Casa Testa: Apostas já foram feitas em réis, escudos e euros

As paredes do estabelecimento que abriu em 1883 já viram muita sorte, mas também muito azar – um dos sócios chegou a tentar o suicídio quando a atividade não corria bem. A lotaria e o jogo continuam a ser a maior fatia do negócio, mas nos expositores da CASA TESTA há também moedas e notas para quem quer colecionar ou investir

O gerente da Casa Testa paga um prémio em dinheiro a um dos vencedores, numa foto sem data

O gerente da Casa Testa paga um prémio em dinheiro a um dos vencedores, numa foto sem data

Os réis com que os clientes da Casa Testa podiam comprar a lotaria em 1883, quando a loja abriu na Rua do Arsenal, em Lisboa, são os mesmos que hoje adornam os mostradores do estabelecimento, à espera do colecionador certo. As moedas da monarquia ou da República fazem parte do negócio, mas são os jogos de azar aqueles que movimentam milhões todos os anos. Mesmo que, com a crise, a febre já não seja igual à que era.

José R. Testa era uma figura de topo da alta sociedade financeira de Lisboa quando fundou a Casa Testa, que há 131 anos se dedicava à venda de lotarias, câmbios e papéis de crédito. Morreu em 1908 sem herdeiros, deixando as ações aos funcionários – Castelo, Diniz e Manuel Balão -, dividindo-as consoante a antiguidade de cada um. O último tinha entrado ao serviço a 1 de fevereiro de 1908, data do Regicídio, evento que testemunhou.

A nova empresa Castelo e Diniz Lda. não se limitava a gerir a Casa Testa, patrocinando uma equipa de ciclismo, organizando touradas e combates de boxe . Os sócios criaram ainda os rádios Testa, importando os aparelhos e depois pondo-lhes uma placa com a nova marca, e atuavam como banco, mesmo sem autorização. Diniz era também conhecido por, no Natal, oferecer uma lotaria e 20 escudos aos “cabeças de giz”, os polícias sinaleiros. Dessa forma, garantia prioridade nos cruzamentos.

Os funcionários Paulo Santos e Rui Mendes com uma cliente. A loja foi remodelada nos anos 1960. Na altura, na parede havia uma foto de barcos no Tejo. Uma infiltração obrigou a mudar a imagem: agora é da vila italiana de Sestri Levante (a única que havia disponível)

Os funcionários Paulo Santos e Rui Mendes com uma cliente. A loja foi remodelada nos anos 1960. Na altura, na parede havia uma foto de barcos no Tejo. Uma infiltração obrigou a mudar a imagem: agora é da vila italiana de Sestri Levante (a única que havia disponível)

Após a morte de Castelo, as ações passaram para os outros dois funcionários. Mas os negócios secundários acabariam por deixar a empresa em dificuldades, chegando Diniz a tentar o suicídio dentro do estabelecimento com uma arma de fogo (a bala entrou e saiu no cérebro). Numa altura de dificuldades financeiras, a empresa foi comprada por Costa Campos, que já tinha uma firma similar no Porto. Com a morte deste, sem deixar herdeiros, o negócio passou para a Santa Casa da Misericórdia do Porto.

A maior parte da história passa contudo despercebida aos clientes que entram para apostar uns euros. “A fatia maior do negócio é do jogo, principalmente da Lotaria, seguindo-se o Euromilhões e outros jogos de máquina”, contou ao DN Diamantino Jorge, que trabalha desde 1969 na Casa Testa.

Mas já não há enchentes: “Antes as pessoas eram capazes de jogar dez euros no Euromilhões, agora apostam o mínimo em cada dia que anda à roda. Antes fazíamos o triplo da receita.” Em relação às Lotarias (que rendem 12,7%, contra os 7% do Euromilhões) “olham para o prémio e acham que o valor não é aliciante”.

Mas os quatro funcionários – além de Diamantino, Paulo Santos, Rui Mendes e o irmão Pedro – recordam as histórias dos vencedores. “Havia um senhor que jogava sempre com o mesmo número na Lotaria e, uma semana, não veio, mas guardámos o número dele. Ganhou 70 mil euros”, lembram. “Disse que queria oferecer-nos qualquer coisinha, mas não tinha dinheiro com ele. Quando voltou, disse que afinal nos convidava para almoçar. Noutro dia, que ia matar um porco na terra e nos convidava… Bom, ainda estamos à espera do porco”, afirmam a rir.

Na parte da compra e venda de moedas e notas, o negócio também já esteve mais animado, por causa da desvalorização do ouro e da prata. “Quando o ouro estava em alta, era um rodar de moedas”, disse Diamantino. “A numismática, tirando aquelas pessoas que são colecionadoras, é um negócio como a Bolsa. Quando o preço do ouro está em baixo, as pessoas vêm comprar, quando está alto, vêm vender. O problema é que muitas compraram em alto e agora não se querem desfazer das moedas”, explicou.

Contudo, para os colecionadores, o interesse é encontrar a moeda que ainda não têm para completar a coleção (há muitos que deixam a sua “lista de falhas” na loja). A compra e venda processa–se ao balcão e o valor oferecido depende do estado de conservação, da antiguidade, da raridade da peça. “Às vezes há moedas antigas que não têm valor nenhum e há outras com poucos anos que têm muito valor”, referiu Diamantino. A moeda mais valiosa que neste momento está na loja é uma de dez escudos, de 1942, que custa 650 euros.

SUSANA SALVADOR

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