A derrota na meia-final do Mundial de 1966

O DIA EM QUE O DN CONTOU: A 26 de julho de 1966, em estreia no campeonato do mundo, a equipa do “felino e terrível” Eusébio defrontou a Inglaterra em Wembley – e perdeu por dois a um. No fim, “o rei chorava convulsivamente”. O terceiro lugar, perante a Rússia, soube a pouco: “Já nada nos parecia impossível”, escrevia o enviado especial Alberto de Freitas, que reconhece, no entanto, a superioridade física dos ingleses e que os portugueses “bordaram demasiado o jogo”

Era “a melhor e mais inspirada” das equipas mas “na hora decisiva” não encontrou “a centelha”, escreve o enviado especial Alberto de Freitas, que titula: “Como um sonho morreu em beleza.” O título principal da primeira página, porém, com a famosa imagem de Eusébio a chorar escondendo a cara na camisola, faz mais do que das tripas coração, quer transformar a derrota em vitória, ainda que moral: “A classe e o brio da selecção nacional comprovados em Wembley.” E exclama mesmo, como contrapondo ao proverbial complexo de inferioridade luso: “Mas da derrota os portugueses não saíram diminuídos!”

Logo a seguir ao penalty marcado por Eusébio, o DN assinala outra grande penalidade que o árbitro não viu, ou preferiu não ver: “Aos 42 minutos o capitão inglês Moore auxiliou com braço a bola em frente à baliza. “ No jornal de 28, Eusébio, que vira já o jogo em câmara lenta, é citado: “Foi penalty! Não há dúvida! - Mas os árbitros não podem ver tudo.”  Nas “impressões colhidas no balneário” logo após o jogo (jornal de 27), Mário Coluna tem outra explicação: “O ambiente era de festa, faltava pouco para terminar o desafio. O resultado estava em 2-1. Não sei se qualquer outro árbitro não teria feito o mesmo.”

Logo a seguir ao penalty marcado por Eusébio, o DN assinala outra grande penalidade que o árbitro não viu, ou preferiu não ver: “Aos 42 minutos o capitão inglês Moore auxiliou com braço a bola em frente à baliza. “ No jornal de 28, Eusébio, que vira já o jogo em câmara lenta, é citado: “Foi penalty! Não há dúvida! – Mas os árbitros não podem ver tudo.” Nas “impressões colhidas no balneário” logo após o jogo (jornal de 27), Mário Coluna tem outra explicação: “O ambiente era de festa, faltava pouco para terminar o desafio. O resultado estava em 2-1. Não sei se qualquer outro árbitro não teria feito o mesmo.”

Na mesma página, do lado esquerdo, o título “Assinalado aniversário da reeleição do almirante Américo Thomaz” lembra--nos de que estamos em ditadura, que há censura instituída e que a atmosfera geral imporá que se dê a ideia de que os portugueses saem sempre por cima mesmo quando perdem. Afinal, estamos numa época em que a má figura num campeonato do mundo é algo politicamente tão grave que pode justificar, conta o DN na mesma página do relato do Inglaterra-Portugal, uma comissão parlamentar de inquérito como a anunciada no Brasil, campeão do mundo que perdera 2-1 com Portugal: “Os deputados, apreciadores de futebol, querem ouvir a comissão técnica e os jogadores integrados na selecção (…) para estudar o malogro da selecção brasileira.”

E talvez houvesse o que inquirir, a crer no relato do único sobrevivente da equipa do DN, o fotógrafo Alberto Santos, hoje com 79 anos. “Houve muitos percalços, coisas que não se contaram. Às vezes eu gritava porque dizia que não havia direito de não contarem as coisas.” Que coisas? “O selecionador [Manuel da Luz Afonso] fez o mundial todo com os mesmos jogadores. No jogo com a Coreia, que foi duríssimo, em cima da hora mandou despir uma série deles que estavam equipados para entrar. Uma coisa que não se faz e que contrariava o que ele tinha prometido, que era que todos iam poder jogar. Devia ter dado descanso a alguns que eram fundamentais e chegaram ao jogo com Inglaterra arrasados.” Mas, acha, também por outros motivos. “A seguir ao jogo com a Coreia, o selecionador disse que já tinham chegado à meia-final, que era o objetivo, e deu folga aos rapazes. Não se pode dar essa hipótese a rapazes de 20 anos, que há meses estavam ‘presos’, e ainda mais em Inglaterra, com centenas de raparigas aos saltos à volta do hotel. Só lhe digo que nessa noite nem pude dormir no meu quarto, que serviu de hospedaria. Claro que depois não estavam em condições. Na minha opinião, Portugal só não foi campeão do mundo porque foram burros. Aliás, no aeroporto um dos jogadores que não tinha conseguido jogar embebedou-se e responsabilizou o selecionador.”

