A morte de Amália Rodrigues, a Voz

O DIA EM QUE O DN CONTOU: “Silêncio… Escutem. A Voz. Amália.” Estas são as primeiras palavras de um sentido e belo texto que abre a edição especial que o DN publica a 7 de outubro de 1999. A mulher que marcou decisivamente a história do fado tinha sido encontrada sem vida no dia anterior. Em casa, na casa amarela, no número 193 na Rua de São Bento. A vida e os tantos mundos de Amália percorrem dezenas de páginas. Entre elogios e polémicas, houve quem visse nela o “poder criador de Deus”

“Vi o Menino Jesus/ Que bonito que ele vinha/ Trazia estrelas de luz/ Ou eram brincos que tinha.” Os versos de “poetas de todos os tempos, de todos os estilos e escolas, de rima ou de pé-quebrado, de trovadores e de vozes da modernidade” cantados por Amália Rodrigues percorrem o topo de 62 das 64 páginas do Diário de Notícias. Catorze são dedicadas por completo à Voz. Na capa, um rosto sereno, olhos fixos, quase tristes – fixado pelo fotógrafo Luís Vasconcelos – e as primeiras palavras do Fado Amália, escrito por José Galhardo, como título: “Amália, quis Deus que fosse o meu nome.”

Mais de 150 álbuns em seis décadas. E uma marca que fica para a história da música portuguesa: a partir dos anos 50, o fado encontra na voz de Amália a poesia de David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Pedro Homem de Mello, José Régio, Luís de Camões, entre muitos outros. O compositor Alain Oulman seria o grande responsável por esta mudança. E bastou que um dia, na Ericeira, mostrasse a Amália Rodrigues o Vagamundo, de Luís de Macedo.

Mais de 150 álbuns em seis décadas. E uma marca que fica para a história da música portuguesa: a partir dos anos 50, o fado encontra na voz de Amália a poesia de David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Pedro Homem de Mello, José Régio, Luís de Camões, entre muitos outros. O compositor Alain Oulman seria o grande responsável por esta mudança. E bastou que um dia, na Ericeira, mostrasse a Amália Rodrigues o Vagamundo, de Luís de Macedo.

“Silêncio… Escutem. A voz. Amália. Que voz foi – que voz é – esta? Amália. Para sempre. Irrompeu das vielas, espalhou o pregão dos limões, descalça, traquina, olhos de um castanho macio. E desafiou o canto que estava dentro de si mesma. ‘Foi espia apenas do meu fado’, disse um dia ao DN. Espia do sentimento. De uma identidade com um povo que escreve saudade por dentro das veias (…) Vejo-a, arguta, em encontros no Martinho da Arcada. Relembro-a em sua casa, sempre coberta de gente. Falámos tanto e de tudo. De um destino: ‘O de não conseguir deixar de sonhar, apesar de desencantada.’ Amália. Silêncio… a Voz.”

O texto de Maria Augusta Silva, na página dois do DN de 7 de outubro de 1999, abre a edição de quinta-feira. Amália tinha sido “encontrada sem vida cerca das oito horas, no quarto”, em casa, na Rua de São Bento no dia anterior, 6 de outubro de 1999. “Tinha regressado na véspera do Brejão, no Alentejo. Sentiu-se indisposta na viagem (…) O mal--estar levou-a a recusar um convite para uma corrida de touros em Vila Franca de Xira, a favor de Timor-Leste.” Escreve o DN que “depois da morte da pintora e amiga Maluda, mostrava-se angustiada, deprimida”.

Nas ruas de Lisboa, Ana Mafalda Inácio e Paula Sanchez relatam o “adeus muito sentido” de um “povo que acompanhou a fadista de São Bento à Estrela, desfraldando lenços brancos e batendo palmas”. Horas antes, a meio da manhã, o “trânsito junto ao número 193 da Rua de São Bento era intenso. À porta da casa amarela paravam carros de familiares e amigos, que entravam e saíam de lágrimas nos olhos ou de vozes embargadas.”

Estava já no último ano do curso de Gestão de Empresas e Economia quando a turbulência política (1975) o levou a Paris para tirar um curso de Jornalismo, porque as aulas estavam suspensas. Foi um passo decisivo. Nunca mais voltou à economia. Ingressou nos quadros do DN em 1976. Foi jornalista de política nacional, editor do suplemento Análise DN, coordenador das secções de Política, Economia, diretor adjunto e diretor. Natural de Ponta Delgada, Mário Bettencourt Resendes foi, porventura, o diretor que mais marcou a história recente do Diário de Notícias, onde foi também provedor do leitor. Morreu em 2010, com 58 anos

