Cutelaria Polycarpo: Rolls-Royce da cutelaria há quase 200 anos na baixa

Já não tem oficina própria e os instrumentos de marca própria são fabricados em Solingen, na Alemanha, mas a CUTELARIA POLYCARPO, fundada em 1822, continua a apresentar as últimas novidades neste tipo de utensílios na loja que ainda tem na Baixa de Lisboa. O engenho do fundador, António Polycarpo, foi premiado por Napoleão III

“A Cutelaria Polycarpo é uma pequena maravilha, uma oficina modelo, pela novidade, esmero e originalidade dos seus processos de fabrico, pela educação artística do seu pessoal, à compita com o melhor do género que se encontra no estrangeiro.” Era assim que, a 21 de maio de 1891, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) descrevia a Cutelaria Polycarpo no jornal que editava, o António Maria, com ilustração da fachada da loja e dos dois responsáveis de então, Silva Lisboa e o irmão Victor Lisboa

“A Cutelaria Polycarpo é uma pequena maravilha, uma oficina modelo, pela novidade, esmero e originalidade dos seus processos de fabrico, pela educação artística do seu pessoal, à compita com o melhor do género que se encontra no estrangeiro.” Era assim que, a 21 de maio de 1891, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) descrevia a Cutelaria Polycarpo no jornal que editava, o António Maria, com ilustração da fachada da loja e dos dois responsáveis de então, Silva Lisboa e o irmão Victor Lisboa

Tesoura de canhotos, de bordar, de cabelo, de alfaiate, de uvas, de escritório, de talhar, da poda, de ovos ou de ervas aromáticas. Eis uma dezena de tipos de tesouras entre os 113 modelos com que o expositor, à esquerda de quem entra no número 29 da Rua de São Nicolau, semeia a dúvida sobre a escolha a fazer até na mente mais determinada. E até os ponteiros do relógio de parede são… tesouras.

Este é apenas um dos utensílios  entre os mais variados que se podem encontrar na Cutelaria Poly-carpo, na Baixa de Lisboa, que desde a fundação, em 1822, aposta na qualidade e na inovação.

“Temos o rolls-royce da cutelaria. Na nossa loja vendemos tudo o que de melhor se fabrica no mundo em cutelarias finas”, anuncia Luís Geraldo, sócio-gerente da loja desde 2010, cargo que assumiu após uma década como empregado.

Apesar de tesouras, canivetes e facas serem a imagem de marca da casa, desde o início da atividade que existe uma ligação aos instrumentos médicos que o fundador, mestre António Polycarpo, fazia segundo pedidos específicos ou desenhando ele próprio novidades que depois ganhavam forma na oficina.

Luís Geraldo mostra um livro de 1890-1900, com desenhos de instrumentos fabricados na oficina que deram fama à casa que está a apenas oito anos de completar o segundo centenário. Fama reconhecida não apenas pelos clientes – alguns de renome, como António Champalimaud, que aí comprava as navalhas para a barba, e António Salazar, que aí se abastecia de canivetes – como pelos júris de exposições nacionais e internacionais.

Luís Geraldo, sócio-gerente desde 2010

Luís Geraldo, sócio-gerente desde 2010

O primeiro evento do género em que terá participado foi a Exposição da Indústria realizada em 1849 pela Sociedade Promotora da Indústria Nacional. E apesar de não haver registo das novidades apresentadas, o certo é que causaram espanto. Tanto que houve mesmo quem defendesse que os trabalhos não tinham sido fabricados em Portugal. E o assunto foi mesmo debatido no Parlamento, com um deputado, Affonseca, a acusar o fabricante nacional de ter importando os materiais de forma clandestina. António Polycarpo não desarmou e, a 3 de janeiro de 1851, publicou no jornal A Revolução de Setembro um convite ao parlamentar para que visitasse a sua oficina para aferir da legitimidade dos instrumentos, desafiando-o “a provar que os mesmos não são absolutamente originais”.

Lançadas na segunda metade do século XIX, as exposições universais apresentavam as mais recentes inovações e conquistas de âmbito científico e tecnológico, assumindo-se como importantes momentos de afirmação do progresso e da modernidade. E logo em 1851, na primeira Exposição Universal de Londres, António Polycarpo marcou presença. Mas o momento mais alto viveu-o quatro anos depois, na Exposição Universal de Paris.

O mestre português concorreu com três estojos de material cirúrgico: uma caixa de ferros para amputação, outra para operações de olhos e uma terceira com instrumentos de dentista. O engenho do cutileiro Polycarpo foi premiado pelo imperador Napoleão III (1808–1873) com uma medalha de ouro, que lhe foi solenemente entregue na Academia Real das Ciências pelo rei D. Pedro V, que, ao mesmo tempo, também lhe concedeu o Grande Colar de Cavaleiro da Ordem de Torre Espada.

