Como Angola se tornou um país independente

O DIA EM QUE O DN CONTOU: No dia 11 de novembro de 1975, África acordou com mais um país soberano: Angola, um dos territórios que Portugal dominara durante cinco séculos. José António Santos, então um jovem jornalista, foi a pessoa escolhida pelo DN para fazer a reportagem sobre a independência do novo Estado. Com frequência, as suas crónicas estão presentes na primeira página do jornal que durante 20 dias não perdeu de vista o que se passava na antiga colónia portuguesa

“Angola independente”, afirmava o DN em título de editorial na sua primeira página do dia 11 de novembro de 1975. O texto não só aplaude a luta do povo angolano para chegar à independência como liga o destino dos dois povos – de Portugal e de Angola -, tendo em conta o momento “revolucionário” que vivem. Por seu turno, José António Santos, o enviado do Diário de Notícias a Luanda, ao longo de 20 edições, vai dando conta do que acontece na capital do novo Estado.

Angola foi a última colónia portuguesa a alcançar a independência. A esse facto não é alheia a sua própria situação interna, onde três movimentos - apoiados por países diferentes - disputavam pelas armas o controlo político. Estava-se em plena Guerra Fria. E Angola foi disso vítima. O MPLA de Agostinho Neto tinha o apoio da URSS; a UNITA de Jonas Savimbi contava com a África do Sul e os EUA e o Zaire apoiavam a FNLA de Holden Roberto. Portugal procurou que se entendessem e fizessem um governo de união nacional, mas as tentativas foram goradas e as armas falaram sempre mais alto.

Angola foi a última colónia portuguesa a alcançar a independência. A esse facto não é alheia a sua própria situação interna, onde três movimentos – apoiados por países diferentes – disputavam pelas armas o controlo político. Estava-se em plena Guerra Fria. E Angola foi disso vítima. O MPLA de Agostinho Neto tinha o apoio da URSS; a UNITA de Jonas Savimbi contava com a África do Sul e os EUA e o Zaire apoiavam a FNLA de Holden Roberto. Portugal procurou que se entendessem e fizessem um governo de união nacional, mas as tentativas foram goradas e as armas falaram sempre mais alto.

Sob o título “O povo angolano em festa/liberdade e vigilância”, o jornalista contava na sua primeira crónica que as “organizações populares de base, comissões de trabalhadores e moradores, festejam, nas suas áreas de residência, a alegria e a grande responsabilidade de ser livres”. E explicava: “Alegria, porque o longínquo horizonte da formação de uma nova sociedade edificada pelo homem novo, com o fim da soberania portuguesa em Angola, está mais perto. Responsabilidade, porque os angolanos sentem e sofrem na sua própria carne a agressão de um novo inimigo, o imperialismo, que é urgente derrotar. Daí que a festa da independência de Angola não seja vivida pelo seu povo apenas com as esperadas manifestações de alegria e felicidade.”

Aludia-se, assim, à guerra que o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), presidido por Agostinho Neto, travava com os outros dois movimentos de libertação – a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). No momento em que se declara a independência, as forças de Agostinho Neto combatiam em duas frentes. Daí que “nas ruas, nos bairros, as massas trabalhadoras, em torno do MPLA”, assumissem “a histórica responsabilidade de proclamar a independência em vigilância revolucionária”.

“Em cada bairro, as massas populares festejam com diversos programas, elaborados pelas comissões de moradores e trabalhadores, o nascimento da sua pátria”, uma forma de evitar que a multidão se concentrasse no centro de uma cidade a 30 km da qual estava uma das frentes de batalha.

As cerimónias não deixaram, porém, de acontecer, embora sem fogo-de-artifício porque, como o DN publica nesse dia, “as autoridades portuguesas impediram que nove fogueteiros de Lanhelas embarcassem para Luanda com 2100 kg de fogo-de-artifício” e respetivas armações.

“Um combatente do 4 de Fevereiro e um pioneiro, à meia-noite, fizeram subir ao mastro de honra da Praça 1.º de Maio a nova bandeira de Angola. Após este ato simples, o MPLA proclamou oficialmente a independência de Angola. No final, foi cantado o hino nacional que se intitula Angola, Avante e não como fora anunciado ‘Avante, povo’”, relata José António Santos.