O DN enviou a Inglaterra, a meias com o Mundo Desportivo, jornal da mesma empresa, uma equipa de luxo: três redatores (Alberto de Freitas, Couto e Santos e Manuel Mota) e um fotógrafo, Alberto Santos, hoje, com 79 anos, o único sobrevivente da aventura. Que conta que, sendo as ligações telefónicas caríssimas, conseguiram arranjar forma de os comandantes da TAP transportarem os rolos e os textos para Lisboa. “Era uma senhora holandesa, amiga do Couto e Santos, que ia despachar tudo ao aeroporto. Conseguia pôr aquela gente toda a fazer o que ela queria.” Testemunha privilegiada de um momento alto do futebol português, Santos tem muito para contar.

O DN enviou a Inglaterra, a meias com o Mundo Desportivo, jornal da mesma empresa, uma equipa de luxo: três redatores (Alberto de Freitas, Couto e Santos e Manuel Mota) e um fotógrafo, Alberto Santos, hoje, com 79 anos, o único sobrevivente da aventura. Que conta que, sendo as ligações telefónicas caríssimas, conseguiram arranjar forma de os comandantes da TAP transportarem os rolos e os textos para Lisboa. “Era uma senhora holandesa, amiga do Couto e Santos, que ia despachar tudo ao aeroporto. Conseguia pôr aquela gente toda a fazer o que ela queria.” Testemunha privilegiada de um momento alto do futebol português, Santos tem muito para contar.

Mas os colegas do fotógrafo – além de Freitas, Couto e Santos e Manuel Mota, todos colaboradores do Mundo Desportivo, jornal detido pela Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do DN – optariam por não relevar esses factos. “A censura foi feita lá”, frisa Santos. O tom de geral da cobertura, de facto, é de epopeia, embora aqui e ali se vinquem erros e a diferença de capacidade física das equipas, assinalando-se ironicamente, num pequeno texto sobre as “tentações “ patentes no hotel dos jogadores: “Futebolista em prova não é turista em férias – mas vá lá fazer compreender isto ao belo sexo inglês.”

O retrato que fica é o de uma equipa de heróis. “A galopada lusitana, nos derradeiros dez minutos da partida, ficará na história deste Mundial de 1966 como um dos espectáculos de maior grandiosidade e densidade dramática fornecidos por qualquer dos encontros. (…) Jamais se sofrera tanto num campo de futebol da velha Inglaterra (…) nunca num encontro decisivo, em que tenha participado uma selecção inglesa, os seus jogadores terão temido tanto a derrota e sentido a angustiosa insegurança de que deram provas os seus futebolistas quando Portugal, com uma coragem admirável, procurava o segundo golo.”

Na verdade, os portugueses nunca estiveram a ganhar; a Inglaterra adiantou-se no marcador aos 31 minutos, devido, reconhece o jornal, a “um lance de infelicidade”: “Avançavam os ingleses de tropel e o keeper [guarda-redes] saiu da baliza para pontapear a bola (…) não tendo a defesa acorrido com presteza e o louro Bobby Charlton rematou em plena corrida para a rede desguardada.” A equipa portuguesa reagiu, escreve o DN, mas “bordou talvez demasiadamente o jogo. A sua capacidade física, era evidente, não podia competir com a dos britânicos.” Assim, aos 34 minutos da segunda parte, Charlton volta a marcar. A seguir, uma mão de um jogador inglês vale um penalty que Eusébio transforma em golo. “Pouco depois, um minuto se tanto, Simões teve o golo do empate nos pés. Mas o nosso número 11 parece ter ficado deslumbrado ou atrapalhado com a possibilidade eminente de fazer um tento que seria, digamos, em palavras populares, ‘o fim do mundo’. E esse golo foi falhado por Simões, de maneira que, desde logo, a equipa portuguesa estava arredada do título mundial.”

Portugal venceria à Rússia e conquistaria o terceiro lugar (o melhor até hoje num Mundial) com Eusébio a ser considerado o melhor marcador do campeonato, arrecadando 162 “contos” (cerca de 37 904 euros a preços de hoje), 81 por ter feito mais golos e outros 81 por ser eleito pela imprensa o melhor jogador. A seleção, com o treinador Otto Glória e o selecionador, seria condecorada no regresso, a 1 de agosto, por Américo Thomaz e “vitoriada por milhares de pessoas” num desfile em carros abertos pelas ruas de Lisboa.

FERNANDA CÂNCIO

Existem 16 comentários

  1. Dr Feelgood

    Sim, claro, o Mundial e as lágrimas do Yauzébio…………mas o que achei ainda mais interessante foi a notícia sobre a crise na Nigéria com disputas entre muçulmanos do norte e cristãos do sul. Parece um remake de 2014 em flashback. Dis is a sad and biutiful world….

  2. Filipe

    olha o feelgood!!
    já estas a espalhar a tua sabedoria noutras bandas?
    fala mais um bocado… estou ancioso por ler as tuas sábias palavras…

    1. Dr Feelgood

      Bem podes ir ‘ anciando ‘, anal-fabeto! …….. E era este que me corrigia a ortografia ontem. Então não?

  3. Filipe

    e não é que tu tens toda a razão!! ansioso… ansiar e não anciar… foi o contentamento de te voltar a “ver” meu porco fascista…
    Costuma-se dizer que até os burros tem o seu momento para brilhar…
    E então…ja te sentas?

