Quinta do Vale Meão: Terreno em hasta pública vê nascer vinho de eleição

A Quinta do Vale Meão nasceu em 1877, quando Antónia Adelaide Ferreira, então com 66 anos, quis arriscar na compra de 300 hectares à Câmara de Vila Nova de Foz Coa. Hoje, o trineto Francisco e seus filhos é que são os donos. Fruto de uma reviravolta na estratégia empresarial, começaram a produzir um dos melhores vinhos nacionais

Duas adegas acolhem a produção, uma  delas a da Barca Velha, o mais reconhecido de todos os vinhos tintos portugueses

Duas adegas acolhem a produção, uma delas a da Barca Velha, o mais reconhecido de todos os vinhos tintos portugueses

A história da Quinta Vale Meão remonta a 1877. Uma história familiar que foi passando de geração em geração e que se começou a contar quando Antónia Adelaide Ferreira, uma mulher com grande visão para o negócio, e já com 66 anos na altura, comprou em hasta pública 300 hectares de solo à Câmara de Vila Nova de Foz Coa. Hoje, é o seu trineto Francisco Javier de Olazabal que toma conta da propriedade, tendo-lhe dado um novo rumo e feito do Vale Meão um dos vinhos mais conceituados de Portugal e de todo o mundo.

Apesar de a história da empresa remontar a 1877, só recentemente, em 1999, se pode dizer que é um projeto integrado de produção e comercialização de vinhos sob marcas próprias, mantendo o seu carácter familiar. A partir dos anos 70, Francisco Javier de Olazabal, que tinha sido nomeado pelos seus familiares para gerir a Quinta, empreendeu um programa de investimentos com novas vinhas e ao mesmo tempo foi aumentando a sua participação na propriedade através da compra de partes indivisas aos seus familiares. Em 1994, adquiriu, juntamente com os seus filhos, a propriedade total da quinta.

São perto de 300 hectares de  terreno que acolhem a Quinta Vale  Meão, dos quais 85 são ocupados por vinhas. Meão é o U formado pelo Douro por alturas do Pocinho. A quinta fica nas margens do rio, em zona de microclima.

São perto de 300 hectares de terreno que acolhem a Quinta Vale Meão, dos quais 85 são ocupados por vinhas. Meão é o U formado pelo Douro por alturas do Pocinho. A quinta fica nas margens do rio, em zona de microclima.

“É uma Quinta que foi sempre da nossa família, mas que chegou a ter mais de 20 proprietários. Até 1998 limitávamo-nos a produzir uvas que eram vendidas à Casa Ferreirinha, e azeite que era vendido a granel” , explicou ao DN Francisco, atualmente com 76 anos.

De facto, até esse ano era da Quinta do Vale Meão que vinham algumas das melhoras uvas para a empresa A. A. Ferreira S. A., mais conhecida como Casa Ferreirinha, fun- dada pelos descendentes de Antónia, e estavam na base de alguns dos seus melhores vinhos, um deles o mais conceituado vinho português em todo o mundo, o Barca Velha. Francisco Javier de Olazabal era também presidente da A. A. Ferreira S. A., mas decidiu renunciar para embarcar numa nova aventura, com os filhos Francisco, Jaime e Luísa.

“Tornou-se a minha Quinta e a dos meus filhos, aliás, se hoje estou neste projeto, muito devo a eles, que me incentivaram, sobretudo o meu filho Francisco, que se formou em Enologia na Universidade de Trás--os-Montes e Alto Douro e mudou toda a sua vida para vir viver para o Douro Superior. Começámos do zero, pois todos os equipamentos da adega eram da Ferreirinha, comprámos tudo para este novo projeto e fizemos o primeiro vinho em 1999”, salienta um orgulhoso Francisco.

Os anos de verdadeira glória da empresa começaram, então, no final dos anos 90, já século XX. “Foi uma aposta de sucesso, mas devo confessar que excedeu as minhas expectativas. Sabíamos o que tínhamos – até porque não era fruto do acaso que a Ferreirinha ficava com as uvas da Quinta – mas não estava à espera de tal sucesso logo desde início”, afirma, referindo também que nem a recente crise económica na Europa e sobretudo em Portugal tem afetado a Quinta do Vale Meão.

“Surpreendentemente, o mercado nacional tem-se portado muito bem, até porque os nossos vinhos – provenientes de vinhas com baixa produtividade, integralmente envelhecidos em barricas de carvalho francês, e fruto de uma rigorosa seleção que leva à venda a granel dos lotes cuja qualidade não atinge os padrões que nos impomos – não podem ser baratos”, comenta Francisco. O vinho mais em conta, o Meandro, custa cerca de 11 euros, enquanto algumas colheitas do Vale Meão ultrapassam os 150 euros em algumas garrafeiras. “Temos progredido muito nos últimos anos e sinceramente a crise não tem afetado assim tanto”, continua, mostrando-se orgulhoso pelo facto de os seus vinhos serem já um sinal de sucesso além-fronteiras. Metade da faturação é para o exterior. EUA, Canadá, Brasil, Alemanha, Suíça, Macau e outros países mais pequenos têm apostado muito no Vale Meão.

Mas se a sua Quinta Vale Meão conta já com 137 anos, Francisco Javier de Olazabal não quer ficar por aqui. “Começámos a produzir um azeite biológico virgem extra há três anos e temos também desde o ano passado lançado vinhos monovarietais provenientes de vinhas com diferentes tipos de solos, sob a marca Monte Meão. Temos tido sucesso com os nossos vinhos e queremos continuar a agradar às pessoas.”

GONÇALO LOPES

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