Guerra e refugiados na Jugoslávia de 1995

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU:  Combatia-se na Bósnia desde 1992, em mais uma das guerras travadas no espaço da ex-Jugoslávia. Estado federal e multiétnico, a Jugoslávia ia morrendo à medida que combatiam entre si e morriam milhares de pessoas das diferentes comunidades, reféns da História. Desde o início até 1999, o DN esteve em reportagem no terreno. Hoje, textos de Carlos Santos Pereira descrevendo a atmosfera vivida com o início dos ataques da NATO e suas consequências

Os bombardeamentos da NATO tinham começado no final de agosto e iam prolongar–se até 20 de setembro de 1995, levando os sérvios a negociar os Acordos de Dayton e à presença no terreno de uma força de manutenção de paz na Bósnia, a partir de dezembro. Aqui, os croatas e muçulmanos tinham passado à ofensiva e na Croácia a república sérvia da Krajina estava sob ataque. O curso da guerra mudava em todas as frentes; com isto, a multiplicação de refugiados.

Após a morte, em 1980, de Josip Broz Tito (na foto, em 1977), depressa as reivindicações independentistas desembocam num conflito aberto entre Belgrado e as várias repúblicas. O início da desagregação começa com um referendo na Eslovénia (1990) e a “guerra dos dez dias”, em 1991, seguindo-se no mesmo ano a da independência da Croácia, só terminada em meados de 1995, e que coincidiu em parte com o conflito na Bósnia. Em 1998, é a vez do Kosovo. A Jugoslávia deixara de existir.

Após a morte, em 1980, de Josip Broz Tito (na foto, em 1977), depressa as reivindicações independentistas desembocam num conflito aberto entre Belgrado e as várias repúblicas. O início da desagregação começa com um referendo na Eslovénia (1990) e a “guerra dos dez dias”, em 1991, seguindo-se no mesmo ano a da independência da Croácia, só terminada em meados de 1995, e que coincidiu em parte com o conflito na Bósnia. Em 1998, é a vez do Kosovo. A Jugoslávia deixara de existir.

“Na noite de 4 para 5 de Agosto, tudo se precipitou. Um ataque de surpresa dos muçulmanos – coordenado com bombardeamentos croatas do lado ocidental – lançou o pânico. Às quatro da manhã, as comunicações ficaram inoperacionais. Depois, foi a ordem de evacuação e o caos da retirada para Donij Lapac, a caminho da fronteira com a Bósnia”, lia-se no texto “A saga dos Mrakovic” do enviado especial do DN, Carlos Santos Pereira, a 3 de setembro. As palavras são de Dusan Mrakovic, sérvio proveniente da Krajina.

Mrakovic, ali residente desde finais de 1991, “em plena guerra da Croácia, não hesitou (…) em aceitar quando lhe propuseram uma troca de casas com uma família croata de Hrtovici”. Durante mais de três anos, os Mrakovic – Dusan, a mulher e as duas filhas – convenceram-se de que tinham estabilizado. Mas, “em Junho deste ano [1995], tudo mudou, uma vez mais. A polícia sérvia começou a recrutar todos os homens da Krajina e a mandá-los de novo para as frentes. ‘Bastava a polícia reparar numa matrícula de Knin e mandava parar o carro’, conta Dusan. (…). No dia 15 de Junho, Dusan estava já na frente da Lika (na parte central da Krajina), integrado num pequeno destacamento de 30 homens perto do aeroporto de Zeljava – uma posição avançada face ao dispositivo muçulmano na vizinha Bihac (extremo noroeste da Bósnia)”, quando começaram os combates. Poucos dias depois, “a rádio começou a dar ordens de evacuação”, conta Dusan. Evacuação “penosa”, “através da Bósnia até chegarem à Voivodina e a Hrtkovici”. Aqui, são “milhares de refugiados da Krajina que deambulam pela área, comendo e dormindo quando e onde calha. Como irão refazer a sua vida – não fazem ideia”.

A memória dos conflitos do passado perpassa pelas palavras de refugiados ou figuras políticas, como o dirigente do Partido Radical Sérvio, Vojislav Seselj, hoje sob custódia do TPI para a ex-Jugoslávia, numa entrevista em Belgrado ao enviado do DN, publicada a 29 de agosto com o título “A Sérvia vive dominada pelo medo”. Seselj recorda que “os Sérvios estiveram 500 anos sob ocupação dos Turcos e acabaram por se libertar” e tem palavras muitas duras para o então presidente Slobodan Milosevic, que acusa de transformar a “Sérvia num Estado policial”.

Colaborador frequente do DN na década de 90, Carlos Santos Pereira tem um longo percurso jornalístico, tendo trabalhado no semanário Expresso, no diário Público e na Rádio e Televisão de Portugal. A sua área de especialização é a política internacional, escrevendo sobre política da época da URSS aos tempos da Perestroika ( tendo residido algum tempo naquele país), e da Jugoslávia. Dedicou particular atenção ao período que culminou com a sua desagregação, tendo escrito sobre esta época os livros Da Jugoslávia à Jugoslávia - Os Balcãs e a Nova Ordem Europeia e Os Novos Muros da Europa. Nasceu em 1950 e licenciou-se em História. É hoje professor universitário.

