Tipografia Lousanense: Desta casa de família saíram os livros Nobel de Saramago

No princípio, em 1885, eram os jornais. Mas foi a dar à estampa livros, das mais variadas áreas, que a Tipografia Lousanense se fez famosa. As obras mais notáveis terão sido, provavelmente, as que imprimiu em outubro de 1998, logo após José Saramago vencer o Prémio Nobel da Literatura.

Em finais de século XIX, a “Typographia Louzanense” ainda funcionava em casa do seu primeiro grande dinamizador, Júlio Ribeiro dos Santos

Em finais de século XIX, a “Typographia Louzanense” ainda funcionava em casa do seu primeiro grande dinamizador, Júlio Ribeiro dos Santos

De um dia para o outro, a Tipografia Lousanense viu-se no centro das atenções e com um trabalho “sobre-humano” em mãos. Aconteceu em outubro de 1998: o Nobel da Literatura foi atribuído a José Saramago e aquela casa familiar, na vila da Lousã, onde eram impressos os livros do escritor recebeu um sem número de solicitações. “Mal conseguíamos dar vazão a tanto pedido. Não tínhamos a capacidade produtiva que temos hoje, mas saíram daqui 200 mil livros num mês. Fizemos tudo de um dia para o outro”, recorda Ana Maria Ribeiro, sócia-gerente da empresa.

“Então, José Saramago agradeceu-me pelo esforço sobre-humano que fizemos”, lembra ainda Ana Maria Ribeiro, com a naturalidade de quem se habituou a ter personagens célebres no pavilhão da tipografia, à espera de ver sair as primeiras provas das suas novas obras. “Álvaro Cunhal (sob o pseudónimo Manuel Tiago), Mia Couto, Ondjaki, Marcelo Rebelo de Sousa, Adriano Moreira, Freitas do Amaral ou Daniel Sampaio, entre outros”, tiveram nas bancas livros impressos na Lousanense. Porém, com a reestruturação do mercado editorial nos últimos anos – devido ao surgimento do grupo Leya (que absorveu, por exemplo, a Caminho, que editava José Saramago) –, a empresa beirã redirecionou-se para a impressão de livros técnicos e manuais, trabalhando com o grupo Lidel e com a Escolar Editora, que exporta para Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Ana (esq.) e Filipa Torres (centro) já partilham a gestão da empresa com a mãe, Ana Maria Ribeiro (Fernando Fontes/Global Imagens)

Ana (esq.) e Filipa Torres (centro) já partilham a gestão da empresa com a mãe, Ana Maria Ribeiro
(Foto: Fernando Fontes/Global Imagens)

Na verdade, a Tipografia Lousanense não faz só isso. Faz revistas, brochuras, tem-se especializado na impressão digital e vai-se aventurando no design gráfico. “Quem antes olhava para nós pensava só no objeto-livro, mas acho que estamos a conseguir passar a imagem de que temos pessoas e máquinas capazes de fazer mais coisas”, aponta Ana Torres, uma das filhas de Ana Maria Ribeiro. Essa é a prova da evolução de uma empresa que não parou de se reinventar, desde que nasceu, em 1885. E que esteve quase sempre nas mãos da mesma família.

Em finais do século XIX, Júlio Ribeiro dos Santos, comprou a tipografia aos fundadores Anibal Pippa e Augusto Veiga. E garantiu-lhe o fôlego e a descendência necessários para que ela “desse à estampa” uma história centenária. Ribeiro dos Santos, bisavô de Ana Maria Ribeiro, era um ilustre político republicano do início do século XX. Fundador dos periódicos “O Futuro” e “O Commercio da Louzã”, fez da impressão de jornais o primeiro mercado da Lousanense.

Depois, deu-se a evolução, sob o mando dos descendentes: Hortênsio Ribeiro dos Santos, Júlio Ramos Ribeiro dos Santos e Ana Maria Ribeiro. “O meu avô trabalhava no Instituto de Medicina Legal, em Coimbra. Como conhecia muitos médicos e professores de Direito, começou a trazer os seus livros e manuais para fazer cá. O meu pai continuou a trabalhar nesse segmento. E eu assim faço, tentando ao mesmo tempo diversificar os produtos”, descreve a sócia-gerente da empresa.

É evidente: esta é uma história familiar. Mas escrita, também, no feminino. “A minha bisavó é que ficava à frente da tipografia e imprimia quando o meu bisavô não estava. Com o meu avô a trabalhar em Coimbra, também era a minha avó que geria tudo. E a minha mãe sempre trabalhou cá a par com o meu pai”, elenca Ana Maria Ribeiro. Essa terá sido uma das chaves para que a Tipografia Lousanense sobrevivesse até hoje. “O mais importante foi a capacidade de delegar nos descendentes. Isso e a grande proximidade entre nós, os clientes, a banca (quando foi preciso financiamento para investir), e toda a população local (que se preocupou quando passámos por fases mais complicadas)”, completa.

Graças a isso, a tipografia já está a entrar na quinta geração da família: Filipa Torres e Ana Torres, as filhas que Ana Maria Ribeiro não se cansa de elogiar pela ajuda que deram desde que a empresa passou por uma complexa reestruturação em 2009. “Nós sempre fomos criadas aqui dentro, vínhamos para cá com as amigas, brincar ou ajudar”, lembra Filipa, assegurando que a integração ali foi tão natural que “nunca houve entraves às ideias novas” que trouxeram.

Agora, Ana Torres já está a planear as comemorações dos 130 anos da Tipografia Lousanense, com a definição de uma “nova imagem” da empresa. E a mãe acha mesmo que o futuro está assegurado: “Temos todas as capacidades, descendência garantida, e colaboradores e clientes muito valiosos. São todas as condições que precisamos para mais 130 anos”.

Rui Marques Simões

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