Gorreana: Chá contorna a crise e já projeta novos negócios

Criada em 1883 por Hermelinda Pacheco Gago da Câmara e seu filho, Simplício Gago da Câmara, a Fábrica de CHÁ GORREANA acolheu o arranque da Revolução Industrial nos Açores. Atualmente, é a mais antiga fábrica de chá na Europa em contínuo funcionamento desde a sua fundação. Prepara o salto para novos negócios

A unidade fabril localizada na Gorreana, freguesia da Maia, ilha de São Miguel, Açores, é uma das duas únicas e a mais antiga fábrica de chá na Europa em contínuo funcionamento desde que foi fundada, em 1883. E assim promete continuar, mesmo após o falecimento do homem que foi o seu principal timoneiro durante muitos anos: Hermano Mota. Este antigo empresário, por ter adquirido novos equipamentos e feito crescer a área de cultivo (possui um total de 32 hectares), aumentou para o dobro a capacidade da fábrica de Chá Gorreana, deixando – como reconhece a sua filha, Madalena Mota, atual responsável pela produção – “o trabalho de casa feito” para a família poder expandir o negócio. E é o que está a fazer, neste caso desenvolvendo estudos

Nas suas instalações, na ilha de São Miguel,  Açores, construídas ainda no século XIX, produz-se o chá verde Hysson e o preto Orange Pekoe, Pekoe e Broken Leaf, incluindo a marca Chá Canto. Um terço das suas vendas é feita ao balcão a visitantes e turistas

Nas suas instalações, na ilha de São Miguel, Açores, construídas ainda no século XIX, produz-se o chá verde Hysson e o preto Orange Pekoe, Pekoe e Broken Leaf, incluindo a marca Chá Canto. Um terço das suas vendas é feita ao balcão a visitantes e turistas

que permitirão à fábrica produzir e comercializar novos chás no final de 2014, incluindo chás com sabores e chá gelado, de modo a responder às solicitações e preferências dos consumidores. Prevê-se, no caso do ice tea, a entrada no mercado em 2015.

Para já, a experiência de produzir chás com sabores na Gorreana, a partir da marca Canto, é positiva. Madalena Mota sublinha que a produção e comercialização do Chá Canto – marca cedida há alguns anos à Gorreana – “tem tido muito boa aceitação” nas combinações de chá verde e jasmin e chá preto e bergamota.

A empresa que dirige com a irmã assume também como objetivo a certificação do chá para reforçar a qualidade e potenciar as vendas no exterior do País. Estas sustentam-se, em boa parte, nos compradores fidelizados – além dos Açores e de Portugal Continental – na Alemanha, França e Mercado da Saudade (EUA e Canadá), mas também nas que são feitas ao balcão (constituem 30%) a visitantes e turistas. Boa parte do bom chá da Gorreana segue para lojas gourmet na Alemanha, onde, reconhece, as pessoas “não olham ao preço, interessa-lhes é a qualidade”.

O chá apareceu em São Miguel no último quartel do século XIX para fazer face à crise da laranja, por iniciativa da

Fábrica de Chá Gorreana tem tanto de produção industrial como de museu vivo, carregado de história e tradição.

Fábrica de Chá Gorreana tem tanto de produção industrial como de museu vivo, carregado de história e tradição.

então Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. Com esse objetivo foram contratados, em 1878, dois técnicos chineses originários de Macau para virem a São Miguel ensinar técnicas de preparação das folhas e fabrico do produto. O saber ancestral passou de geração em geração e criaram-se novas fábricas de chá na ilha, mas a única que haveria de sobreviver ininterruptamente desde a sua fundação e que marca o início da Revolução Industrial nos Açores é a da Gorreana, fundada por Hermelinda Pacheco Gago da Câmara (5.ª avó de Madalena Mota) e seu filho, Simplício Gago da Câmara. Atualmente, é o estabelecimento da parte norte do concelho da Ribeira Grande com mais trabalhadores por sua conta: 40. Não pratica salários elevados porque “primeiro está a fábrica” e essa política tem-na conservado “há cinco gerações na mesma família”, diz a empresária, formada em Restauro de Arte. Aliás, é motivo de orgulho que “a fábrica nunca meteu ninguém para a rua”, mesmo com a crise. Para esta gestão contribui o facto de a unidade industrial na Gorreana não precisar de comprar energia à elétrica açoriana, visto que o seu fornecimento é assegurado internamente por uma central hídrica já centenária, que se alimenta de uma ribeira existente dentro da propriedade – cuja água, de resto, foi oferecida à Câmara Municipal da Ribeira Grande para ser canalizada para a vizinha freguesia de São Brás. “Seria impossível fazer chá se tivesse de comprar energia”, afirma, a propósito, Madalena Mota.

No mercado, a fábrica – já condecorada pelas autoridades regionais – apresenta-se com o chá verde Hysson e o preto Orange Pekoe, Pekoe e Broken Leaf, incluindo a marca Chá Canto.

A outra fábrica, a do Porto Formoso, recuperada em 98, está situada alguns quilómetros mais abaixo na estrada regional da costa norte. Entre as duas unidades industriais fica uma grande plantação com uma vista soberba sobre a linha de costa, onde, consoante as condições climatéricas, se produz uma média de 40 toneladas de chá por ano. É o que – com exceção de 2013, um dos piores anos devido à seca – acontece no complexo da Gorreana a seguir à apanha, entre março e outubro.

PAULO FAUSTINO

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