Como a sua jornalista foi presa no ‘Moby Dick’

O DIA EM QUE O DN CONTOU: No início de novembro de 1992, a agitação dominava ecologistas franceses e europeus. Era o primeiro transporte marítimo de plutónio. De França até ao Japão. Tudo preparado no maior segredo, até que a Greenpeace teve informações sobre o que ia acontecer. A imprensa inter-nacional rumou a Cherburgo. O DN também lá esteve através da sua enviada Filomena Naves, que, na noite de 6 para 7, assistiu a tudo e foi presa com outros jornalistas. No Moby Dick

 

“Plutónio passa ao largo de Portugal” era o título de abertura da secção Sociedade do DN, na sua edição de 3 de novembro de 1992. O jornal lançava, assim, o alerta e a polémica sobre o primeiro e maior carregamento marítimo de plutónio – 1,7 toneladas, o suficiente para fabricar várias bombas nucleares. A perigosa carga partiria da cidade francesa de Cherburgo rumo a Yokohama, no Japão. Para cobrir o evento, o DN enviou a jornalista Filomena Naves, que, durante vários dias, manteve os leitores do jornal informados sobre o que acontecia naquela cidade da Normandia.

A data exata da chegada e partida do cargueiro nipónico Akatsuki Maru mantinha--se no segredo dos deuses. A imprensa internacional, que se

“Os franceses não brincam em serviço!”, comenta Filomena Naves quando recorda os momentos vividos em Cherburgo, onde, na sua missão de “olhos e ouvidos do DN”, integrou o grupo de jornalistas que embarcou no barco da Greenpeace. O ano de 1992 marca a sua entrada nos quadros do DN mas o seu contacto com o jornalismo acontecera em 1983. Cinco anos depois colabora no Futuro e depois no Ciência e Ambiente, suplementos de ciência do DN. Uma vez nos quadros do jornal, é à área da ciência que se dedica e que a leva em reportagem à Ucrânia, aos Açores, a centros da NASA, nos EUA, e a ser coautora do livro Portugal a Quente e Frio, sobre alterações climáticas.

instalara em Cherburgo e transformara a pacata cidade no centro do mundo, e os ecologistas afadigavam-se para tentar descobrir o momento exato mas as autoridades francesas mantinham o sigilo. Uma coisa, porém, ficou clara desde o início: o Governo francês não deixaria que nada perturbasse o transporte do plutónio desde La Hague até Cherburgo, assim como o seu carregamento neste porto militar para o cargueiro nipónico e a sua partida.

Não surpreende por isso que na sua edição de 6 de novembro o DN faça manchete com o assunto, revelando em título de capa que “Carregamento de plutónio causa alarme em França”. Na página 20, o texto da enviada dá conta da chegada à cidade de “mais de 150 camiões do exército francês”. E com um pormenor curioso: “vários insufláveis rápidos” eram vistos a reboque dos camiões.

Este reforço de militares não surpreendeu os jornalistas. O que os deixou mesmo perplexos foi o megacentro de imprensa que a Cogema (fábrica ligada aos resíduos tóxicos) montou “na antiga gare marítima dos transatlânticos”: “quase uma dezena de faxes, outros tantos telefones e um ecrã gigante” para poderem seguir todas as manobras “em direto ou em diferido”, na “maior transparência”, como afirmaria o então ministro da Indústria e Comércio Externo, Dominique Strauss-Kahn. O centro de imprensa surpreendeu ainda pela inclusão de slot machines e bilhar, tudo para os cerca de 300 jornalistas que aguardavam ansiosos – como os ecologistas – a chegada do Akatsuki Maru, cujo regresso ao Japão estava cada vez mais difícil dado o número de países que lhe vedavam as suas águas territoriais.

O dia tão esperado acabou por chegar. Na edição de 7 de novembro, o DN dá conta do reforço de segurança na região de Cherburgo e noticia que o cargueiro nipónico chegaria nesse dia ao cais da cidade. Na edição do dia seguinte, porém, o jornal afirma em título na sua primeira página que “Autoridades francesas atacam Greenpeace” e revela que entre os jornalistas presos estava a sua enviada a Cherburgo. Em duas páginas, Filomena Naves conta a saga que viveu, com outros jornalistas e ecologistas, às mãos de comandos da Marinha francesa.

Portugal visado numa das rotas: uma das questões então discutidas referia-se às rotas que seguiria o barco nipónico. E uma das rotas prováveis passaria por águas territoriais portuguesas, hipótese que não se concretizou.

