O regresso dos heróis da “caravela voadora”

O DIA EM QUE O DN CONTOU: Em 1922, no centenário da independência do Brasil, Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram Lisboa-Rio de Janeiro em várias etapas, partindo a 30 de março de Belém e amarando no destino a 17 de junho. Regressam a Portugal de navio, a 26 de outubro, declarado feriado nacional. Em apoteose patriótica, o DN faz manchete com os aviadores quatro dias seguidos, apelidando-os de “sobre-humanos”,“imortais já nos Jerónimos da nação”

Artur de Sacadura Freire Cabral e Carlos Viegas Gago Coutinho eram oficiais da Marinha portuguesa. O primeiro, capitão-tenente, fez 41 anos a meio da travessia do Atlântico Sul, sendo promovido a capitão-de- fragata pelo feito. Gago Coutinho, de 53 anos, ascendeu a contra-almirante. Sacadura, que tinha pilotado pela primeira vez seis anos antes, dirigiu o avião; Coutinho foi o navegador. Tinham-se conhecido em Moçambique em 1907 e a ideia da travessia terá sido de Sacadura, que teria também interessado Coutinho pelos problemas da navegação aérea. O primeiro desapareceu em 1924, no mar do Norte, quando preparava um voo para a Índia; Gago Coutinho viveu até aos 90 (e mais um dia).

Artur de Sacadura Freire Cabral e Carlos Viegas Gago Coutinho eram oficiais da Marinha portuguesa. O primeiro, capitão-tenente, fez 41 anos a meio da travessia do Atlântico Sul, sendo promovido a capitão-de- fragata pelo feito. Gago Coutinho, de 53 anos, ascendeu a contra-almirante. Sacadura, que tinha pilotado pela primeira vez seis anos antes, dirigiu o avião; Coutinho foi o navegador. Tinham-se conhecido em Moçambique em 1907 e a ideia da travessia terá sido de Sacadura, que teria também interessado Coutinho pelos problemas da navegação aérea. O primeiro desapareceu em 1924, no mar do Norte, quando preparava um voo para a Índia; Gago Coutinho viveu até aos 90 (e mais um dia).

Sob o título “Gago Coutinho e Sacadura Cabral”, na “notícia” publicada na edição de 26 de outubro de 1922 lê-se: “Em regozijo da chegada dos nossos heroicos aviadores, todo o bom patriota deve deitar um foguete. Consta-nos que o armazém José Dias – sucessores – à Rua Arco Marquês do Alegrete, n.º 61, está prevenido com grande stock e vende mais barato.” À maneira dos jornais da época, a publicidade não se distingue do noticiário. Aliás, a propaganda, o encómio e o manifesto sobrelevam de tal modo qualquer rigor noticioso que a manchete do mesmo dia, encimando uma primeira página BD – com o desenho de um hidroavião, Torre de Belém de um lado e  Pão de Açúcar do Rio de Janeiro do outro, as imagens de Coutinho e Cabral em iluminura circular – é “Salve, aviadores portugueses!”, “Ergueram tanto ao alto a nossa Pátria que todo o mundo – todo! – a pôde ver!/ E a Pátria comovida abre-lhes hoje os braços para os cingir de encontro ao coração.” A página dois continua no mesmo estilo, com um texto intitulado “Sejam bem-vindos!”, que começa por garantir que Coutinho e Cabral são “almas gémeas” do “infante D. Henrique, Vasco da Gama e Álvares Cabral” para os descrever, sem qualquer precisão biográfica (nem a idade, 53 para Coutinho, 41 para Sacadura, faz parte do “retrato”) – “Gago Coutinho, tipo de vidente e de sábio, matemático que descende em linha reta de Pedro Nunes, inventando um novo aparelho e um novo processo para determinar quase instantaneamente as coordenadas do lugar”; “Sacadura Cabral, de nervos de aço, braço sólido e vista agudíssima”; “qual deles é o maior? Cada um dos dois se nos afigura, por vezes, maior do que o outro, porque ambos se nivelam com as águias, melhor diríamos, com os seres sobre–humanos, cujas proezas só as lendas sabem narrar”- e por fim, já na segunda coluna, a sua façanha. Contada como as tais lendas, em longas tiradas poéticas,  sem cronologia nem contextualização, apelidando de “feito sem igual” uma travessia que decorreu em quase dois meses e em várias etapas, fazendo uso de três aviões: tendo partido a 30 de março do Restelo no hidroavião Lusitânia, equipado com um horizonte artificial – inovação da autoria de Coutinho -, param nas Canárias, de onde partem a 5 de abril para Cabo Verde. Daí vão para a Praia e daí para o Arquipélago de S.Pedro e S.Paulo, já Brasil, onde a amaragem corre mal e o hidroavião afunda. São salvos pelo navio República; a 6 de maio Portugal envia outro avião e regressam ao arquipélago para percurso final. Corre mal e ao fim de nove horas no mar voltaram a ser salvos. Novo avião enviado,  lá chegam ao Rio de Janeiro a 17 de junho, perfazendo um tempo de voo total de 62 horas e 26 minutos para percorrer 8383 km.