Colaborador frequente do DN na década de 90, Carlos Santos Pereira tem um longo percurso jornalístico, tendo trabalhado no semanário Expresso, no diário Público e na Rádio e Televisão de Portugal. A sua área de especialização é a política internacional, escrevendo sobre política da época da URSS aos tempos da Perestroika ( tendo residido algum tempo naquele país), e da Jugoslávia. Dedicou particular atenção ao período que culminou com a sua desagregação, tendo escrito sobre esta época os livros Da Jugoslávia à Jugoslávia – Os Balcãs e a Nova Ordem Europeia e Os Novos Muros da Europa. Nasceu em 1950 e licenciou-se em História. É hoje professor universitário.

No dia seguinte, ainda em Belgrado, Santos Pereira recolhe declarações do líder dos sérvios da Bósnia, Radovan Karadzic, em que este se diz pronto a aceitar o plano de partilha da Bósnia proposto pelos EUA, desde que a “parte sérvia” obtenha “o controlo absoluto da Bósnia oriental”. O texto principiava, contudo, com uma declaração “a título oficial, privado ou qualquer outro” de um representante “da autoproclamada República Sérvia da Bósnia em Belgrado” de que não fora das posições destes que partiram os disparos de morteiros que, a 28 de agosto, atingiram o mercado de Sarajevo, matando 43 pessoas. É após este ataque que tem início a operação aérea da NATO. Salienta-se ainda intensa movimentação diplomática em Belgrado, com a presença, entre outros, de um “senador discreto”, o democrata Bob Kerrey, “visto a entrar para o Ministério da Defesa jugoslavo”.

Com a diplomacia na ordem do dia em Belgrado e combates na Bósnia, cujo noticiário era feito na redação pelas agências, Santos Pereira reflete nas reportagens sobre como “o drama dos refugiados (…) faz subir a tensão étnica na Voivodina”, onde os “croatas desconfiam de uma nova vaga de colonização sérvia na região”. A vaga anterior fora também de refugiados. Numa reportagem em Ruma, o jornalista recorda que este “foi o local que acolheu em 1670 as famílias sérvias fugidas às perseguições otomanas no Sul, no Kosovo, e conduzidas para aqui pelo patriarca Arsenije Cmojevic”. Após os sérvios, vieram outros. “Húngaros, rutenos (ucranianos), croatas, cincar, mercadores vindos do Sul, da Grécia e da Macedónia…” – “A Voivodina tem uma longa tradição de convivência étnica e os casamentos mistos são aqui bastante numerosos” – “O próprio clima político é bem diferente do resto da Sérvia.” Mas “católicos e ortodoxos” voltaram a olhar-se com desconfiança.

“‘Estamos a viver uma situação de nem paz nem guerra’, diz Drazen, um reformado de Ruma, oriundo de família mista. ‘Ninguém sabe o que vai acontecer.’” – E no meio de tudo isto, o destino da “mulher sem nome” que “vagueia pelas ruas de Ruma”. “Está completamente só. Não tem qualquer família nem amigos (…). À noite dão-lhe um prato de comida e um canto para encostar a cabeça no pavilhão desportivo de Ruma (…).” A solidão desta mulher de 63 anos é, de algum modo, reflexo da “tragédia deste povo”, escreve o enviado do DN citando uma frase da sérvia que lhe agarra o “braço com força”, quando este começa a despedir-se.

ABEL COELHO DE MORAIS

Existem 3 comentários

  1. Dr. Feelgood

    ORGIA GENOCIDA NA SÉRVIA (VALE DE PRESEVO) ENTRE SÉRVIOS E ALBANESES, NO KOSOVO ENTRE SÉRVIOS E ALBANESES, NA BÓSNIA ENTRE SÉRVIOS, MONTENEGRINOS, MUÇULMANOS E CROATAS, NA CROÁCIA ENTRE SÉRVIOS, MONTENEGRINOS, BÓSNIOS MUÇULMANOS E CROATAS, NA ESLOVÉNIA ENTRE SÉRVIOS E ESLOVENOS E NA MACEDÓNIA ENTRE MACEDÓNIOS E ALBANESES!!!

    1. F. Dupuy

      Não fale do que não sabe. Existiram massacres de todas as partes, inclusivamente da NATO!!
      … sim porque as 72 crianças e bebes que morreram no bombardeamento da NATO sobre uma escola e infantário no centro de Belgrado, certamente não mereciam ter morrido como morreram.

      Há que conhecer bem a causa e os factos reais para se falar destes assuntos. Não estou de forma nenhuma a reduzir a gravidade dos actos praticados pelos povos ex-jugoslavos, apenas a dizer que o que se lê por aí nem sempre é totalmente verdade.

  2. F. Dupuy

    ORGIA COM BOMBARDEAMENTOS DA NATO NA SÉRVIA E MONTENEGRO E NA REPÚBICA SÉRVIA DA BÓSNIA!!!

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