Primeiro, esperança, depois o anúncio da guerra

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: A 1 de agosto de 1939, DN tinha uma foto de um grupo de crianças inglesas de mão dada. Na segunda edição, o DN já prescindia dessa ilusão e só tinha duas fotos, de soldados polacos e tanques ingleses – é essa capa que está na página ao lado, no centro. Em ambas as edições, o DN aposta numa réstia de esperança: ‘Enquanto se espera o milagre’, titula o editorial. Mas derrotado pelos factos, o DN, nesse dia, publica um suplemento, dizendo: ‘A Guerra’

Na véspera da guerra, a 31 de agosto, a primeira página do DN mostra fotos em que a guerra é anunciada ainda sem armas. Num cais de Bruxelas, mulheres despedem-se dos maridos e namorados que já fardados debruçam-se nas janelas do comboio. Mulheres holandesas fazem sacos de areia à espera de serem necessários. Em Londres, pinta-se o asfalto com traços brancos na iminência de o blackout exigir faróis apagados. Em Paris, a multidão encheu o Sacré-Coeur na missa pela paz. É ainda o lado civil da guerra que se mostra. No dia seguinte vão chegar as primeiras fotos de Varsóvia e Cracóvia bombardeadas. O mundo ainda não vira nada sobre a capacidade de os homens destruírem. E cinco anos depois, quando a II Guerra Mundial acabar, o homem ainda saberá mais de si: campos de concentração, bombas atómicas...

Na véspera da guerra, a 31 de agosto, a primeira página do DN mostra fotos em que a guerra é anunciada ainda sem armas. Num cais de Bruxelas, mulheres despedem-se dos maridos e namorados que já fardados debruçam-se nas janelas do comboio. Mulheres holandesas fazem sacos de areia à espera de serem necessários. Em Londres, pinta-se o asfalto com traços brancos na iminência de o blackout exigir faróis apagados. Em Paris, a multidão encheu o Sacré-Coeur na missa pela paz. É ainda o lado civil da guerra que se mostra. No dia seguinte vão chegar as primeiras fotos de Varsóvia e Cracóvia bombardeadas. O mundo ainda não vira nada sobre a capacidade de os homens destruírem. E cinco anos depois, quando a II Guerra Mundial acabar, o homem ainda saberá mais de si: campos de concentração, bombas atómicas…

O DN faz um pequeno título em página interior (2 de agosto de 1939): “Os ministros britânicos não se ausentarão este ano da Inglaterra nas férias.” Há ministros que irão mesmo treinar com a população exercícios de extinção de luzes. Na edição daquele dia, o DN faz o que ainda hoje é recorrente nas revistas: compara a cara de protagonistas atuais com a cara que tinham a uma qualquer outra data. E que data passada escolheu o jornal? “2 de agosto de 1914 – O que eram e como eram no tempo da Grande Guerra aqueles que agora governam a Europa” – e lá vinham as fotos antigas do português presidente Óscar Carmona (major de Cavalaria em 1914), do presidente do Conselho de Ministros francês Édouard Daladier (sargento), Adolfo Hitler (soldado), Benito Mussolini (jornalista). A data escolhida era sintomática: o começo da Grande Guerra. O pretexto, evidente: aquele nome ia acabar, passaria a ser Primeira Guerra Mundial, porque vinha aí a Segunda.

E, no entanto, Portugal e o DN faziam de conta que ainda havia esperança. Ao contrário dos ministros britânicos, o chefe do Estado português não se importava ir para longe dos centros de decisão. No começo de agosto, o general Óscar Carmona não podia estar mais longe: partia da Beira, cidade moçambicana, a caminho das plantações de açúcar na Zambézia. Carmona viajava no paquete Colonial, escoltado desde Lisboa pelos avisos Bartolomeu Dias e Afonso de Albuquerque – nomes imperiais, nas vésperas da guerra que iria acabar com os impérios europeus. A bordo ia uma jornalista francesa, intelectual reputada, Suzanne Chantal, amiga íntima da companheira de André Malraux, Josette Clotis. Ao longo dos dias de agosto, a viagem de Carmona ia ser o assunto preferido do DN. Só no fim do mês o anúncio da tragédia europeia iria desalojar a viagem das manchetes. Com a tranquilidade de um país que pensava permanecer neutral, o seu presidente só voltou a Lisboa já a guerra ia em quase duas semanas, a 13 de setembro.

Com o presidente a dar o exemplo, o DN devotou-se a mostrar um verão manso. Patrocinador da Volta a Portugal, o jornal, de dez páginas, chega a dar à prova ciclista duas (entre elas, a primeira). No ano anterior, ainda o benfiquista José Maria Nicolau e o sportinguista Alfredo Trindade tinham repetido mais um duelo que foi, na década de 1930, a maior rivalidade desportiva nacional. O DN põe o seu prestigiado diretor Augusto de Castro, que dias antes entrevistara Franco, a dar o sinal de partida e oferece crónicas de personalidades díspares (Vasco Santana, Ramada Curto, Mirita Casimiro…) a contar o que seria a sua Volta.

