EPAL: A empresa que mata a sede à Grande Lisboa

Com os aquedutos como braços, a EPAL tenta há 146 anos que não falte água à Grande Lisboa. Primeiro começou como CAL, hoje está de pedra e cal como uma empresa de referência a nível europeu

Aqueduto das Águas Livres foi construído durante o reinado de D. João V, com origem na nascente das Águas Livres, em Belas, Sintra, e foi sendo progressivamente reforçado e ampliado ao longo do século XIX

Aqueduto das Águas Livres foi construído durante o reinado de D. João V, com origem na nascente das Águas Livres, em Belas, Sintra, e foi sendo progressivamente reforçado e ampliado ao longo do século XIX

Os mais velhos ainda a tratam por Companhia das Águas, mas abril trouxe-lhe um nome em sigla: EPAL (Empresa Pública de Águas Livres, como o aqueduto). A empresa que tem feito “companhia” aos lisboetas enfrenta desde 1868 um grande desafio: matar a sede à capital. E a água, já se sabe, não se nega a ninguém.

Dos 146 anos da EPAL, Teresa Sousa Vivas – que hoje trabalha no gabinete do secretário-geral – acompanhou a empresa nos últimos 44, destacando a “evolução tecnológica” e a “qualidade da água” como os grandes responsáveis pelo sucesso da companhia. Além, claro, do “profissionalismo dos seus trabalhadores”. Foi a eles, aliás, que foi pedido sacrifícios quando a empresa foi forçada a crescer. Teresa Sousa Vivas conta que, em 1987, “quando a EPAL fez um grande esforço para construir o subsistema de Castelo de Bode, foi-nos pedida compreensão para que tivéssemos aumentos salariais abaixo da média do País. Sempre compreendemos e nunca nos falhou o ordenado”.
A EPAL tornou-se sucessora da CAL (Companhia das Águas de Lisboa) quando terminou o contrato de concessão – na mão de empresários como Queiroz Pereira – a 30 de outubro de 1974. O fim do contrato fez com que a EPAL não necessitasse de ser nacionalizada, como aconteceu com diversas empresas no anos seguintes.

Porém, Teresa Sousa Vivas recorda “momentos conturbados” da fase que se seguiu ao 25 de abril de 1974. “Fizeram-se saneamentos da empresa, sem olhar à competência das pessoas, só porque era desta ou daquela ideologia”, lembra. Hoje, a empresa é dada como um exemplo a nível tecnológico, acima de tudo pela eficiência, espelhada no sistema de redução de perdas (de água), que é apontado como referência no País e a nível europeu.

Foi a 16 de junho de 1987 e ampliado em 1996 que foi inaugurado a subsistema do Castelo de Bode para captação de água pela EPAL. 

Foi a 16 de junho de 1987 e ampliado em 1996 que foi inaugurado a subsistema do Castelo de Bode para captação de água pela EPAL.

Dar água aos lisboetas é mais difícil do que parece. A “1ª Companhia” de água de Lisboa – que venceu o concurso em 1855 – tinha como estratega um dos maiores especialistas em recursos hídricos da época, o engenheiro francês Louis-Charles Mary. O engenheiro parisiense tinha o objetivo de aumentar o volume de água a chegar a Lisboa, abastecendo todos os bairros de Lisboa. Porém, o Governo acabaria por rescindir unilateralmente o contrato porque os volumes de água que chegavam a Lisboa não eram suficientes para as necessidades da cidade.

No ano em que é fundado o DN, 1864, essa primeira companhia chega ao fim e inicia-se, até 1968 um projeto de abastecimento de água, que passava pela captação nas nascentes do rio Alviela. Surge assim a nova empresa com o nome de Companhia das Águas de Lisboa. As águas do Alviela (zona de Olhos de Água) acabam por chegar a Lisboa através de um aqueduto com mais 114 quilómetros.

Durante o Estado Novo as mudanças seriam operadas pelo ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, que aposta em captar água do Tejo para a cidade. Depois, com a transição para a democracia, veio então a EPAL, que passou a ser uma empresa pública, em prol da prática que existia até então de concessão a privados.

Cinco anos depois, a EPAL seria mesmo transformada numa sociedade anónima de capitais públicos. No ano seguinte, em 1993, é criado o Grupo Águas de Portugal, onde a EPAL é integrada e onde permanece até hoje.
Nestes 146 anos a EPAL foi criando a sua própria história e ainda herdou património antes da sua fundação. Ao ponto de hoje ter uma secção museológica que incluiu importantes obras arquitetónicas. A mais conhecida é o Aqueduto das Águas Livres, construído durante o reinado de D.João V (fundado em 1748) e que só deixou de funcionar como sistema de abastecimento nos anos 60. Inclui ainda o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras (1834), o Reservatório Patriarcal (destinado à distribuição da Baixa de Lisboa e fundado no mesmo ano DN) e ainda a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos (1880).

Com tanto passado, para o futuro da EPAL, Teresa Sousa Vivas deseja que não haja “influência política, que, quando acontece, só prejudica a gestão das empresas”. Sobre uma eventual privatização da empresa, a histórica funcionária não quer falar. “Não tenho nada contra os privados, mas a água é um bem tão essencial à vida das pessoas que não se deve correr qualquer risco que ele não seja acessível às pessoas. E por vezes a quem tem na mira o lucro, pode não ter em conta a qualidade”, referiu.

Rui Pedro Antunes

Sem comentários

  1. Olisipone

    A diferença, é que no tempo do Aqueduto, as águas eram “livres” porque jorravam gratuitamente dos fontanários… Hoje, a água é paga, é um negócio e um monopólio, e os fontanários (como quase tudo o resto) estão SÊCOS!

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