“Foi a minha grande prova de fogo a nível profissional”, recorda José António Santos, o jornalista que o DN enviou a Luanda para fazer a reportagem da independência. Não foi fácil. Eram outros tempos. “Lembro-me do dia 10 à noite, ditei a crónica pelo telefone ao som dos tiros [de festa] que eram dados para o ar, lembro-me do som e, como eram balas tracejantes, do céu de Luanda todo iluminado”, conta o ex-editor executivo adjunto do DN. De Luanda, onde a informação era escassa, trouxe ainda outras memórias: ali, ouviu pela primeira vez os “órgãos de Estaline” [rockets Katiushas] que defendiam a cidade do assalto da UNITA e da FNLA e viu os gigantes aviões Antonov .

“Foi a minha grande prova de fogo a nível profissional”, recorda José António Santos, o jornalista que o DN enviou a Luanda para fazer a reportagem da independência. Não foi fácil. Eram outros tempos. “Lembro-me do dia 10 à noite, ditei a crónica pelo telefone ao som dos tiros [de festa] que eram dados para o ar, lembro-me do som e, como eram balas tracejantes, do céu de Luanda todo iluminado”, conta o ex-editor executivo adjunto do DN. De Luanda, onde a informação era escassa, trouxe ainda outras memórias: ali, ouviu pela primeira vez os “órgãos de Estaline” [rockets Katiushas] que defendiam a cidade do assalto da UNITA e da FNLA e viu os gigantes aviões Antonov .

Anos mais tarde, o DN perceberia a mudança do título do hino de Angola. Dada a situação especialmente tensa que se vivia em Luanda – provocada pela guerra – e com os preparativos da independência, ninguém mais se lembrara do hino. Na véspera do dia  alguém perguntou pelo hino. Não havia. Ruy Mingas foi então encarregado de o “produzir”. E o célebre músico [que foi depois embaixador em Lisboa] deu vida a Angola, Avante.

Antes de Agostinho Neto ter feito a proclamação “solene” da independência “às zero horas de 11 de novembro”, o alto-comissário de Portugal em Angola fizera o mesmo. “O contra-almirante Leonel Cardoso, dirigindo-se aos povos português e angolano e ao mundo, perante representantes de órgãos de informação de muitos países (…), assumiu às 12 horas de ontem o último ato político.”  “Lamento não poder tomar parte em qualquer cerimónia comemorativa na hora maior da vida do povo angolano, dado que fazê-lo nas atuais circunstâncias equivaleria da parte de Portugal a uma ingerência no sagrado direito que assiste ao povo de decidir do seu próprio futuro”, disse o contra-almirante, que em seguida proclamou “solenemente” a independência do novo país.

Este discurso “causou reação desfavorável na opinião pública e no povo de Luanda”, revela José António Santos, que dá conta de como “durante o dia de ontem, sem qualquer cerimónia protocolar, as tropas portuguesas foram abandonando as instalações onde ainda se encontravam – o palácio e a fortaleza de São Miguel – e embarcaram nos navios Uíge, Niassa e São Gabriel, ancorados ao largo da ilha. “Navegam já rumo a Lisboa.”

Este mal-estar entre o novo país e a “metrópole” está presente no discurso de Agostinho Neto ao proclamar a independência. “Mais uma vez deixamos aqui expresso que a nossa luta não foi nem nunca será contra o povo português”, e, sem esconder a mágoa, avançou na crítica aos dirigentes portugueses por “terem silenciado a invasão de que o nosso país é vítima”. Dias mais tarde, retoma o tema, ao enviar, através do DN, uma mensagem ao povo português. Não ao Governo, que continuava sem reconhecer o novo país.

LUMENA RAPOSO

Existem 12 comentários

  1. angolano revoltado

    TRETAS! Portugal entregou de bandeja o poder aos lacaios do imperialismo soviético, os cães do MPLA! E para inglês ver, não cumpriu o protocolo, para fazer crer que era imparcial. Todos sabiam que na prática, as F.A. portuguesas estavam dominadas pelo PCP, principalmente as que ainda se encontravam em território angolano.Uma vergonha para a História de Portugal.

    1. Jose

      E verdade,uma vergonha. Luta de libertação ou guerra civil? Falta explicar,quando talvez a volta de 80% do exército era local. O povo queria a independência,mas queria saber como era,não queriam para Angola o mesmo que se passava noutros países africanos. Disso tinham consciência,e aquilo que nunca foi dito,porque não fizeram um referendo? E muito mais ha para dizer. Lamento que depois de 1974,Portugal seja um vazio em termos de políticos. A sua incapacidade nota se na crescente perda de influência na cplp,com politicas mirabolante,bom para o Brasil que sempre ganhou com a estupidez dos Portugueses.
      Muito fica por dizer,acordem

  2. ninguém

    Eu estava lá nesse dia, a mil Kms de Luanda. Portugal, neste caso os seus representantes, foram uma miséria no seu comportamento. Continuei nesse país por vários anos ainda. Foram tempos terríveis: fome, prisão, todo o tipo de dificuldades sendo um “filho de colono”…enfim. É uma terra que tem tudo, excepto “governantes” para ser uma potência, mas vai ser difícil.

