Teatro Nacional D. Maria II: Nem o incêndio calou o espectáculo

O graffiter Alexandre Farto [Vhils] teve autorização da direção-geral do património para “esburacar” as paredes do Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, e ali fazer aparecer os rostos de quatro grandes atrizes portuguesas. O projeto será desvendado ao público amanhã e é uma ousadia. Mas Carlos Vargas, do conselho de administração do teatro, assume o risco com um sorriso. “Este é um teatro contemporâneo”, diz. Mesmo se tem a responsabilidade de preservar a memória e de cumprir o chamado “serviço público”, tem também o dever de trabalhar para o presente – com os artistas e os públicos do seu tempo – e para o futuro: “Que teatro nacional vamos ser daqui a 15 ou 20 anos? Pensamos muito nisto. Temos que trabalhar com um projeto a longo prazo.”

fachada do teatro no Rossio, em 1931 (arquivo DN)

fachada do teatro no Rossio, em 1931 (arquivo DN)

Foi com o espetáculo ‘O Magriço e os Doze de Inglaterra’, drama histórico em cinco atos a partir do texto de Jacinto Aguiar de Loureiro, que o Teatro Nacional abriu as portas a 13 de abril de 1846, no âmbito das comemorações do 27º aniversário da rainha Maria II. Mas a história do teatro começou antes, começou com a nomeação, em 1836, do escritor e político Almeida Garrett como Inspector-geral dos Teatros e Espetáculos Nacionais, responsável pela apresentação “sem perda de tempo, um plano para a fundação e organização de um teatro nacional, o qual, sendo uma escola de bom gosto, contribua para a civilização e aperfeiçoamento da nação portuguesa”, segundo se lia na portaria-régia. Para o governante, Passos Manuel, era urgente a criação de um repertório nacional, que contribuísse para a construção de uma identidade nacional e para a defesa da língua portuguesa.

Os primeiros passos do Teatro Nacional foram dados no velhinho Teatro da Rua dos Condes. Enquanto isso, e depois de analisados vários projetos, foi escolhido o do arquiteto italiano Fortunato Lodi. A construção iniciou-se em 1943 e três anos depois o Teatro Nacional D. Maria II foi finalmente inaugurado, no Rossio, o coração da cidade. A gestão era assegurada por sociedades de artistas que se apresentavam a concurso. Em 1929, a companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro instala-se na Praça D. Pedro IV. Numa primeira fase, até meados dos anos 40, a programação dá mais destaque aos autores portugueses, mas logo começam a chegar os estrangeiros – Lorca, Valle Inclán, Tennesse Williams, Arthur Miller. Sempre dentro dos limites rígidos impostos pela censura, claro.

O ator José Raposto em 'Tropa Fandanga', espetáculo produzido pelo TNDM II em fevereiro deste ano

O ator José Raposto em ‘Tropa Fandanga’, espetáculo produzido pelo TNDM II em fevereiro deste ano

Às 4:00 de 3 de dezembro de 1964, a capital acordou com um terrível incêndio que destruiu grande parte do edifício do Rossio. “Miríadades de faúlas persistiam em elevar-se da gigantesca fogueira e continuavam a cair em cerrada chuva sobre o pavimento do Rossio”, noticiava o DN que, na primeira página, invocava a “maldição de Macbeth”, o espetáculo que estava então em cena.

O edifício foi completamente reconstruído, imitando o estilo original, tendo reaberto em 1978. Entretanto tinha havido uma revolução, a sociedade portuguesa vivia em grandes mudanças e o teatro não foi exceção. Sucederam-se vários diretores, procurando contornar a crise de público que no final dos anos 80 parecia instalada em todo o teatro português (porque a crise financeira, essa, sempre existiu) e tentando responder da melhor forma à eterna questão: para que serve um teatro nacional?

“Os teatros nacionais mais do que instituições devem ser comunidades”, afirma hoje Carlos Vargas. “O teatro nacional ganha expressão se for capaz de disponibilizar a sua visibilidade – estando no centro da cidade e tendo um poder simbólico – à comunidade. Aquilo que caracteriza a nossa contemporaneidade é a multiplicidade de discursos e de vozes. O teatro nacional congrega uma comunidade de público e de artistas e dá-lhes o palco”, defende.

Hoje, o Teatro Nacional D. Maria II é uma Entidade Pública Empresarial (E.P.E.). “Sendo uma empresa tem de haver uma negociação permanente entre o gestor profissional e o programador especializado [o atual diretor artístico é João Mota] e isso pode ser muito benéfico”, considera o administrador. No ano passado, passaram por ali quase 58 mil espetadores, que participaram nas várias atividades programadas, não só espetáculos como sessões de leituras, visitas, workshops, exposições. Apesar dos constrangimentos orçamentais, o TNDM II persegue o seu objetivo ambicioso: “O teatro nacional tem a obrigação de garantir a oferta do cânone em condições que são sempre excecionais(por exemplo, dar condições à Cornucópia para vir aqui fazer o ‘Pílades’), mas também dar condições à comunidade para trabalhar aqui (como faz a Madalena Victorino, que tem um projeto connosco) e ir ainda além disso. Temos de ser uma imensa comunidade de portas abertas, uma plataforma giratória. Esse é o grande desafio.”

Sílvia Freches

Sem comentários

  1. Humberto Lopes

    Caros Senhores , sou leitor do vosso jornal em papel e admirador de há muitos anos dos vossos ESPECIAIS que as vou guardando sempre que saem em livro ou como há anos atrás colecionando fascículos. Vem isto a propósito de vos felicitar, pela interessantíssima publicação dos 150 ANOS, continuarei a comprar o jornal e a guardar o recorte das publicações , agora só as Reportagens, e sempre que posso copiar para o meu PC, estas publicações. Para quando um livro que enriqueça ainda mais este vosso projeto ?
    As maiores felicidades

Deixe o seu comentário