É três anos antes de Sacadura e Coutinho, em 1919, que ocorre a primeira travessia aérea do Atlântico (Norte), efetuada também com paragens e em 24 dias pela tripulação  de um hidroavião da Marinha americana. No mesmo ano, os britânicos John Alcock e Arthur Brown logram fazê-lo  de uma só vez, em 16 horas. Oito anos depois (cinco após o feito dos portugueses, primeiros a atravessar o Atlântico Sul), Charles Lindbergh faria o Atlântico sozinho, numa rota bem mais longa (Nova Iorque-Paris), em 33,5 horas. Por qualquer motivo, é seu o nome que ficou para a história.

É três anos antes de Sacadura e Coutinho, em 1919, que ocorre a primeira travessia aérea do Atlântico (Norte), efetuada também com paragens e em 24 dias pela tripulação de um hidroavião da Marinha americana. No mesmo ano, os britânicos John Alcock e Arthur Brown logram fazê-lo de uma só vez, em 16 horas. Oito anos depois (cinco após o feito dos portugueses, primeiros a atravessar o Atlântico Sul), Charles Lindbergh faria o Atlântico sozinho, numa rota bem mais longa (Nova Iorque-Paris), em 33,5 horas. Por qualquer motivo, é seu o nome que ficou para a história.

Na edição de 27, a reportagem da chegada dos aviadores começa só na página quatro (as primeiras são paratranscrição de discursos e  mais manifestos patriótico-poéticos da lavra do jornal). Ficamos aí a saber que o DN foi de barco ao encontro do navio Porto, que transportava os “imortais já nos Jerónimos da nação”, os quais, por sinal, queriam diretos para casa: “Vê-se Sacadura a agitar negativamente a  cabeça e Coutinho dizer, dizer alto: ‘Então eu já não sou livre? Que querem vocês fazer mais de mim?” Sacadura: ‘Vamos daqui. Tudo o que a gente faz e diz há de ir para o jornal.’” Dito e feito. O DN anota também a diferença de reação e personalidade dos heróis: a reserva tristonha de Sacadura, sempre muito calado (“Talvez saudoso, talvez cansado, talvez feliz de voltar. Às vezes a felicidade dá tristeza”), e o sentido de humor de Coutinho, que comenta: “Faz de conta que é feito a outra pessoa.” Certo é que são eles que vão passar o dia nas ruas de Lisboa, aclamados como semideuses. No Terreiro do Paço, estudantes desatrelam os cavalos da carruagem que os transporta para a puxarem eles. “Lembra uma cena bíblica”, comenta o repórter (que logra o feito de tudo contar sem entrevistar um único elemento da multidão, limitando-se a ecoar o dito de “um velhote” sobre não se lembrar de algo assim). Isto tudo debaixo de chuva e também (há coisas que não mudam) de bordoada policial: “A única mancha de lodo naquele quadro de luz pura deu-a a polícia! – agredindo selvaticamente à pranchada e a casse-tête alguns dos trabalhadores da imprensa que andavam na sua missão de jornalistas!”

As festividades durarão dias, incluindo uma corrida de touros, um Te Deum na Sé (12 anos após a implantação da República a Lei da Separação entre Estado e religião parece nunca ter existido), festivais no Zoo e de atletismo, banquetes. Ao terceiro dia, a manchete dos aviadores partilha o espaço com a ascensão de Mussolini e dos seus fascistas em Itália; nas páginas interiores publica-se uma carta de presos políticos (nacionalistas/sidonistas radicais envolvidos num golpe falhado) dirigida aos aviadores: “Pela janela longa que o vosso voo abriu na bruma que quer asfixiar a nossa Terra, nós vemos a Verdade, o triunfo da Raça.”

O “triunfo da raça” virá já de seguida (é em 1923 que Hitler tenta um golpe de Estado na Alemanha; dez anos depois será chanceler). Não o verá o seriíssimo Sacadura, que sonhava emular o sonho de Magalhães e desaparece num voo sobre o mar do Norte em 1924. Gago Coutinho, que morre em 1959, será em vida entronizado nos livros do Estado Novo. Quiçá com a ironia evidenciada no excerto da carta a um amigo publicado no DN: “Todos os meus gestos, todas as minhas palavras pertencem à história. Decerto você já conhece a minha frase épica, quando entrei no República: ‘Deem-me umas calças limpas!’ (…) Juro–lhe que não me torno a meter noutra.”

FERNANDA CÂNCIO