Água Castello: 115 anos a engarrafar água no Alentejo profundo

É bem antiga a concessão do negócio da água a privados. Em 1899 um comerciante de Lisboa ganhou por concurso  público a comercialização das “águas mineromedicinais” de Moura, a troco do pagamento ao município de cinco réis por cada litro de água. Nascia assim a Água Castello pela qual Fernando Pessa e Herman José já deram a cara

Uma das salas da antiga linha de engarrafamento em Pisões, Moura

Uma das salas da antiga linha de engarrafamento em Pisões, Moura

É a um comerciante lisboeta que se deve o início da comercialização da Água Castello. Corria o mês de janeiro de 1899 quando António Assis Camilo e o seu sócio, Júlio Máximo Pereira, ganharam por concurso público a concessão das “águas mineromedicinais” de Moura. Por cada litro de água obrigavam-se a pagar cinco réis ao município. E chamaram-lhe Castello, pois era dentro das muralhas que se encontravam localizadas a primeira nascente e a linha de engarrafamento.

Assis Camilo tornar-se-ia no único dono da empresa que passados poucos anos já exportava para os Estados Unidos. A primeira exportação registada é de 1904. E ainda hoje os EUA e Canadá constituem  o principal mercado externo.

Por essa altura, há 110 anos, fazer chegar a água à América constituía uma verdadeira odisseia. Primeiro era transportada de carroça nos dez quilómetros que separam Moura e Pias, onde se encontrava a estação de caminhos de ferro. Aqui era metida no comboio e enviada para Lisboa, depois embarcada para os EUA. Jorge Henriques, o atual diretor-geral da Água Castello, considera que só uma “enorme determinação” permitiu à empresa singrar e ultrapassar as diversas contrariedades, das difíceis ligações rodoviárias no interior do País à eterna crise da economia nacional: “A empresa nasceu em 1899 num período já de si conturbado. Parece que a crise portuguesa se perpetua no tempo.”

Das atuais linhas de engarrafamento saem todos os dias mais de 68 mil garrafas. Adquirida em 2007 por um grupo de investidores criado pelas sociedades Libarache e Moka Investments, a empresa produz anualmente cerca de 25 milhões de garrafas de água

Das atuais linhas de engarrafamento saem todos os dias mais de 68 mil garrafas. Adquirida em 2007 por um grupo de investidores criado pelas sociedades Libarache e Moka Investments, a empresa produz anualmente cerca de 25 milhões de garrafas de água

Só em finais da década de 30 é que António Assis Camilo deslocou a captação e engarrafamento para um terreno em Pisões, nos arredores de Moura, tendo inaugurado uma linha semiautomática e um laboratório especializado em análises de água.

Já depois da morte do comerciante lisboeta a marca apostou na “irreverência” como forma de conquistar consumidores – em 1960 o popular ator António Silva protagonizou o primeiro anúncio televisivo da Água Castello. Fernando Pessa também “deu voz e imagem” à marca. Tal como Herman José num anúncio dos anos 80 em que veste a pele de um empregado de bar solicitado a servir a água alentejana com as mais variadas bebidas, do whisky à sangria.

Jorge Henriques lembra que além da “irreverência” e da “ligação aos artistas” a empresa apostou na inovação logo em 1910 quando lançou as primeiras garrafas com cápsulas metálicas em vez de rolhas. Ou, mais recentemente, quando se tornou na primeira a lançar no mercado água natural aromatizada com limão e lima. A nova aposta é a Castello Fina que o empresário diz ter um perfil “mais gourmet” destinado a reforçar o consumo de água gaseificada à refeição.

São os novos desafios de uma empresa que em 1981 perdeu o cariz familiar ao ser adquirida pela Nestlé. Em 2007 teve nova mudança de propriedade, agora para um grupo de investidores criado pelas sociedades Libarache e Moka Investments. Nessa altura foi aberto um novo ciclo de investimentos:5 milhões de euros na renovação das linhas de engarrafamento e abertura e pesquisa de novas captações na zona de Pisões.

“Estamos a trabalhar, tal como aconteceu com os nossos antepassados, para termos uma empresa para mais um século”, diz o diretor– geral da Água Castello, garantindo que vai continuar a trabalhar com embalagens de vidro, totalmente produzidas em Portugal. “Temos aqui uma forte aposta no vidro reutilizável. Esta identidade da marca é para manter.”

Habituada a conviver com as crises económicas do País, a empresa regista agora sinais de crescimento num setor, sobretudo o da restauração, fortemente afetado pela redução do consumo e pelo aumento exponencial de impostos como o IVA. Em julho cresceu 11,7% no mercado interno, comparativamente com o mês homólogo de 2013, e tem acumulado um crescimento de 5% desde o início do ano. Indicadores de que “alguma coisa está a mudar, mas a recuperação é ainda muito frágil”, adverte Jorge Henriques.

As exportações são outra das grandes apostas, em particular para os países da lusofonia – Angola é já o terceiro mercado da empresa – e para Espanha, onde a Água Castello quer investir de forma mais significativa, “tanto pela proximidade como pelos hábitos de consumo”.

LUÍS GODINHO

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