Totta: Nome de banqueiro que perdura

A origem do banco remonta a 1843, mas o nome só surgiu 50 anos depois. Conviveu com diferentes regimes políticos, sobreviveu a crises financeiras, manteve-se nas várias fusões por que passou no século XX. Aquando da privatização, a primeira no pós-25 de abril, as ideologias dos funcionários cederam perante a vontade de manter o Totta vivo.

A Casa Bancária José Henriques Totta (edíficio do meio) nasceu em 1893, a partir da Casa Bancária Fortunato Chamiço Júnior (fundada em 1843). A designação Banco José Henriques Totta surgiu em 1953.

A Casa Bancária José Henriques Totta (edíficio do meio) nasceu em 1893, a partir da Casa Bancária Fortunato Chamiço Júnior (fundada em 1843). A designação Banco José Henriques Totta surgiu em 1953.

Alípio Dias, que assumiu a presidência do Banco Totta e Açores no final dos anos 1980, convocou a comissão de trabalhadores após o então primeiro-ministro Cavaco Silva lhe comunicar que a instituição iria ser privatizada. Na emblemática sede da Rua do Ouro, transmitiu a “grande notícia” aos três funcionários e aguardou que eles, ligados ao PCP e ao PS, discutissem num local afastado da comprida sala do Conselho. A resposta veio em menos de cinco minutos: “Somos ideologicamente contra, mas pode contar connosco!”

“É uma frase muito bonita, que marcou profundamente a minha vida”, observou ontem Alípio Dias ao DN, ao evocar a “equipa fantástica” que “era prata da casa” e trabalhou duramente para garantir o sucesso do Totta. “É um nome muito forte, em que as pessoas ainda confiam”, adiantou, sobre o porquê de esse nome permanecer vivo enquanto os dos outros bancos com quem se associou e fundiu foram desaparecendo (Crédito Predial Português, Banco Aliança, Banco Lisboa & Açores).

Fortunato Chamiço Júnior, filho de boas famílias e educado em Inglaterra, fundou na capital uma casa bancária com o seu nome em 1843. Duas décadas depois admitiu como paquete um jovem de 16 anos, José Henriques Totta – a quem fez sócio em 1889 e depois cedeu o estabelecimento. Na carta aos clientes, Fortunato Chamiço escreveu: “O Sr. Totta está comigo há 28 anos, tem minha procuração sem restrições há 18, é meu sócio há quatro. Merece-me inteira confiança e por isso peço a Vª Srª se digne conceder-lhe a sua.”

A agora chamada Casa Bancária José Henriques Totta mudou-se nesse mesmo ano para uma nova sede, na Rua do Ouro. As crises financeiras e políticas nas décadas seguintes não impediram o novel banqueiro de ir aumentando o capital da instituição e de, com o seu estilo de vida, ter dado origem a uma frase publicitária do século XXI: Quem quer dinheiro vai ao Totta. “José Henriques Totta era um bocado malandreco, gostava de teatro e ia muito ao Politeama, onde convivia com coristas e atrizes. Quando alguma tinha falta de dinheiro, as amigas diziam-lhe ‘vai ao Totta’”, recordou ontem um sorridente Alípio Dias, a quem as filhas do dono daquele teatro da baixa lisboeta entregaram as cartas trocadas entre o pai e o banqueiro.

Os espanhóis do Santander assumiram o 'apelido' Totta depois de comprarem a instituição portuguesa e instalarem a sede na zona da Praça de Espanha, em Lisboa

Os espanhóis do Santander assumiram o ‘apelido’ Totta depois de comprarem a instituição portuguesa e instalarem a sede na zona da Praça de Espanha, em Lisboa

Henriques Totta, que em 1918 se tinha afastado da instituição após a morte do filho, regressou três anos depois pela mão do industrial Alfredo da Silva. O dono da CUF entrou na sociedade quando esta estava à beira da falência no início dos anos 1920. Segundo Alípio Dias, “na grande crise de 1929 Alfredo da Silva fez esforços tremendos para aguentar a Casa Bancária. Hipotecou, vendeu e aguentou” a instituição que o genro, D. Manuel de Mello, iria transformar no Banco José Henriques Totta em 1953.

A fusão com o Banco Aliança (nascido em 1863 no Porto) deu origem ao Banco Totta-Aliança. Nove anos depois, expande-se quando o Grupo CUF adquire o Banco Lisboa & Açores e, a 2 de janeiro de 1970, começa a operar com o título Banco Totta & Açores – marca ainda inscrita no edifício da Rua do Ouro e que se mantém como sede social do atual Santander Totta.

Nacionalizado com o 25 de Abril, o BTA manteve uma situação financeira que o levou a ser escolhido pelo governo de Cavaco Silva como a primeira instituição a privatizar. Já com Alípio Dias à frente da instituição desde 1988, o Totta “foi o primeiro banco a ser auditado”. Eram feitas “duas auditorias completas” por ano (uma por semestre) e os relatórios entregues ao Banco de Portugal e ao ministro das Finanças. Havia “situações delicadas”, mas “os colaboradores do Totta tiveram um papel fundamental na recuperação do banco. Houve uma união muito grande…. o banco era a bandeira, era o que nos motivava”, elogiou o banqueiro.

A segunda etapa da privatização do BTA envolveu-o numa enorme polémica entre as autoridades portuguesas e espanholas, com várias demissões pelo meio (nomeadamente do governador do Banco de Portugal e do presidente da CMVM). O chamado “caso Totta”, onde o espanhol Banesto adquirira uma posição superior à permitida por lei, exigiu uma solução política que envolveu a compra do BTA por António Champalimaud e atrasou a chegada do também espanhol Santander. Nesse verão de 1994, à saída de uma audiência com o então ministro das Finanças Eduardo Catroga, o dono do Santander, Emílio Botín, virou-se para Alípio Dias: “Vai haver eleições para o ano? Os governos passam e o Santander voltará.”

A profecia concretizou-se em 2000, após um acordo com Champalimaud e com a CGA que envolveu o controlo total do Crédito Predial Português (CPP) pelo BTA.

Em 2004, a fusão entre os três bancos comerciais de Emílio Botín em Portugal (Santander Portugal, CPP, BTA) fez nascer a marca única Santander Totta – que é dada como potencial compradora do antigo BES.

Manuel Carlos Freire

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