O terramoto que destruiu Angra do Heroísmo

O DIA EM QUE O DN CONTOU: A 1 de janeiro de 1980, às 15.42, um terramoto abala os Açores, atingindo 7,2 na escala de Richter. Causa mais de 70 mortos, centenas de feridos e uma devastação brutal, sobretudo em São Jorge e na Terceira – 80% dos edifícios de Angra foram destruídos, nomeadamente no centro histórico -, desalojando mais de 20 mil pessoas. O DN faz duas edições a 3, o dia em que, em pleno luto nacional, o Governo Sá Carneiro toma posse

O maior sismo dos últimos 2,5 séculos. Muito abaixo do terrível abalo de 1755, que terá alcançado 9 na escala de Richter, o dos Açores terá sido o mais violento desde então em território português. Além de ter deixado milhares sem casa, afetou gravemente muitos monumentos de Angra, com prejuízos na altura contabilizados em mais de um milhão de contos (correspondente a preços de hoje a 47 milhões de euros). O arquipélago recebeu mais de 12 milhões de ajuda internacional e ao fim de três anos a reconstrução de Angra, que foi considerada exemplar, estava quase completa.

O maior sismo dos últimos 2,5 séculos. Muito abaixo do terrível abalo de 1755, que terá alcançado 9 na escala de Richter, o dos Açores terá sido o mais violento desde então em território português. Além de ter deixado milhares sem casa, afetou gravemente muitos monumentos de Angra, com prejuízos na altura contabilizados em mais de um milhão de contos (correspondente a preços de hoje a 47 milhões de euros). O arquipélago recebeu mais de 12 milhões de ajuda internacional e ao fim de três anos a reconstrução de Angra, que foi considerada exemplar, estava quase completa.

“‘Como era linda a nossa cidade’ é um soluço ao lado do repórter, um murmúrio que foi como um grito. É uma mulher que procurou, sem qualquer outro objetivo, as luzes do aeroporto, para sentir que continuava a vida, que existe ainda, apesar de tudo, uma certa segurança nesta ilha. Nesta ilha cheia de escuridão e cicatrizes.(…) Dá-lhe segurança esta espécie de oásis. Apesar das lágrimas que não sabe que tem e lhe humedecem o peito do vestido’.” O texto, publicado na segunda edição de dia 3, é assinado por Maria Guiomar Lima e José David Lopes, este enviado de Lisboa com o fotógrafo Fernando Farinha, ela, açoriana da Terceira e de férias de Natal na ilha, testemunha presencial do sismo.

Então com 30 anos, a jornalista estava na casa de férias dos pais, em Serretinha, uma aldeia a nove quilómetros de Angra. “Foi um grande susto mas a casa não sofreu nada. A seguir, pelas cinco, seis horas, fomos à cidade ver o que se passara, porque não havia eletricidade nem telefone, não sabíamos nada. Ali à volta da aldeia e no caminho não se via nada, não havia sequer gente. Mas quando cheguei à cidade e vi o obelisco da memória [monumento ereto no século XIX para comemorar a passagem de D. Pedro IV na Terceira, por ocasião da guerra civil de 1828-34] caído percebi que era muito grave. A nossa casa não ficou muito afetada, acho que foram só os livros que caíram da estante, mas a cidade estava arrasada.” Antes de voltar para a aldeia, por achar que era mais segura, Guiomar foi para a bicha dos Correios para ligar para o jornal. “Não estava ninguém a não ser a telefonista [era feriado, recorde-se], que ligou para casa do Fernando Pires [chefe de redação]. Comecei logo a  trabalhar. Fiquei muito contente por poder trabalhar porque assim não podia chorar.”Nessa noite, conta, começaram as réplicas. “Foi pavoroso, ninguém conseguia dormir. Mas tivemos muita sorte na família, não só no aspeto de as casas não terem sofrido como porque não nos morreu ninguém, nem sequer ninguém que conhecêssemos.” Sem TV nem telefone, colocam as pilhas de um walkie talkie do irmão mais novo num rádio para apanhar notícias – os radioamadores, aliás, serão no pós catástrofe a grande fonte de novidades e a ligação entre as ilhas e as povoações mais remotas. No dia seguinte, voltou à cidade com luz. “Não consigo descrever o que senti a ver aqueles bairros antigos – a parte baixa da cidade toda destruída.”

A açoriana Maria Guiomar Lima (1950) tinha entrado no DN há quatro anos, depois de ter passado na revista Opção  e no Jornal Novo  - “sou uma jornalista típica da revolução, comecei a fazer jornalismo no pós-25 de Abril” -, quando  viveu na primeira pessoa o grande terramoto dos Açores: estava de férias com os pais e irmãos numa casa de campo a nove quilómetros de Angra quando a terra tremeu. Sem notícias devido à falta de luz, foi à sua cidade e descobriu-a arrasada. Meteu-se logo na bicha dos correios para ligar para o jornal, e começou a trabalhar para não chorar. Com José David Lopes e Fernando Farinha, enviados de Lisboa, fez a cobertura dos dias seguintes.

