Trindade: Uma cervejaria de inspiração conventual

De Amália aos Xutos & Pontapés foram vários os vultos da cultura nacional que povoaram, com gargalhadas e festa, as salas nobres da trindade, em Lisboa. Aos 175 anos de vida, a mais antiga cervejaria portuguesa recriou-se,  voltando às origens conventuais, notório na ementa, nos hábitos de monge dos gerentes e nas badaladas à hora certa

Sala nobre da cervejaria Trindade no século XIX, onde ficava o refeitório do Convento da Santíssima Trindade, com os painéis de azulejos alusivos aos quatro elementos

Sala nobre da cervejaria Trindade no século XIX, onde ficava o refeitório do Convento da Santíssima Trindade, com os painéis de azulejos alusivos aos quatro elementos

Mesas de madeira corridas a lembrar os refeitórios dos frades, candelabros feitos à medida com o logótipo da Trindade, lanternas nas mesas ao jantar, tochas na esplanada ao fim da tarde e gerentes vestidos com o hábito a fazer de monge. Agora, além dos famosos bifes, há todo um menu novo com pratos “conventuais” como arroz de pato à convento de Tavira ou lombo de bacalhau à Santo Ofício. Apontamentos medievais que os clientes da cervejaria Trindade, em Lisboa, já notam há dois meses.

A cervejaria mais antiga do País  inspirou-se no Convento da Santíssima Trindade, onde nasceu, para se recriar, como explicou ao DN Maria Martins, da direção de operações e Marketing do grupo Portugália, detentor da Trindade.

Em 175 anos de história, a cervejaria dos famosos bifes à Trindade e da apreciada cerveja está povoada de memórias de vultos da cultura ou simples boémios que a frequentaram. “Os Xutos & Pontapés nasceram ao balcão da Trindade. E a Amália esteve aqui em muitos jantares com amigos, sempre divertida”, conta o empregado mais antigo da casa, Hermínio Patrício, de 63 anos, 39 dos quais ao serviço da Trindade. “Trabalho na cervejaria desde os meus 24 anos.”

Só a partir de 1968 é que a Trindade saltou das cervejas para um espaço que também servia refeições. “Muitos advogados da nossa praça tiraram o curso ali no balcão. Um deles, uma vez, quis entrar com um cavalo aqui dentro”, conta Hermínio, abrindo o baú das recordações.

O mítico “João da Barateira”

Numa cervejaria com uma história tão rica, tinha de haver um cliente de proporções míticas. E houve: o “João da

Outra sala, a Maria Keil, agora renovada com candelabros a darem o toque conventual. O gerente Paulino Cândido, com o hábito de monge

Outra sala, a Maria Keil, agora renovada com candelabros a darem o toque conventual. O gerente Paulino Cândido, com o hábito de monge

Barateira”. “Era um senhor de barbas, funcionário da Livraria Barateira, que começou a frequentar a Trindade aos 19 anos e só parou aos 81, quando morreu”, contou Hermínio, a sorrir com os olhos. Solteirão, o “João da Barateira” ia a sua casa para dormir mas era na Trindade que passava as horas em que não trabalhava: almoçava ali todos os dias e regressava sempre ao fim da tarde. “Durante muitos anos, das sete da tarde às duas da manhã, bebia 25 litros de cerveja, fora as que já tinham ido ao almoço”, conta Hermínio, a sorrir como se estivesse a “ver” o cliente.  “Bebia cerveja preta e não tinha barriga, nem morreu de cirrose.”  Entre a realidade e o mito, Hermínio conta que João “tinha um calo na mão de tanto rodar a caneca de cerveja”. Morreu aos 81 anos o cliente que já era conhecido de toda a Lisboa, até dos jornais, a quem sempre recusou entrevistas.  “Quem pagou o seu funeral foi a Central de Cervejas.” A mesa de “João da Barateira” na Trindade teve uma vela acesa por três dias, em luto.

Os tempos mudaram e a crise também se refletiu na cervejaria, que adotou menus turísticos com cardápios conventuais a pensar nos visitantes de outros países. Afinal, a maioria da clientela é estrangeira, sobretudo do país vizinho. O empregado Hermínio recorda que “os espanhóis traziam farnel quando aqui só se vendia cerveja”.

Na década de 80 do século passado, período de apogeu boémio para a Trindade, a famosa cervejaria “era o restaurante do Bairro Alto e do Chiado, sobretudo após o incêndio que acabou com muitos estabelecimentos da zona”, como sublinha Maria Martins. “Hoje, o Bairro Alto e o Chiado estão cheios de restaurantes novos.”

Mas independentemente das necessárias adaptações aos novos tempos, o bife à Trindade e a cerveja serão sempre marcas do espaço. Até porque sempre houve clientes indefetíveis à procura disso mesmo. “Tínhamos aqui um cliente que comia 350 bifes por ano. Um bife por dia. Mas tinha de reclamar sempre, ou porque o molho não estava bom ou porque o vinho não prestava”, recorda Hermínio.

A magnífica sala repleta de painéis de azulejos vindos do Convento da Santíssima Trindade está povoada de memórias. De um Alfredo Marceneiro a discutir com um velhote rabugento, do cantor romântico Tony de Matos “a fumar três ou quatro maços de tabaco enquanto comia um bife”, do grupo boémio de Amália e tantos outros. São assim as casas com história.

RUTE COELHO

Sem comentários

  1. Nuno

    Estive a jantar na Trindade com uns amigos meus que estavam de visita a Portugal e foi uma experiência desastrosa.

    Como íamos ao cinema no teatro da Trindade, pareceu-nos uma boa escolha. Mas estávamos enganados…

    O serviço foi péssimo. Desde o tempo de espera até à forma como se dirigiram a nós para fazer o pedido. Chegaram ao ponto de aceitar um pedido e 20m depois vieram dizer que afinal aquele pedido só poderia ser servido ao balcão.

    A travessa de marisco que pedimos estava em péssima, com gambas que simplesmente estavam pretas (cruas nas palavras do gerente).

    Foi uma atêntica desilusão, culminado no preço. Foi muito caro para quem saiu de lá com fome.

    Certamente uma experiência a não repetir nos próximos anos…

Deixe o seu comentário