Na manhã de sexta-feira 1 de setembro, o DN ainda sai com uma interrogação: “Malograram-se as tentativas para salvar a paz?” Mas nesse dia - as forças alemãs entraram na Polónia às 04.45 e ainda havia a diferença horária - o DN fez um suplemento de duas páginas e manchete sem ambiguidade: “A Guerra”. E: “Dantzig foi anexada ao Reich - O Exército alemão invadiu a Polónia”. Um curto editorial lamenta: “Não se realizou o milagre.” No verso, um telegrama com uma notícia falsa: “Varsóvia, 1 - Poderosas esquadrilhas da aviação polaca começaram a bombardear Berlim.”

Na manhã de sexta-feira 1 de setembro, o DN ainda sai com uma interrogação: “Malograram-se as tentativas para salvar a paz?” Mas nesse dia – as forças alemãs entraram na Polónia às 04.45 e ainda havia a diferença horária – o DN fez um suplemento de duas páginas e manchete sem ambiguidade: “A Guerra”. E: “Dantzig foi anexada ao Reich – O Exército alemão invadiu a Polónia”. Um curto editorial lamenta: “Não se realizou o milagre.” No verso, um telegrama com uma notícia falsa: “Varsóvia, 1 – Poderosas esquadrilhas da aviação polaca começaram a bombardear Berlim.”

Jornal de iniciativas, o DN inaugura, no verão desse ano, o concurso infantil que viria a ser mais tarde uma das suas imagens de marca, as Construções na Areia. Na praia da Figueira da Foz, crianças desenham o título gótico do jornal e o cronista pinta cenas de beira-mar: “O nosso fotógrafo abeira-se de uma das peixeirinhas airosas, levando à cabeça a canastrinha do seu afamado camarão cozido. Foto? ‘Credo! O Santíssimo Sacramento falte à hora da morte se eu deixar alguma vez fazer uma coisa dessas. A minha cara não é para andar nos jornais. Que diria o meu homem, que anda na pesca do bacalhau.’” Todos os dias, o DN publica “Grande novela popular sobre um filme de Leitão de Barros: Varanda dos Rouxinóis”. O folhetim é ilustrado por uma foto do filme, com legenda. Como a de D. Inácia (Maria Matos), no sofá, aspirando a sua cigarrilha Abdulla, na ponta da boquilha nacarada, a dizer a Eduardo (Oliveira Martins) de lacinho: “Em Alcobaça vivi muito tempo em botão… mas agora desabrochei…”

A VIII Volta a Portugal acaba com uma festa organizada pelo DN no Jardim Zoológico, com dez contos para o vencedor, Joaquim Fernandes, e concursos de conserto de tubos (pneus furados) e “gymkhana”, mas a festa já é remetida para página interior. As primeiras páginas, a partir de 24 de agosto, quase que exclusivamente se dedicam à guerra iminente. Nesse dia, o DN anuncia o mesmo pasmo que atravessou o mundo: “Foi assinado o pacto germano-russo.” A 26, Augusto de Castro abandona as bicicletas e mergulha na geopolítica. “(…) o pacto germano-russo, com a consequente apologia do regime soviético e semita em Berlim e a propaganda do Mein Kampf em Moscovo…” Editorial que revela a perplexidade que o levou a uma aposta perdida: Mussolini e a sua Roma, a defensora eterna do Ocidente, não podem nem vão aderir a um pacto “que desarma a Europa contra a Ásia”.

A 27, aparece um dos mais seguros anúncios das guerras, um mapa na primeira página: Alemanha/Polónia. Sim, será essa a abertura. A 28, outro mapa: entre a Alemanha e a França, a Linha Maginot. Sim, será esse o passo seguinte. A 29, uma pergunta que revela o desejo do DN: “Se não conseguir uma solução pacífica, o Duce afastar-se-á da Alemanha?”

A 31 de agosto, 1 e 2 de setembro, três palavras nas três manchetes chegam para traçar o roteiro: “expectativa”, “malograram-se” e “começou”… Ver na página ao lado, estava tudo dito: guerra.

FERREIRA FERNANDES

Sem comentários

  1. José Luz

    A 2ª guerra mundial começou em 1939???
    Então e:
    A invasão da China em 1937?
    A Invasão da Áustria em Março de 1938?
    A Invasão da Checoslováquia (sudetos) em Outubro de 1938 e em Março de 1939?
    A Invasão da Albânia em Abril de 1939?

    Quando é que se tornou a guerra «mundial»? Tudo é relativo. A guerra na mente geopolítica começou pelo menos em 1938 ou antes.

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