Estava já no último ano do curso de Gestão de Empresas e Economia quando a turbulência política (1975) o levou a Paris para tirar um curso de Jornalismo, porque as aulas estavam suspensas. Foi um passo decisivo. Nunca mais voltou à economia. Ingressou nos quadros do DN em 1976. Foi jornalista de política nacional, editor do suplemento Análise DN, coordenador das secções de Política, Economia, diretor adjunto e diretor. Natural de Ponta Delgada, Mário Bettencourt Resendes foi, porventura, o diretor que mais marcou a história recente do Diário de Notícias, onde foi também provedor do leitor. Morreu em 2010, com 58 anos

Os tantos mundos de Amália são contados página a página. António Valdemar, Miguel Gaspar, Ana Marques Gastão, Elisabete França, Eurico de Barros, Manuel Neto, Manuela Alves e Pedro Correia recordam a mulher que nascida no “tempo da cerejas” tinha muito da Beira Baixa na “sua maneira de cantar”; a estreia internacional em Madrid, Hollywood, Broadway, Paris , entre tantos palcos; os grandes músicos, cantores e poetas que com Amália se cruzaram ; o cinema que “não lhe fez justiça; a discografia desde 1943, ano de As Penas; as imagens que marcaram a sua vida. E é publicado o manuscrito da sua Estranha Forma de Amar, ela que tanto gostava de fazer versos de “coisas que sentia”.

No dia seguinte, a campanha eleitoral para as legislativas e a revolta em Timor-Leste retomam conta da atualidade. A manchete noticia mais um desentendimento político. No topo da primeira página: “Marcelo arrasa Pacheco”. Em baixo, a reprodução do “poster grátis” de Amália que o DN oferecia nesse dia. E este título: “Façam o favor de chorar por mim.” O noticiário sobre a morte da “diva” é remetida para as páginas 44 a 47, nas Artes & Multimédia, onde surge o detalhado relato dos “milhares de pessoas”, dos políticos e artistas, “dos que com ela privaram”, dos que na véspera tinham passado pela Basílica da Estrela – “O adeus sereno de um povo”, na reportagem de Manuela Alves -; a notícia de um “movimento em curso para que Amália seja sepultada nos Jerónimos (…) ao lado de Camões e Pessoa” e um “olhar” sobre o que dizia a imprensa internacional – que a comparava a Billie Holiday, Edith Piaf e Ella Fitzgerald.

No sábado, dia 9, a foto dos milhares de pessoas que acompanharam o cortejo fúnebre pelas ruas de Lisboa preenche todo o lado direito da primeira página do DN. E há duas polémicas a marcar o dia: Vasco Pulido Valente considera “estapafúrdia” a ideia de trasladar Amália do gavetão 36 do Cemitério dos Prazeres para o Mosteiro dos Jerónimos – “esteve sempre limitada a um meio minúsculo e um género ‘típico’, o fado: e nunca verdadeiramente mudou (…) sempre foi um produto exótico (para servir em pequenas doses) e nunca popular (…) Com ela acabou uma pátria perdida. Uma pátria perversa”; e João Braga diz ser “vil e infame” dizer-se – a revelação foi de Carlos Carvalhas, a quem o fadista acusa de “mentir impunemente ao povo” – que Amália tinha financiado o PCP.

Nas quatro páginas, da 36 à 39, reservadas para o dia do funeral, lemos os elogios do vigário-geral do Patriarcado de Lisboa – “Nela brilhou com fulgor o poder criador de Deus” – e o que dizia o povo na rua: “Cantem, cantem Amália.” Flores, fado e lágrimas resume o DN.

No dia seguinte, manter-se-ia viva a polémica PCP vs. João Braga. E disparariam as vendas dos discos. Mais de 50 mil encomendas, estando a “obra de amália praticamente esgotada”.

ARTUR CASSIANO

Existem 3 comentários

  1. Wagner de Paula Soares

    Ótima reportagem, nela é resgatada um pouco da história dessa fantástica intérprete do fado Portugues e desconhecida por mim que sou brasileiro.

  2. Dr Feelgood

    A Voz, sem dúvida. Um portento único e arrebatador, incapaz de deixar o mais distraído tranquilo. A nossa Diva. Mesmo não sendo grande apreciador do género fico prostrado com tamanho desempenho.

  3. Quando Morren as Divas Vão para o Céu

    A morte de Amália nunca foi devidamente investigada. Como é possível que Amália tinha sido “encontrada sem vida”, em casa, depois da indisposição do dia anterior, sem ter consultado um médico ou ter visitado um hospital? E a sua enfermeira particular? Nada viu? E as pessoas que viviam com ela? Nada viram?
    “Tinha regressado na véspera do Brejão, no Alentejo. Sentiu-se indisposta na viagem (…)”. Estranha coincidência que o seu marido, César Seabra, também faleceu subitamente quando se encontrava no Brejão. Como é possível uma pessoa como Amália Rodrigues, que se sabia ter uma saúde delicada, ter sido deixada morrer sózinha? Há muitas perguntas que nunca foram respondidas e que talvez nunca venham a ser. É pena. Os milhões de admiradores de todo o mundo reclamam por uma resposta.

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