A açoriana Maria Guiomar Lima (1950) tinha entrado no DN há quatro anos, depois de ter passado na revista Opção e no Jornal Novo – “sou uma jornalista típica da revolução, comecei a fazer jornalismo no pós-25 de Abril” -, quando viveu na primeira pessoa o grande terramoto dos Açores: estava de férias com os pais e irmãos numa casa de campo a nove quilómetros de Angra quando a terra tremeu. Sem notícias devido à falta de luz, foi à sua cidade e descobriu-a arrasada. Meteu-se logo na bicha dos correios para ligar para o jornal, e começou a trabalhar para não chorar. Com José David Lopes e Fernando Farinha, enviados de Lisboa, fez a cobertura dos dias seguintes.

A 2 chega a equipa de enviados de Lisboa. Encontram uma ilha lavada em lágrimas e sem luz à exceção de algumas zonas da base das Lajes, do hospital e do aeroporto, onde um funcionário que ficou sem casa e cuja família se abriga num hangar dá o soundbite decisivo: “Nunca esperei que a expressão ano novo, vida nova fosse para nós, açorianos, o relento e o desespero.”

Desespero: na mesma página da segunda edição que o DN fez sair, no dia 3, das três dedicadas à tragédia, uma lista provisória de mortes (46 confirmadas das mais de setenta que no fim das contas se apurarão), com nomes e idades, assinala sete crianças, a mais nova de sete meses. O número faz mais pungente o menino que chora o seu Farrusco, desaparecido na confusão, recusando, inconsolável, a esperança que o pai tenta emprestar-lhe: “Começou a uivar e fugiu antes do tremor de terra, vais ver que aparece.” E o homem que queria fugir de casa mas via as portas e janelas ondular e tremer “de tal forma à minha frente que não conseguia acertar. Jesus, Maria, pensei, morremos todos aqui.” Não morreu, não morreram – saíram mesmo a tempo – mas a casa sim. Como esta família, milhares ficaram sem abrigo, numa região pobre, com ilhas, como São Jorge, em que, conta o correspondente do Faial, Francisco Islemio, só havia um médico no dia 1 – porque lá estava de férias – e as comunicações telefónicas caíram, num país em processo de construção pós-ditadura, escassos cinco anos e oito meses depois do 25 de Abril. É, aliás, a primeira catástrofe natural do regime democrático, que vê ascender, a 3 de janeiro, em pleno luto nacional, o seu primeiro Governo de coligação PSD-CDS – mais PPM – , liderado por Francisco Sá Carneiro, o segundo Executivo a resultar de legislativas e o primeiro com maioria absoluta. Ainda será, porém, a PM cessante, Maria de Lourdes Pintasilgo (nomeada em julho de 1979 pelo presidente Eanes para chefiar um governo de gestão), a pedir ajuda internacional e a reunir o gabinete de crise.

Dessa prova de fogo da jovem democracia fala, na primeira página das duas edições do dia 3, cuja manchete é “Horas trágicas nos Açores”, o diretor Mário Mesquita, açoriano de Ponta Delgada.  Numa coluna intitulada “Isolamento e solidariedade”, regista a diferença de reação em relação às tragédias dos anos 60 na região: “Desta feita os Açores não estiveram abandonados à sua sorte nem à boa vontade de países amigos (…). Não se trata aqui de homenagear a noção de dever e de generosidade de quem quer que seja, mas de reconhecer os resultados produzidos pela afirmação regional açoriana, retomada com particular vigor após o 25 de Abril.” Uma afirmação que se reiterará, como a solidariedade nacional que Eanes promete, na reconstrução que se inicia logo de seguida, com materiais e crédito a serem fornecidos aos cidadãos para que lancem mãos à obra. E com a declaração pela UNESCO do centro histórico de Angra como Património da Humanidade.

FERNANDA CÂNCIO

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Existem 3 comentários

  1. Le moal yveline

    é muito interessante;conhescia o de Lisboa , mas nao bem nas ilhas dos Açores, onde fui muitas vezes, com uma ecologia muito interessante e paisagens muito agradaveis. Tudo sobre uma actividade importante de la placa tetonica onde elas foram.
    obrigada, yveline le moal brest france

  2. António Valinho

    Caros senhores,
    Nos Açores o termo “aldeia” e as próprias, não existem. Existem sim freguesias ou lugares.
    Neste caso, a Serretinha é um lugar da freguesia da Feteira.
    Com os melhores cumprimentos.

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