Leitão & Irmão: Joalheiros de rainhas e de santas

150 EMPRESAS QUE NASCERAM NO SÉCULO DO DN…OU ANTES: Abriram a oficina no Bairro Alto em 1889 quando o bairro era operário e hoje são a única chaminé industrial que sobra. Mas para encontrar o início da história da Leitão & Irmão é preciso viajar até ao Porto do início do século XIX, quando o comerciante José Teixeira da Trindade casou a filha com um dos melhores ourives da cidade, José Pinto Leitão.

Joalheiros de reis e rainhas, as peças que saíram das oficinas da Leitão & Irmão em quase dois séculos de história foram usadas por D. Amelia d’Orleans, D. Maria Pia ou pela princesa alemã Augusta Vitória, consorte do último Rei de Portugal. Foram oferecidas a papas e imperadores e desenhadas pelos grandes artistas de cada época. Mas mesmo assim, há uma que sobressai: foi trabalhada durante meses por 12 artífices, tendo como matéria-prima milhares de joias oferecidos pelos portugueses. E uma bala, acrescentada em 1984. Falamos da Coroa de Nossa Senhora de Fátima.

A Leitão & Irmão transferiu-se para Lisboa depois de receber o título de Joalheiros da Coroa e abriu as oficinas no Bairro Alto  Direitos reservados

A Leitão & Irmão transferiu-se para Lisboa depois de receber o título de Joalheiros da Coroa e abriu as oficinas no Bairro Alto
Direitos reservados

“É uma história fantástica, desde o início. Houve um peditório nacional para oferecer uma coroa a Nossa Senhora de Fátima, rainha de Portugal, por ter poupado o País à II Guerra Mundial. O Santuário de Fátima confiou-nos tudo aquilo que os portugueses deram, dos Açores a Bragança, e foi tanto coisa que foram criadas duas coroas, uma de ouro e pedras preciosas que tem uma variedade que nunca teria se fosse desenhada, para as ocasiões especiais, e outra em prata dourada que Nossa Senhora usa todos os dias”, conta Jorge Leitão, proprietário da joalharia e a “sexta ou sétima geração da família” à frente da casa.
Para encontrar o início da história da Leitão & Irmão é preciso viajar até ao Porto do início do século XIX, quando o comerciante José Teixeira da Trindade casou a filha com um dos melhores ourives da cidade, José Pinto Leitão. Teixeira da Trindade era um dos mais prósperos comerciantes do País, graças ao comércio com o Brasil e ao negócio do ouro e teve a sagacidade de casar a filha com um dos melhores ourives da cidade, José Pinto Leitão, conta Jorge Leitão.

Jorge Leitão, proprietário e descendente dos fundadores, mostra uma das máquinas centenárias da oficina da Leitão & Irmão

Jorge Leitão, proprietário e descendente dos fundadores, mostra uma das máquinas centenárias da oficina da Leitão & Irmão

O negócio prosperou e em 1866 já tinha filiais em Paris e Londres. A transferência para Lisboa aconteceu quando foram nomeados Joalheiros da Coroa, por D. Luís, afinal “a viagem do Porto à capital demorava quatro dias pela mala-posta”, e o “cargo” exigia uma proximidade à corte, explica o proprietário.

Foi já perto do final do século que abriram no Bairro Alto a oficina, que hoje permanece como um cenário de um filme da revolução industrial escondido no meio de uma das noites mais movimentadas da capital. O barracão foi construído no pátio dos cavalos de um antigo palacete, à medida e depois da maquinaria já estar instalada. Hoje, as máquinas que eram de tecnologia de ponta, compradas em Manchester e Paris, continuam lá e algumas ainda são usadas pelas duas dezenas de operários que trabalham nas oficinas. As outras são memórias que ninguém tem coragem de deitar fora.

Na oficina do ouro, ou das peças pequenas porque as grandes não passam nas escadas, acumulam-se objetos resgatados das oficinas de outras ourivesarias, à medida que vão fechando, diz a chefe Fátima Neto. Aqui toda a gente trabalha sempre com uma gaveta aberta, porque o pó que cai das peças é ouro. Até a água de lavar as mãos é reciclada, para aproveitar todas as partículas de ouro e prata. No final do dia, são milhares de euros.

O luxo é algo que marca este negócio, mas nem sempre é isso que as pessoas compram. “São obras que duram, passam de geração em geração, e há sempre uma altura em que nos preocupamos com a eternidade. O ouro e as pedras preciosas têm o chamamento da eternidade. Por outro lado têm sempre valor, em qualquer parte do mundo”, lembra Jorge Leitão.

Das oficinas para os escritórios, damos o pulo do século XIX para os século XXI. É aqui que se desenham as coleções que vão chegar às montras nos meses seguintes. Lopo Amorim uma missão diferente, mas igualmente importante: levar o luxo da Leitão & Irmão para o mundo virtual, da loja na internet à presença nas redes sociais. Em frente ao computador, está prestes a fechar a venda de um cordão português a um comprador de Paris. Se a transação for para a frente, o comprador recebe não apenas o cordão, mas também um vídeo com o processo de manufatura na tal oficina do século passado. Recebe ouro, história, tradição.

PATRÍCIA JESUS

Sem comentários

  1. Maria Margarida Costa Fernandes Carreteiro

    Há muitos anos que sou admiradora da Leitão & Irmão,tenho algumas peças e familiares que trabalharam para a vossa casa o Manuel Gonçalves e o Jeremias, Obrigada por continuarem

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