J. P. Conceição: o ‘eBay’ portuense do século XIX tem peças expostas em Nova Iorque

Há 120 anos instalada na baixa da Invicta, a J. P. Conceição arranjava o que todos precisavam. No século XXI readaptou-se e além de importar bens também é um atelier de cerâmica. Museu de Arte Moderna de Nova Iorque já a visitou e não resistiu a levar um azulejo. Empresa é também ela um museu de tecnologia do século passado.

Foi em 2010 que Rita Gonçalves recebeu uma chamada que lhe ia mudar a vida. “Foi um conhecido meu que, através do Museu de Serralves me avisou que vinha cá à empresa um representante do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque [MoMA]. Pensei que estava a gozar comigo”, conta ao DN a atual dona da centenária empresa J. P. Conceição. A visita do MoMA foi o culminar da revitalização da empresa fundada em 1894 na Rua Mouzinho da Silveira, que desce da Estação de São Bento para a Ribeira do Porto – local onde, aliás, ainda se mantém.

A empresa, fundada por Joaquim Pinto, chegou a ter escritórios em Lisboa e Londres

A empresa, fundada por Joaquim Pinto, chegou a ter escritórios em Lisboa e Londres

“Os representantes do MoMA estavam em Portugal a visitar locais de arte contemporânea devido ao projeto ‘Destination Portugal’. Visitaram o país todo e acabaram por levar um dos meus azulejos que foi incluído na seleção de dez peças a serem expostas no museu”, conta orgulhosa Rita Gonçalves, que chegou como sócia à empresa em 1993.
Mas nem sempre foi assim na J. P. Conceição, empresa que recebeu o nome do seu fundador: Joaquim Pinto. A empresa começou por se focar na importação. Com escritórios no Porto, Lisboa e Londres, a J. P. Conceição, graças à forte rede de contactos, tornou-se uma das principais referências do Norte e Centro de Portugal na passagem do século XIX para o século XX. “O que o cliente queria a empresa arranjava. Era uma espécie de ‘Ebay’ da época”, diz a dona da empresa.
E quando se diz que a J. P. Conceição arranjava tudo, era mesmo tudo: algodão, drogas medicinais, solas, cabedais, máquinas industriais, peles, artigos de higiene, tecidos, combustíveis, óleos, calculadoras ou relógios, desde que existisse bastava encomendar. Mas foi nos relógios de ponto e turno que a empresa se tornou especialista. Empresas como a STCP ou a Corticeira Amorim só confiavam nos marcadores do tempo que vinham da Alemanha. “Eram mais caros mas também os melhores e mais precisos”, diz Rita Gonçalves. Este é aliás um dos principais negócios que perdurou até à atualidade. “Eu vendo os relógios e o meu marido presta assistência técnica”, acrescenta.
Rita, formada em Filosofia, resolveu arriscar e tornar-se no início dos anos 90 sócia de uma empresa centenária em decadência. Os restantes donos da empresa eram já bastante idosos e avessos a mudanças que pudessem levar a J. P. Conceição para a modernidade. “Alguns deles ainda usavam calculadoras de manivela e eram bastante conservadores. Tinha a sua graça, mas não era bom para a empresa”, conta Rita Gonçalves. Logo que chegou à empresa quis envolver-se no negócio e aprendeu a tratar dos relógios de ponto que vendiam. Um atrevimento que não agradou a alguns técnicos da empresa, especialmente por ser mulher, mas levou a sua vontade avante e quem estava mal mudou-se para outras paragens. Acabou por assumir o controlo nessa década e apostou na diversificação. “Eu trabalhava nos relógios mas não era bem aquilo que gostava”, diz. Começou a viajar para feiras na Alemanha e continuou o negócio dos relógios – que vinham especialmente da região da Floresta Negra, próxima da Suíça. Além disso, e devido à paixão pela cerâmica, começou a importar louças e bules de Inglaterra. “Foi um sucesso. Vendia às mais famosas casas de louças do Porto”, recorda Rita Gonçalves.
Começou a revitalização da J. P. Conceição e em 2004 um novo “braço” do negócio: “A cerâmica era o meu passatempo e lembrei-me de tentar lucrar com isso. Fundei o ateliê 110 Cores, em homenagem aos 110 anos da empresa, no antigo armazém”.

Rita Gonçalves criou o atelier de cerâmica 110 Cores que deu um novo fôlego ao negócio

Rita Gonçalves criou o atelier de cerâmica 110 Cores que deu um novo fôlego ao negócio

O empreendimento deu frutos e a empresa é um sucesso entre os turistas que visitam a Invicta. Tudo por culpa de clientes habituais das peças de Rita Gonçalves que começaram a espalhar a palavra. “Vêm cá pessoas especialmente da Alemanha, França e Reino Unido para comprar artesanato. Também realizámos protocolos com empresas de ‘tuk tuk’ que incluem uma passagem pela J. P. Conceição nos roteiros e fazemos ‘workshops’”, diz.
Os planos da empresa passam ainda por fazer um museu com todo o material antigo. “Temos cofres e mobília centenária, máquinas de escrever portáteis, relógios de ponto, calculadoras mecânicas, agrafadores que não usam agrafos. Tudo em excelente estado”, diz Rita Gonçalves. Ainda assim o futuro é incerto, com a empresa a enfrentar a possibilidade de abandonar a casa de sempre. Com a atualização das rendas os proprietários do edifício ainda não sabem se irão dar novo uso ao prédio. “Já nos oferecemos para pagar mais renda, mas os donos estão indecisos se irão vender o prédio para construção”, lamenta Rita Gonçalves que assim mantém em stand-by os planos para a organização de um museu da empresa.

BRUNO ABREU

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