Já António Polycarpo tinha falecido e a casa era gerida pelo jornalista Silva Lisboa e pelo irmão Victor Lisboa, quando o artista Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) visitou o espaço e lhe dedicou uma página, a 21 de maio de 1891, no seu António Maria, jornal de humor político que editou e dirigiu entre junho de 1879 e janeiro de 1885 e entre entre março de 1891 e julho de 1898.

Numa altura em que “o pior da crise já passou”, Luís Geraldo foge a divulgar números, mas sempre adianta que, desde 1975, “a casa nunca deu prejuízo”. E assegura que a loja vai continuar a apresentar novidades, acompanhando a evolução, tendo sempre em mente o que é mais prático para as pessoas.

A Polycarpo tem cinco empregados e todos os instrumentos da sua marca são fabricados na Alemanha, em Solingen, a 30 quilómetros de Düsseldorf, conhecida como a “cidade das lâminas”.

Tesoura de canhotos, de bordar, de cabelo, de alfaiate, de uvas, de escritório, de talhar, da poda, de ovos ou de ervas aromáticas. Eis uma dezena de tipos de tesouras entre os 113 modelos com que o expositor, à esquerda de quem entra no número 29 da Rua de São Nicolau, semeia a dúvida sobre a escolha a fazer até na mente mais determinada. E até os ponteiros do relógio de parede são… tesouras.

Este é apenas um dos utensílios  entre os mais variados que se podem encontrar na Cutelaria Poly-carpo, na Baixa de Lisboa, que desde a fundação, em 1822, aposta na qualidade e na inovação.

“Temos o rolls-royce da cutelaria. Na nossa loja vendemos tudo o que de melhor se fabrica no mundo em cutelarias finas”, anuncia Luís Geraldo, sócio-gerente da loja desde 2010, cargo que assumiu após uma década como empregado.

Apesar de tesouras, canivetes e facas serem a imagem de marca da casa, desde o início da atividade que existe uma ligação aos instrumentos médicos que o fundador, mestre António Polycarpo, fazia segundo pedidos específicos ou desenhando ele próprio novidades que depois ganhavam forma na oficina.

Luís Geraldo mostra um livro de 1890-1900, com desenhos de instrumentos fabricados na oficina que deram fama à casa que está a apenas oito anos de completar o segundo centenário. Fama reconhecida não apenas pelos clientes – alguns de renome, como António Champalimaud, que aí comprava as navalhas para a barba, e António Salazar, que aí se abastecia de canivetes – como pelos júris de exposições nacionais e internacionais.

O primeiro evento do género em que terá participado foi a Exposição da Indústria realizada em 1849 pela Sociedade Promotora da Indústria Nacional. E apesar de não haver registo das novidades apresentadas, o certo é que causaram espanto. Tanto que houve mesmo quem defendesse que os trabalhos não tinham sido fabricados em Portugal. E o assunto foi mesmo debatido no Parlamento, com um deputado, Affonseca, a acusar o fabricante nacional de ter importando os materiais de forma clandestina. António Polycarpo não desarmou e, a 3 de janeiro de 1851, publicou no jornal A Revolução de Setembro um convite ao parlamentar para que visitasse a sua oficina para aferir da legitimidade dos instrumentos, desafiando-o “a provar que os mesmos não são absolutamente originais”.

Lançadas na segunda metade do século XIX, as exposições universais apresentavam as mais recentes inovações e conquistas de âmbito científico e tecnológico, assumindo-se como importantes momentos de afirmação do progresso e da modernidade. E logo em 1851, na primeira Exposição Universal de Londres, António Polycarpo marcou presença. Mas o momento mais alto viveu-o quatro anos depois, na Exposição Universal de Paris.

O mestre português concorreu com três estojos de material cirúrgico: uma caixa de ferros para amputação, outra para operações de olhos e uma terceira com instrumentos de dentista. O engenho do cutileiro Polycarpo foi premiado pelo imperador Napoleão III (1808–1873) com uma medalha de ouro, que lhe foi solenemente entregue na Academia Real das Ciências pelo rei D. Pedro V, que, ao mesmo tempo, também lhe concedeu o Grande Colar de Cavaleiro da Ordem de Torre Espada.

Já António Polycarpo tinha falecido e a casa era gerida pelo jornalista Silva Lisboa e pelo irmão Victor Lisboa, quando o artista Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) visitou o espaço e lhe dedicou uma página, a 21 de maio de 1891, no seu António Maria, jornal de humor político que editou e dirigiu entre junho de 1879 e janeiro de 1885 e entre entre março de 1891 e julho de 1898.

Numa altura em que “o pior da crise já passou”, Luís Geraldo foge a divulgar números, mas sempre adianta que, desde 1975, “a casa nunca deu prejuízo”. E assegura que a loja vai continuar a apresentar novidades, acompanhando a evolução, tendo sempre em mente o que é mais prático para as pessoas.

A Polycarpo tem cinco empregados e todos os instrumentos da sua marca são fabricados na Alemanha, em Solingen, a 30 quilómetros de Düsseldorf, conhecida como a “cidade das lâminas”.

MARINA MARQUES

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