Portugal visado numa das rotas: uma das questões então discutidas referia-se às rotas que seguiria o barco nipónico. E uma das rotas prováveis passaria por águas territoriais portuguesas, hipótese que não se concretizou.

“Sexta-feira, 20 horas. A bordo do Moby Dick” (um dos barcos da Greenpeace no local) estão oito tripulantes, dois jovens voluntários franceses, sete jornalistas, incluindo a enviada do DN. É ali que irão aguardar a chegada do Akatsuki Maru que o Moby Dick tentará impedir de entrar no cais. É uma noite tensa. “Falta pouco para as quatro da madrugada (…). Na ponte, o telefone toca. É o aviso: ‘Em La Hague, os camiões começam a rolar’. Segundos depois é o Solo (outro barco do Greenpeace) que anuncia: ‘Moby Dick. Akatsuki Maru à vista’”, conta a enviada do DN e adianta: “Ninguém dorme. Na ponte, os jornalistas observam” a tentativa do Moby Dick de escapar às vedetas da Polícia Marítima e aos insufláveis para bloquear a entrada do porto, mas após 200 metros de fuga é “abalroado de ambos os lados”.

“‘Saiam todos da ponte, eles vão forçar as portas. Pode ser perigoso’, grita Pelle Peterson”, o comandante

Representado pelo símbolo químico PU, o plutónio foi descoberto em 1934 e recebeu o seu nome do planeta Plutão. Metal de cor prateada, radioativo, frágil e muito denso, é amplamente utilizado em armas nucleares. Por exemplo, estava presente na bomba lançada em Nagasáqui. É usado também em reatores nucleares civis. Por ser um grande emissor de radioatividade é considerado o elemento químico mais nocivo para a saúde; uma vez inalado ou ingerido, provoca danos graves nos tecidos vivos que podem evoluir para situações cancerígenas. Mas há notícias de cientistas “infetados” que viveram longos anos.

Saiba mais: Representado pelo símbolo químico PU, o plutónio foi descoberto em 1934 e recebeu o seu nome do planeta Plutão. Metal de cor prateada, radioativo, frágil e muito denso, é amplamente utilizado em armas nucleares. Por exemplo, estava presente na bomba lançada em Nagasáqui. É usado também em reatores nucleares civis. Por ser um grande emissor de radioatividade é considerado o elemento químico mais nocivo para a saúde; uma vez inalado ou ingerido, provoca danos graves nos tecidos vivos que podem evoluir para situações cancerígenas. Mas há notícias de cientistas “infetados” que viveram longos anos.

do Moby Dick quando comandos militares subiram a bordo. E a narrativa da enviada prossegue: “Ato contínuo, são os gritos e as janelas partidas. Dois militares entram de roldão e empurram um dos tripulantes, lançando-o por terra. ‘Parem com as fotografias. Acabem com isso’, grita o oficial no comando. Mas o cameraman da France2 continua a filmar e o repórter fotográfico do Libération não desiste (…)” Depois, é ainda da ponte que assistem ao lento aproximar de “um enorme navio iluminado”, o Akatsuki Maru.

Rebocados pela marinha para o interior do porto militar e uma vez chegados a terra, os jornalistas são separados da tripulação e levados para instalações militares. “Carteiras profissionais, nacionalidades e documentação são verificadas com lentidão e individualmente. Muito polidos, os agentes da guarda costeira mantêm-nos fechados numa pequena sala onde não há cadeiras para todos”, e onde não chega qualquer informação nem se pode contactar com o exterior. Três horas e meia depois, são libertados. A máquina fotográfica e a câmara são devolvidas mas a cassete e o filme ficam para “análise e leitura”. E são inúteis os protestos, como sublinha a enviada do DN.

Mas quando às 08.40 uma carrinha militar larga os jornalistas à beira da estrada, a três quilómetros de Cherburgo, “comparam-se os souvenirs. Cada um trouxe consigo, nos bolsos menos óbvios, os filmes que conseguiu esconder antes da apreensão do material. Amanhã, essas fotografias encherão as páginas dos jornais”.

LUMENA RAPOSO

 

A repórter portuguesa que ousou integrar grupo que desafiava autoridades francesas

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Existem 3 comentários

  1. Jorge domingos Silva

    A diferença entre o DN da época e o de hoje é proporcional à diferença entre uma Filomena Naves e uma Valentina Marcelino. Quando o DN perceber isso, voltará a ser um grande jornal…

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