Loja do Sal: Viver no sal longe do mar por capricho da natureza

150 EMPRESAS QUE NASCERAM NO SÉCULO DO DN…OU ANTES: A marca Loja do Sal só existe com esta designação desde 2009, mas Luís e João Lopes são a quarta geração de salineiros da família. Uma atividade iniciada no século XIX, pelo bisavô, que abriu uma taberna nas salinas de Rio Maior, a 30 km do mar, numa altura em que os taberneiros tinham um importante papel na comercialização do sal.

Quando se junta a maior rocha de sal-gema da Península Ibérica com um terreno acidentado calcário como o da Serra de Candeeiros o que é que se obtém? As condições ideais para produzir um sal sete vezes mais salgado do que o marinho, a trinta quilómetros de distância do mar. E foi neste “capricho da natureza” que a família Lopes começou a trabalhar no século XIX, na aldeia de Marinhas do Sal, a três quilómetros de Rio Maior. Aqui existe a única nascente de água salgada do País, que alimenta os 470 talhos das salinas, cerca de 13% dos quais explorados pela Loja do Sal. A marca foi registada em 2009, mas a atividade faz parte da família há quatro gerações.

As técnicas de produção mantém-se quase inalteradas

As técnicas de produção mantém-se quase inalteradas

“O documento mais antigo que fala nas salinas é de 1171”, mas, explica Luís Lopes, “julga-se que a exploração recue até à Pré-História”. Não recua assim tanto na árvore genealógica da família Lopes, que começou a temperar a sua história com os cristais de sal puro na segunda metade do século XIX. “Felizmente, mantém-se tudo quase igual, completamente artesanal, feito pelo homem e pela natureza”, explica Luís Lopes, de 24 anos, que juntamente com o irmão, João, de 28 anos, lideram o negócio familiar desde 2009.

As técnicas de produção pouco mudaram desde que há memória das salinas de Rio Maior. As diferenças são poucas, assinala Luís Lopes, enumerando: as pás de inox substituíram as de madeira – utilizadas para retirar o sal dos talhos colocando-o nas eiras, pequenas plataformas de madeira, onde fica a secar durante dois ou três dias, depende do calor – e a água já não sai do poço através da picota mas antes com uma bomba elétrica, facilitando o trabalho dos salineiros. No caso dos talhos explorados pela Loja do Sal, os irmãos introduziram outra novidade: o fundo deixou de ser em cimento e passou a ser de pedra da região. Por uma razão simples: “Ao sol, a pedra atinge temperaturas mais elevadas do que o cimento, facilitando a evaporação da água o que permite produzir o sal em menos tempo”, esclarece Luís Lopes.

Explorando 58 talhões de sal (cerca de 12 por cento do total das salinas de Rio Maior, a maior parte da qual explorada pela Cooperativa dos Produtores de Sal, criada em 1979), a empresa extrai cerca de 125 toneladas de sal por ano, que serve de matéria-prima para um conjunto de produtos que vão do sal para confeção de alimentos, para grelhados (com misturas das mais variadas ervas aromáticas) ou para fins terapêuticos, flor de sal (mais fina ou laminada), e uma linha de esfoliantes e hidratantes. Os dois irmãos estão à procura de novas aplicações para o sal – “Em teste está neste momento uma linha de sais de banho”, adianta Luís Lopes – mas de entre o leque de produtos à venda na loja, em Marinhas do Sal, instalada numa das muitas casas de madeira que serviam de armazém de sal para os salineiros, os tradicionais queijinhos de sal também têm local de destaque. O nome deve-se ao formato: “O sal é moldado com a ajuda de sinchos de madeira e depois é cozido em forno de lenha. Como este sal não tem iodo, ao contrário do marinho, os queijinhos conservam-se por muito tempo e é uma forma diferente de apresentar sal fino na mesa. Basta raspar para que cada um possa temperar a sua comida”, explica Luís.

João (à esq.) e Luís, com a mãe, na Loja do Sal, em Marinhas do Sal, a três quilómetros de Rio Maio

João (à esq.) e Luís, com a mãe, na Loja do Sal, em Marinhas do Sal, a três quilómetros de Rio Maio

Apesar da aposta em novas utilizações, a tradição não é posta de lado. Antes pelo contrário. Foi já depois de se terem formado (Luís em Psicologia do Desporto e João em Engenharia Eletrotécnica) que os dois irmãos decidiram regressar ao sal. “Decidimos voltar às origens para explorar o mercado em Portugal ligado às mercearias finas e à alta cozinha e para exportar na mesma linha”, refere. “Mas não nos preocupamos só em querer comercializar um produto. Queremos também promover e valorizar a imagem do local, contar a história e ainda aumentar a oferta de produtos não só no mercado alimentar mas também na área da saúde, com o sal terapêutico, avançando ainda para uma linha de cosmética ligada aos sais de banho e aos esfoliantes e hidratantes de sal”, resume, em traços largos, o trabalho que foram desenvolvendo nos últimos cinco anos.

Não sem alguns dissabores – como as burocracias ou a desconfiança com que é visto o empreendedorismo dos jovens – mas também com boas parcerias. É o caso da aposta na linha de cosmética, com uma empresa da Figueira da Foz que já trabalhava com as salinas locais, e ainda com a empresa de charcutaria tradicional de Rio Maior, que comercializa a marca Mestre Henriques. “Foram eles que, ao tomarem conhecimento do nosso projeto, vieram ter connosco porque já se tinham apercebido que havia fora do País interesse num produto com estas características”, reconhece Luís Lopes. Por isso, o sal de Rio Maior já chega a vários mercados, um pouco por todo o mundo, com Alemanha, Holanda e Áustria à cabeça.

Mas é na loja, em Marinhas do Sal, que 80% da produção é escoada. “Temos pessoas que já cá vinham comprar sal ao meu bisavô e ao meu avô. Há muitas que vêm cá uma vez por ano, abastecer-se de sal. E levam 20, 30, 50 quilos”, descreve Luís Lopes, esclarecendo que este foi um mau ano, com a produção a ficar-se pelas 70 toneladas. E se as 125 usuais já não chegam para todas as encomendas, este ano será ainda mais difícil satisfazer a procura.

Nada que os leve a querer aumentar áreas de produção. “Este local tem características únicas que devem ser preservadas. Não queremos que se torne industrial”. É por isso que gosta de dizer que “vive no sal” e não “do sal”.

MARINA MARQUES

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