Ourivesaria Neves & Filha: Há mais de século e meio a dar a conhecer a filigrana ao mundo

150 EMPRESAS QUE NASCERAM NO SÉCULO DO DN…OU ANTES: A Ourivesaria Neves & Filha é uma das quatro resistentes na portuense Rua das Flores, que já teve mais de duas dezenas de estabelecimentos de venda de artigos de ouro e prata.

Houve tempos em que do lado poente da rua, localização escolhida por causa do sol, havia paredes-meias mais de vinte ourivesarias de portas abertas. Hoje, a cada vez mais cosmopolita Rua das Flores, na Baixa do Porto, tem apenas quatro estabelecimentos de comércio de ouro e prata. O mais antigo é a Ourivesaria Neves & Filha, que começou em 1840, quando o então já famoso joalheiro da cidade José Pinto Leitão decidiu juntar à sua oficina uma loja para venda ao público. Assim nasceu naquele local a Leitão & Irmão, que mais tarde abriu filiais em Lisboa, Paris e Londres e que se tornaria famosa por ser fornecedora da Casa Real.

Peça exclusiva desejada por Cristina Lopes, proprietária da loja.

Peça exclusiva desejada por Cristina Lopes, proprietária da loja.

O sucesso de José Pinto Leitão fê-lo rumar à capital e passar o negócio da ourivesaria original portuense, que em 1875 passou a designar-se por Neves & Filha. A designação e a traça mantêm-se até hoje; desde o estilo em Arte Nova dos interiores, em tons de verde, aos desenhos do teto e madeiras do chão, até ao relógio e barómetro originais da Leitão & Irmão, que dominam a decoração da loja e contam o tempo desde há 174 anos.
O essencial manteve-se, apesar da mudança do tipo de clientes desde que o negócio foi assumido há menos de duas décadas por Cristina Lopes, cujo pai havia adquirido o estabelecimento nos finais dos anos de 1920.
“O meu pai dedicou-se à filigrana em prata e ouro, porque isso era o que cativava mais os clientes estrangeiros. Havia uns clientes que tinham uma loja de antiguidades na 5.ª Avenida, em Nova Iorque, que vinham cá de seis em seis meses e compravam montras inteiras. Outros antiquários de Nova Iorque passaram a vir cá para comprar peças em filigrana, que vendiam lá a preços exorbitantes. No tempo do meu pai, não havia um dia em que não se vendesse um anel de brilhantes ou um cordão de ouro. Vendiam-se peças muito mais caras do que agora. Na altura do Natal, por exemplo, os bons clientes gastavam mil euros, agora gastam duzentos… Além disso, antigamente, fabricava-se sempre o mesmo artigo, mas agora tem de se inovar e procurar as cores da moda, alterar o design…”, conta ao DN Cristina Lopes, que ao longo dos anos foi ganhando prazer em desenhar peças.

A ourivesaria Neves & Filha é uma das quatro resistentes, na Rua das Flores, no Porto, que já teve mais de vinte estabelecimentos de venda de ouro e prata.

A ourivesaria Neves & Filha é uma das quatro resistentes, na Rua das Flores, no Porto, que já teve mais de vinte estabelecimentos de venda de ouro e prata.

“Centenas modelos exclusivos” ao gosto dos clientes, que vêm à procura da filigrana típica da região e do ouro português de 19 quilates, “o melhor da Europa e dos melhores do mundo”: “Estou aqui na loja sem atender clientes, vou idealizando as peças e dou umas dicas para os meus fornecedores as fabricarem. Faço poucas, para não serem muito vistas e copiadas; nem sequer guardo os desenhos porque estou sempre a inventar coisas.”
Noutros tempos, havia grandes clientes norte-americanos e brasileiros, além de uma larga franja de clientes locais, que vinham à Rua das Flores atraídos pelas grandes ourivesarias (como a Aliança, a maior do país, com seis pisos de comércio, entretanto já extinta). Hoje o negócio da Neves & Filha e das lojas vizinhas é feito sobretudo à conta dos turistas, que passam cada vez mais, sobretudo desde que recentemente a rua passou a ser pedonal.
“O comércio beneficiou muito com a transformação em rua pedonal. Recebemos aqui gente da Austrália, do Dubai e sobretudo muitos franceses, brasileiros norte-americanos… A esmagadora maioria dos clientes são turistas e alguns já vêm direitinhos à filigrana”, explica a proprietária, enquanto mostra o livro de honra do estabelecimento, repleto de dedicatórias nas mais diversas línguas, alfabetos e caligrafias.
Cristina recorda os tempos em que atrizes como Beatriz Costa e Fernanda Borsatti frequentavam a loja, que hoje é mais ponto de passagem de artistas de novela brasileira, que só conhece de cara. Entre as suas memórias de mais de três décadas no estabelecimento, que a desviou de uma carreira como professora do ensino secundário, a proprietária encontra uma história relativamente recente de uma turista brasileira que veio à sua loja: “A senhora entrou aqui na loja com uma pulseira de ouro dentro de uma caixinha com o nome da nossa ourivesaria e disse-me: ‘Há 60 anos, o meu pai veio aqui comprar esta pulseira para oferecer à minha mãe na viagem de núpcias que eles fizeram ao Porto…’ Fico contente por vendermos artigos que marcam assim a vida das pessoas.”

SÉRGIO PIRES

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