ter um segundo homem em Madrid logo depois do início da ocupação das Cortes. Na segunda edição publicada a 24 de fevereiro, a primeira página destaca já, puxando pelos galões, que “Fernando Pires e José António Novais descrevem acontecimentos em Madrid”.

O chefe de redação chegara a Espanha para reportagem numa fábrica de tratores. De imediato, percebe que a missão tem de ser outra: “Ouço falar do golpe de Estado mal chego ao aeroporto de Barajas. Coisas vagas, com um tenente-coronel e uns tantos soldados da Guarda Civil que invadem o Parlamento”, escreve no seu primeiro despacho.

Fernando Pires dedicou meio século ao jornal, de redator a secretário-geral, com grande parte da carreira como chefe de redação (para muitos continua a ser “o chefe Pires”) e uma experiência de diretor interino em finais de 1988. Em 2012, reformado, lançou o livro Os Meus 50 Anos no Diário de Notícias. Já José António Novais, filho de um português que foi colaborador do segundo presidente da República Espanhola, destacou-se como correspondente em Madrid do Le Monde  nos anos 1960 e 1970, antes de trabalhar para o DN. Morreu em 1993, com o obituário no El País  a afirmar ter sido este “o correspondente mais bem informado durante os últimos anos do regime de Franco”.

Fernando Pires dedicou meio século ao jornal, de redator a secretário-geral, com grande parte da carreira como chefe de redação (para muitos continua a ser “o chefe Pires”) e uma experiência de diretor interino em finais de 1988. Em 2012, reformado, lançou o livro Os Meus 50 Anos no Diário de Notícias. Já José António Novais, filho de um português que foi colaborador do segundo presidente da República Espanhola, destacou-se como correspondente em Madrid do Le Monde nos anos 1960 e 1970, antes de trabalhar para o DN. Morreu em 1993, com o obituário no El País a afirmar ter sido este “o correspondente mais bem informado durante os últimos anos do regime de Franco”.

Correria até ao hotel. Largadas as malas, ida para o centro dos acontecimentos. E começa o relato do ambiente em Madrid, perto do Museu do Prado, onde todas as preocupações se centram no que se passa a alguns metros dali, no Palácio das Cortes: “Recomendam-me cuidado. Há grupos de manifestantes e nunca se sabe. Mas a calma de toda a gente faz-me sorrir da recomendação. Avanço tranquilo para a Praça Neptuno. Carros da polícia em volta, soldados armados mantendo nos passeios umas centenas de curiosos. Pequenos grupos, ouvidos apontados aos transístores.” Há calma, mas também desconfiança. Franco morreu seis anos antes e a democracia é frágil, com crise política e um quotidiano marcado pelos atentados da ETA. Fernando Pires conta que um dos espanhóis com quem fala na rua mostra nervosismo e pergunta mesmo se estará a ser gravado.

O golpe falha. Juan Carlos faz uma comunicação madrugada dentro a ordenar aos militares o regresso aos quartéis. Os espanhóis ficaram agarrados à televisão à espera do que o rei tinha para dizer. E se a manchete da primeira edição do DN era “Tentativa de golpe militar em Espanha com sequestro do Parlamento e do Governo”, já a segunda anunciava o desfecho da intentona: “Tentativa de golpe militar malogrou-se em Espanha”. Por trás de Tejero Molina havia generais de peso como Miláns del Bosch e Alfonso Armada. Foram julgados e condenados. E a jovem democracia espanhola sai reforçada.  Portugal ficou, claro, também a ganhar. Como escreve a 25 de fevereiro, em editorial, o diretor Mário Mesquita, “a Península Ibérica não regressará ao passado de autocracia nem concebe o seu futuro como um reduto de ditaduras dos anos 30 em plena Europa democrática”.

Tejero Molina, Adolfo Suárez e Juan Carlos foram, cada um à sua maneira, os protagonistas desse dia dramático. Este ano voltaram todos a ser notícia. O rei, porque abdicou para o filho Felipe VI. O antigo chefe de governo, há muito doente, morreu, recebendo elogios unânimes pelo papel na transição para a democracia. E o golpista, hoje com 82 anos, participou na polémica celebração organizada num quartel pelo filho, também oficial da Guarda Civil, dos 33 anos do 23-F, que é como esta data se fixou no imaginário espanhol.

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

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Existem 2 comentários

  1. Pedro Machado

    Como facto remarcável da História comum dos dois povos ibéricos, Salazar e Franco livraram-nos da guerra mas decididamente também do desenvolvimento, numa História estranhamente semelhante e sincronizada. Que se passou em 23 de Fevereiro de 1981 às 18h:23m? Existem várias teorias mas pelos factos começam quando 200 guardas civis irrompem pelo parlamento e gritam – “Quietos! Todo o mundo, ao solo” liderados pelo tenente coronel António Tejero Molina. Adolfo Suarez tinha se demitido em 23 de Janeiro, prevendo oposição do Exercito ao regime democrático.

  2. Pedro Machado (continuação)

    Muito discutido tem sido o papel e o processo do próprio Rei Juan Carlos naquele fatídico dia de 23 de Fevereiro. Fez um discurso defendendo a democracia que muitos estudiosos e historiadores consideram “vital” para que o golpe não fosse bem sucedido.
    No entanto, a história não oficial e alguns críticos celebres da monarquia sugerem que simpatizava com os rebeldes, uma herança a liquidar aos simpatizantes de Franco, pois fora ele que lhe dera o poder e havia um governo demitido de Suarez, ele próprio se tinha demitido a 23 de Janeiro. Ainda outro ponto crucial seria como dizia Coronel Martínez Inglês no seu livro “23-F”, “quem verdadeiramente estava por trás da tentativa derrubar o governo era o próprio Rei”.
    Teorias à parte, a imagem do rei Juan Carlos e foi reforçada para que 33 anos depois, o seu papel no 23 F é o principal argumento dos monarquistas na Espanha para defender sua figura. Nos últimos 33 anos não estão bem clarificadas as intenções de Tejero no Congresso dos Deputados, uma vez que oferece a possibilidade ao virar da esquina do regime militar com Milans del Bosch, até outras possibilidades mais neutras, como um ‘Governo de Salvação Nacional, formado por todas as partes, mas presididos por militares.
    Tejero foi condenado 30 anos de prisão pelo delito de “rebelião militar consumado” e apenas vai cumprir de 14. Foi expulso do Exército pelo frustrado golpe de Estado. Actualmente encontra-se retirado da vida pública, da qual somente sai em 2006 por denunciar o Estatuto de Autonomia da Catalunha.

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