Confeitaria Nacional: Bolo-rei já é nacional à conta da confeitaria

Apropriar-se de uma receita e transformá-la em doce típico português é obra da Confeitaria Nacional, há quase 185 anos na Baixa lisboeta. Mas o proprietário garante que o rei de todo o ano é o pastel de nata e outras iguarias, como o sortido e os chocolates artesanais. Património que agora vai levar até às Arábias

Fundada em 1829 na Praça da Figueira, em Lisboa, a Confeitaria Nacional atravessou três séculos de história

Fundada em 1829 na Praça da Figueira, em Lisboa, a Confeitaria Nacional atravessou três séculos de história

O bolo-rei enche prateleiras e balcões das pastelarias e não apenas na época natalícia. Agora que também é “rainha” e até se fazem de chocolate e de maçã, veem-se mais em Portugal do que em França, de onde trouxe a receita Baltazar Castanheiro II, filho do fundador da Confeitaria Nacional. Ingredientes e formas de cozedura guardados em cofre e a manter a tradição.

Rui Viana, que tem Castanheiro no nome a comprovar que a pastelaria está na família há seis gerações, conta que o tetravô trouxe a receita de Toulouse contrariando outros relatos que indicam que veio de Paris. E esta doçaria que é herança dos romanos tem duas massas diferentes em França: no Norte é em massa folhada e, no Sul, um brioche com frutas caramelizadas como o bolo português.

A Confeitaria Nacional é sistematicamente eleita como uma das que têm o melhor bolo-rei, mas esta não é única a iguaria nobre. Os pastéis de nata, garante o proprietário, são os mais escolhidos, e ao longo de todo o ano, e há o sortido e os chocolates artesanais.

Uma referência da gastronomia portuguesa mas também do património arquitetónico e que o atual dono, Rui Viana, quis recuperar. O exterior manteve-se e no interior recuperou as salas, os murais, o chão, os tetos e os móveis do século XIX

Uma referência da gastronomia portuguesa mas também do património arquitetónico e que o atual dono, Rui Viana, quis recuperar. O exterior manteve-se e no interior recuperou as salas, os murais, o chão, os tetos e os móveis do século XIX

Baltazar Castanheiro, o primeiro, construiu o edifício de raiz na Praça da Figueira, em Lisboa, e abriu ao público em 1829. Rezam as crónicas que depressa se tornou um espaço conceituado e, três décadas depois, nomeado fornecedor da casa real por D. Luís I. E é com o filho, o Baltazar II, que é inaugurado o primeiro andar, “um elegante salão com gabinetes esplêndidos”, noticia a imprensa.

As referências positivas à arquitetura da casa juntam-se aos elogios culinários e a casa prosperou. Vieram pasteleiros de Espanha e de França, trocaram-se outras receitas, os turistas juntaram-se aos fregueses habituais, sempre com o nome de Baltazar Castanheiro como referência. E até foi alvo de confusões, conta Delfina Santos, 60 anos, dos quais 39 na Confeitaria.

Explica a funcionária mais antiga da casa, que sublinha a exigência da função. “Uma nossa cliente veio um dia buscar um bolo de aniversário, mas procurámos, procurámos, e não encontrámos o registo da encomenda. O meu patrão, o avô do senhor Rui Viana, arranjou outro bolo, mas disse à senhora que era impossível ela ter encomendado, que se os funcionários diziam que não havia encomenda é porque não havia. No dia seguinte, a senhora telefonou a pedir desculpa porque, efetivamente, se tinha enganado.” É que havia uma casa na Baixa que se chamava Castanheira (já fechou) e para onde a cliente telefonara pensado ser a Confeitaria.

Nestes anos todos, o primeiro andar deixou de funcionar como salão de chá e serviu de armazém à Lanalgo, substituíram-se os móveis por imobiliário de cafetaria, esconderam-se os murais e o chão. A decoração dos tetos desapareceu.

Rui Viana comprou as quotas que lhe faltavam aos outros herdeiros e, desde 2002, é o único dono. Com dois objetivos fundamentais: manter a qualidade na fábrica de doçaria e recuperar os interiores do edifício, que fazem que esteja classificado como património nacional. E o estudante de Direito que se especializou na gestão do transporte marítimo tornou-se arquiteto, restaurador e pasteleiro.

“Documentei-me, vi livros e imagens de como era antigamente. Descobri a pintura original das paredes e que foi toda restaurada pela Fundação Ricardo Espírito Santo, bem como os tetos, e recuperei o chão quando toda a gente dizia que era impossível. Encontrei fotos das mesas e das cadeiras antigas que reproduzi, comprei móveis, como o grande espelho, a antiquários. O que aqui está era o que existia em meados do século XIX”, orgulha-se.

Esforços que os clientes admiram, sobretudo os nacionais, mas que no verão disputam as mesas aos turistas no rés-do-chão e no 1.º andar. Estrangeiros guiados por roteiros e sites turísticos, desde sempre muitos franceses. “Está indicado no Rotard e estava na minha lista para visitar em Lisboa, o edifício é muito bonito, tanto o exterior como o interior”, explica Jean Baptiste Frantz, 25 anos, de férias com um colega do curso de Direito, Joffroy Laurint, 26 anos. Comem torradas e pastéis de nata, uma recomendação do guia. Vivem em Paris e juram que nunca ouviram falar do gâteau des rois (bolo-rei).

CÉU NEVES

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