Hospital de Bonecas: O local que restaura sonhos e fantasias

 O n.º 7 da Praça da Figueira, em Lisboa, acolhe o Hospital de Bonecas, que iniciou a atividade partilhando o espaço com a ervanária, que era o principal negócio da família Luz Tavares

O n.º 7 da Praça da Figueira, em Lisboa, acolhe o Hospital de Bonecas, que iniciou a atividade partilhando o espaço com a ervanária, que era o principal negócio da família Luz Tavares

A paixão pelo mundo do “faz-de-conta” fez nascer uma loja muito singular, que faz sonhar crianças e adultos. Fundado em 1830, o Hospital de Bonecas, situado no número 7 da Praça da Figueira, em Lisboa, não só vende todo o tipo de brinquedos antigos, em primeira mão, como garante a cura de toda e qualquer mazela

Um espaço de sonho, de histórias de encantar, de muitas memórias, apenas habitado por bonecas, peluches, soldadinhos de chumbo, carros,jogos e tudo o mais que possa caber no imaginário de uma criança… oude um adulto. O Hospital de Bonecas, situado num prédio pombalino, na mesma Praça (da Figueira) que até ao terramoto de 1755 acolheu o Hospital Real de Todos-os-Santos,é uma verdadeira viagem pelo tempo do faz-de-conta, tal como é dado a conhecer no próprio cartão-de-visita do estabelecimento.

“Era uma vez uma senhora velhinha que há muitos anos ( ainda não havia automóveis) se sentava a fazer bonecas de trapo à porta da sua pequena loja de ervas secas (…). Assim, de vez em quando, a manhã era passada junto à D. Carlota (era assim que se chamava) a espreitar as bonecas que ela ia fazendo. Depois, conversando, sempre se ia contando os males das bonecas e ela a pouco e pouco lá as ia consertando. Acho que foi assim que começou o Hospital de Bonecas (…).”

Manuela Cutileiro, proprietária do Hospital desde 1988, segura algumas bonecas que aguardam tratamento. Neste “centro médico” todas as doenças têm cura

Manuela Cutileiro, proprietária do Hospital desde 1988, segura algumas bonecas que aguardam tratamento. Neste “centro médico” todas as doenças têm cura

Há 184 anos que o número 7 da Praça da Figueira é um verdadeiro local de magia, em que a cura é sempre garantida, como diz Manuela Cutileiro, proprietária do Hospital de Bonecas há 26 anos. Manuela, educadora de infância, envolveu-se neste negócio quando soube que a loja, onde também ( e sobretudo) se vendiam ervas e chás, ia ser vendida pela família Luz Tavares (a tal de Carlota do escrito de cima), que a abriu em 1830.

Ana Tavares, neta dos fundadores, foi a última dona daquela família. Como não tinha filhos e a atividade estava condenada a morrer, Manuela Cutileiro, que desde criança frequentava aquele local, uma vez que os avós moravam no 5.º andar, decidiu gerir o estabelecimento. E com o passar dos anos a sua paixão foi reconhecida: o Hospital de Bonecas, único no género em todo o País, é já uma referência a nível mundial. Ainda recentemente foi eleito pela revista Reader’s Digest do Canadá como a quarta loja de bonecas do mundo. “Figuramos ao lado do Toys’R’Us dos Estados Unidos, em Nova Iorque (loja de três andares, onde até cabe um roda gigante), a Hamleys, de Londres (visitada por mais de 5 milhões de pessoas anualmente e que ocupa sete andares), e a famosa FAO Schwarz, também de Nova Iorque. “É inacreditável… nós somos tão pequeninos”, comenta Manuela.

A loja ocupa o piso de baixo, aonível do chão, onde são vendidos brinquedos “só em primeira mão e sem qualquer mazela”. No primeiro andar funciona o hospital – uma verdadeira oficina de restauro – e o espaço de exposição. São 12 assoalhadas com largas dezenas de milhares de… histórias. É impossível contabilizar a quantidade de bonecos.

Entre os objetos alvo de restauro dominam os peluches, as bonecas, desde as antigas de papelão passando pelas de porcelana até às atuais Barbies, os carrinhos sem rodas, pinturas diversas, arte sacra e casas de bonecas em miniatura.

“Todo o tipo de mazelas encontra aqui uma cura”, diz. Tudo começa por um diagnóstico geral, ao qual corresponde um orçamento, que varia consoante o material, o local e a gravidade da doença. Aceite o preço, o boneco fica “internado” e pode ser sujeito a uma cirurgia plástica (restauro e pintura), a um transplante (para colocar pernas, cabeças e braços), uma simples colagem ou mesmo para arranjar uma nova vestimenta. É que aqui também se faz roupa para os bonecos ou mesmo para bebés a sério prematuros.

Nas várias assoalhadas, os objetos são arrumados por critériode épocas. “Aqui temos uma sala com raparigas de 50/60 anos. Na sala maior são bonecos de 1800até aos anos 50”, vai contando Manuela Cutileiro, passando para o quarto-hospital. “Aqui está tudo com problemas, tudo doente, é uma espécie de purgatório, nunca se sabe quando vão ser salvas…”

E a salvação pode surgir das formas mais inesperadas, como aconteceu a uma boneca banalíssima, mal trajada, que parecia ter saído de uma qualquer loja dos chineses.“Liliane Marise (personagem datelenovela Destinos Cruzados, interpretada pela atriz Maria João Bastos) queria uma boneca pirosa, para andar com ela a fazer espetáculos. E escolheu esta. De repente saiu-lhe a sorte grande, deixou o hospital durante uns meses e foi viajar pelo País fora.”

SÍLVIA FRECHES

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