  3. Angolano

    Finalmente, depois de séculos de exploração pelos chulos, Angola é um país livre e soberano. Temos a maravilhosa dádiva do petróleo que conduzirá nossa nação a dias de plena glória. Os tempos de miséria e de subserviência acabaram. Hoje, a situação se inverteu, nossos ex-colonos passam fome e pedem dinheiro emprestado para sobreviver. É bem merecido por tudo de mal que nos fizeram.

  4. António Ramos

    Caro Angolano,

    A única coisa que mudou em Angola foram os amos, pois o povo continua a ser escravo. Já quanto a Portugal ter “chulado” esse território, não vou dizer que foram para ai para vos ajudar. Contudo, há uma grande diferença entre aqueles que foram para ai para trabalhar, daqueles que foram para explorar. Seja como for, os portugueses continuam a ser explorados como sempre foram, da mesma maneira que os nossos irmãos angolanos.

    “A minha pátria é a língua portuguesa”

    Bem hajam!!

  5. Matrindinde

    Vivi todo esse processo de independência e ainda me lembro de frases que o meu partido MPLA berrava por toda a Luanda: “abaixo o capitalismo!” Abaixo a exploração!” abaixo o colonialismo” “abaixo o imperialismo” “viva o poder popular!”…EhEhEhEhEhEh…Anos depois, todos aqueles farsantes abandonaram a doutrina marxista e entregaram-se de corpo e alma à mais vil exploração do povo. Reina agora o capitalismo selvagem. O que mudou? Apenas a cor dos nossos algozes…

  6. Victor Figueiredo

    Perfeitamente de acordo com António Ramos e Matrindinde. Contudo, não deixa de ser estranho, que a esfera politica angolana, é composta em grande parte por, comandantes e generais, que provavelmente a maioria mal sabe escrever, quanto mais saber de estratégia militar. E toda a estrutura política e económica se baseia na Sonangol versus Isabel dos Santos!
    Ah, e que muito contribui para as causas sociais do seu país (?)! Enfim. O povo angolano sempre contente!

  7. "Angola Independente"

    Peço desculpa, mas, doi-me tanto a barriga, pois, ainda não consegui parar de rir!!! Infelizmente, desconheceis quase de certeza o que significa na vida, A LEI DO RETORNO? Aguardai, e vereis…

  8. leonor

    Ao angolano das 10h58,leia o livro os diamantes de sangue de Rafael Marques e veja a liberdade que ganharam.A mim que nunca pús um pé em África arrepia-me pensar como é que as pessoas aguentam aquelas torturas.Se viver em liberdade é aquilo o que será viver numa ditadura?Só burros ou cegos é que podem dizer que vivem livres.Porrrrrrrra.

  9. Força, Coragem e Honra

    Caro matumbo estive em Angola na guerra do Ultramar de 1967 a 1970 e deixe-me dizer que vi cidades lindas como Luanda e Cabinda, um Território com uma Economia pujante cujo crescimento pedia meças ao que se passa actualmente com a China. Fui testemunha da gigantesca escolarização da juventude Angolana, principalmente em Luanda, que me deixou muito agradavelmente surpreendido. Fui testemunha da crescente importância de naturais de Angola no esforço de defesa do território contra o Comunismo, assisti a cerimónias desses Bravos Flechas antes das missões que iam desempenhar e garanto que era grandioso e inesquecível . Havia muita coisa má, é evidente que havia, fui testemunha, e nalguns casos insurgi-me contra isso. Mas vi e fiz parte de exemplos grandiosos de comunhão na defesa dos interesses comuns que perdurarão para sempre, ao contrário do que se passa hoje no meu País em que toda a trampa vem fazer o que na vossa terra não é permitido com o chicote e bem a funcionar. Garanto que hoje tenho um sentimento em relação a vocês muito diferente do desse tempo e também garanto que o problema não é meu, a minha forma de estar na vida mantém-se inalterada.

    1. Amaral

      Provavelmente A única coisa que que mudou na sua maneira de estar é o facto de se ter tornado um pouco mais retrógrado.
      Força Angola

Deixe o seu comentário