Casa Senna: Corrida à lusofonia foi o tónico da longevidade

150 EMPRESAS QUE NASCERAM NO SÉCULO DO DN… OU ATÉ ANTES: Desde 1834, existe em Lisboa uma empresa cujo core business é o material desportivo. O nível de especialização é o seu maior trunfo face às grandes superfícies, bem como a aposta na internacionalização. A casa senna, situada no coração da capital, já foi inclusivamente nomeada fornecedora oficial da Casa Real. Decorria o ano de 1903…

Quando, a 3 de fevereiro de 1907, o Sporting disputou a primeira partida da sua história, dali saíram as chuteiras que os futebolistas utilizaram. Foi a emblemática Casa Senna, cuja história já remontava a 1834, a calçar os leões na derrota por 5-1 diante do Cruz Negra.

O pequeno detalhe apenas ilustra a notoriedade de que a loja, erigida na Rua Nova do Almada, já gozava em Lisboa. Fundado por Alexandre José de Senna, comerciante respeitado na capital, o estabelecimento de material desportivo foi crescendo e o seu legado transmitido aos descendentes – a Casa Senna chegou a ser nomeada pelo rei D. Carlos, em 1903, fornecedora oficial da Casa Real.

Desde 1982 que a Casa Senna tem uma imagem rejuvenescida. Os números 48 e 52 da Rua Nova do Almada estão agora unidos e arcos e tetos tradicionais quase se fundem com uma espécie de calçada polida e materiais desportivos que não são vendidos nas grandes superfícies.

Desde 1982 que a Casa Senna tem uma imagem rejuvenescida. Os números 48 e 52 da Rua Nova do Almada estão agora unidos e arcos e tetos tradicionais quase se fundem com uma espécie de calçada polida e materiais desportivos que não são vendidos nas grandes superfícies.

Em 1982 foi feito um novo pacto social na sociedade e passaram a ser sócios Manuel António Dias e José Mendes Pinto, que, em conjunto com Maria Neves Querido - sobrinha de Frederico Senna Cardoso, que dirigiu o negócio no final do século XIX e início do seguinte -, começaram um programa de recuperação, dadas as dificuldades sentidas após a Revolução de Abril.

Mais escondido está um cofre antigo que guarda uma carta de 1903 assinada pelo rei D. Carlos.

Mais escondido está um cofre antigo que guarda uma carta de 1903 assinada pelo rei D. Carlos.

Mesmo num espaço remodelado e entre trampolins, tacos de bilhar, bolas das mais diversas modalidades ou mesas de pingue-pongue, as marcas da idade são hoje bastante visíveis na Casa Senna. Quando a equipa de reportagem do DN ali entrou, saltaram de imediato à vista um proeminente arco interior e o teto abobadado, desgastado pelos 180 anos de existência. E a cave? Outrora um antigo calabouço, com ligação ao malogrado Tribunal da Boa Hora, atualmente um armazém.

A chave para a sobrevivência, contou Mendes Pinto, passou pela “tenacidade” dos sete trabalhadores – entre aquela loja e outra próxima do Hospital Dona Estefânia. “Tanto estamos no balcão a atender um cliente, como tiramos a roupa e vamos descarregar um contentor”, ilustrou, antes de vincar a importância de terem virado agulhas para a exportação.

Os países lusófonos são os parceiros privilegiados e, para 2014, um dos detentores da Casa Senna salienta que as estimativas apontam para que entre 30% e 40% do volume total de vendas seja dirigido aos PALOP.

“Não caímos porque tivemos antídotos para o aparecimento das grandes superfícies, nomeadamente a internacionalização. A exportação foi a única via. Se não tivesse sido ela, talvez até já tivéssemos fechado. E, claro, o nosso nível de especialização”, assinalou antes de recordar, a título de exemplo, a 12.ª edição da Gymnaestrada (maior evento de ginástica não competitiva do mundo), que decorreu em Lisboa em 2003 e para a qual forneceu colchões, trampolins e tantos outros materiais.

Porém, a estratégia de internacionalização não se esgota na exportação. Desde 1996 que o negócio se estendeu até Cabo Verde, com uma loja na Cidade da Praia e outra no Mindelo. Isto já depois de a sociedade ter ficado sem a loja na Guiné-Bissau, aquando da entrada das tropas senegalesas no país em apoio a Nino Vieira.

Para 2014, José Mendes Pinto e Manuel António Dias estimam que o volume de negócios da Casa Senna ascenda a 1,3 milhões de euros, valor muito aquém dos registados no início do século. “Face a 2003, houve uma quebra de vendas ao público na ordem dos 70%”, lamenta Mendes Pinto.

Longe vão, contudo, os tempos em que a Casa Senna tinha um feroz concorrente mesmo ao alcance dos olhos. A Socidel, na esquina em frente e da qual a antiga glória verde e branca Fernando Peyroteo chegou a ser sócio, era uma empresa igualmente requisitada no comércio lisboeta. E esteve à beira de absorver a Casa Senna. Sem sucesso. Até que, já com o século XX dobrado, e através de duas operações distintas, foi a Casa Senna a tomar controlo da sua velha e falida rival, de cujas quotas viria a abdicar quatro anos mais tarde. Desde então a Socidel fechou as portas, deu lugar a um outlet de moda e o espaço encontra-se em restauração.

Quanto à Casa Senna, apesar de exposta ao mercado externo, tanto em inputs como outpus – os principais fornecedores são chineses, vietnamitas, taiwaneses e espanhóis -, prospera. E os 180 anos parecem, afinal, 18.

OCTÁVIO LOUSADA OLIVEIRA

 

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