  4. SALAZARISMO NUNCA MAIS 1

    Nos corredores da Luz andou muitos anos um tal de Silva Pais “só” o responsavel pela PIDE. Mas mais, quando na ONU Portugal foi condenado pelo Ocupação das Colonias, foi precisamente o 5LB que via FPF criou um movimento de apoio ao Estado com o argumento de Portugal ser um Todo, negando dessa forma o direito à independencia dos Estados ilegalmente Ocupados. Essa iniciativa, foi concluida, recorede-se, com a leitura de um comunicado aos microfones da Emissora Nacional com o patrocinio do Presidente do Benfica e perante o então Ministro da Educação. O 5LB usou e foi usado pelo regime.

  5. SALAZARISMO NUNCA MAIS 2

    Para quem não se recorda, o Benfica jogava nas Amoreiras. Por causa da Construção da Auto-Estrada Lisboa/Cascais, Salazar expropriou o Benfica dando-lhe uma choruda indemnização e a utilização do Parque de jogos do Campo Grande a uma renda irrisoria. Como o Benfica estourou o dinheiro que deveria usar para comprar os terrenos em Monsanto, foi desta vez a CM Lisboa que expropriou os terrenos e os doou ao Benfica para que lá fosse construido o Estádio de Carnide, Luz mais popularmente.Os subsidios foram de tal forma dispares na construção dos estádios do Benfica e Belenenses que Acacio Rosa considera que foi ai o inicio do fim do Belenenses

  6. SALAZARISMO NUNCA MAIS 3

    Em pleno apogeu de Eusébio, este recebe de Itália uma proposta fabulosa para a época: Eusebio quer abandonar o Benfica. De emergencia, o Ministro dos Desportos reune com os dirigentes do Benfica e faz o acordo: Salazar “obriga” Eusebio a permanecer em Portugal e o Benfica aumenta-lhe significativamente o salário. E assim foi. Salazar promoveu aquilo que foi conhecida por “Nacionalização de Eusébio”.

  7. SALAZARISMO NUNCA MAIS 4

    Salazar servia-se do Benfica, e o Benfica servia-se de Salazar para exibir o portuguesismo dos nascidos nas colonias, que nos anos 60 na equipa do Benfica, eram aos pontapés. O Xenofobismo e subserviencia a Salazar continuou mesmo após a morte deste. E só em 1975, depois do 25 de Abril, da revolução, o Benfica contrata um “estrangeiro”, Jorge Gomes ao Boavista. Mesmo assim foi necessário uma Assembleia Geral para permitir a sua contratação e terminar com a equipa de “portugueses”. Foram décadas de Xenofobia pura e dura para agradar a Salazar. E disso tirarem proveito.

  8. SALAZARISMO NUNCA MAIS 5

    Para quem não se recorda, em plenos anos 60, o Benfica foi jogar uma eliminatoria a Viena, contra o Austria. O que teve de particular essa partida foi o facto de os adeptos do Austria de Viena terem perseguido, em pleno relvado, os jogadores do Benfica, enquanto os austriacos gritavam por “Fascistas, Fascistas, Fascistas” e só a intervenção policial não permitiu um linchamento que se adivinhava. Só por aqui dá para ter a ideia de como o Benfica era conotado e representava o Regime.

  9. Dude

    “Salazarismo nunca mais”: deves ser dum clube menor como o do Rei da Fruta ou do Exmo. BdC, seja como for, o Benfica nunca se afiliou a nenhum elemento do Governo de Salazar nem da PIDE, algumas das suas afirmações realçam a força do Benfica no desporto europeu e nacional. Veja-se as fundações dos estádios: Antas (28 de Maio de 1952 – 26º aniversário da Revolução de 1926), José Alvalade (10 de Junho de 1956 – o chamado “Dia da Raça”) e o da Luz (1 de Dezembro de 1954 – 414º aniversário da Restauração da Independência). O presidente do Porto Urgel Horta (inaugurou as Antas) foi deputado na Assembleia Nacional, o do Sporting Góis Mota foi Presidente da Legião Portuguesa (ameaçou de arma em punho o árbitro do Atlético-Sporting em 1956) e o do Benfica Vieira de Brito (dos Campeões Europeus) deu corpo e vida à Fundação Mário da Cunha Brito, em homenagem à memória de seu pai.

  10. SALAZARISMO NUNCA MAIS 1

    MANGALA, QUERIDO, ESPETA-ME A TUA ENORME VERGA PELO CUU ADENTRO E DEIXA-ME AINDA BEBER O TEU RICO LEITINHO QUENTINHO!!!

  11. SALAZARISMO NUNCA MAIS 2

    MARTINS INDI, QUERIDO, ESPETA-ME A TUA ENORME VERGA PELO CUU ADENTRO E DEIXA-ME AINDA BEBER O TEU RICO LEITINHO QUENTINHO!!!

  12. SALAZARISMO NUNCA MAIS 3

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  13. SALAZARISMO NUNCA MAIS 4

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  14. SALAZARISMO NUNCA MAIS 5

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