Elogio de Salvador Dalí às xícaras portuguesas

O DIA EM QUE O DN CONTOU: O artista recebe o jornalista em sua casa em Portlligat, na Catalunha, e, por entre opiniões sobre a pintura, fala sobretudo de Portugal, desde a passagem por Lisboa a caminho da América para fugir à Segunda Guerra Mundial até ao carácter distintivo da pintura de Velázquez, que se devia, diz, às origens portuguesas. Na entrevista, publicada em novembro de 1960, mostra ainda conhecer o destino das suas obras, ao lembrar-se do Cavaleiro no Museu do Caramulo

 

Um pequeno porto espanhol, numa baía protegida da fúria do Mediterrâneo por uma ilhota, foi durante meio século o refúgio de Salvador Dalí e de Gala, sua mulher. Apenas em 1982, quando morreu Gala, o pintor catalão deixou de vez Portlligat. De início simples cabana de pescador, a casa foi sendo acrescentada pelo pintor surrealista, que adorava acordar com o sol a entrar pelas janelas viradas para Oriente. Situada a duas horas de carro de Barcelona, a casa de Dalí em Portlligat está aberta ao público. Dalí morreu em 1989, na mesma Figueres onde nasceu, também na província de Girona.

SAIBA MAIS: Um pequeno porto espanhol, numa baía protegida da fúria do Mediterrâneo por uma ilhota, foi durante meio século o refúgio de Salvador Dalí e de Gala, sua mulher. Apenas em 1982, quando morreu Gala, o pintor catalão deixou de vez Portlligat. De início simples cabana de pescador, a casa foi sendo acrescentada pelo pintor surrealista, que adorava acordar com o sol a entrar pelas janelas viradas para Oriente. Situada a duas horas de carro de Barcelona, a casa de Dalí em Portlligat está aberta ao público. Dalí morreu em 1989, na mesma Figueres onde nasceu, também na província de Girona.

O “que é pintura?”, pergunta o jornalista. “Pintura é o que sai pela ponta do pincel depois de ter entrado pelos olhos”, dispara Salvador Dalí. Para logo acrescentar: “Como em Velázquez.” E muito se falará a seguir do grande pintor do século XVII, autor de As Meninas, mas também de um sem-fim de retratos dos Áustrias espanhóis. “Velázquez trouxe para a pintura espanhola algo diferente. Ele trouxe uma humidade. A humidade atlântica. A sua mãe era portuguesa.” Quirino Teixeira atreve-se a corrigir, “perdão, o seu pai. Do Porto”. O artista catalão prossegue, entusiasmado: “Ah! Na verdade, na pintura de Velázquez existe algo que não aparece em toda a pintura espanhola: a saudade, a melancolia. O português possui o dom de ver, de observar as coisas de uma maneira atlântica, concentrada. Muito importante, sim, o facto de Velázquez ser filho de português.”

A conversa decorre em Portlligat, em 1960, a norte de Barcelona, na cabana de pescador que desde 1930 o pintor foi melhorando, fazendo dela o refúgio que só deixará quando morrer Gala, a mulher e musa. Conta o correspondente do DN que a assistir à entrevista está Norman Narotzky, artista nova-iorquino que vivia em Espanha. Nenhuma referência a Gala, aliás, Elena Diakonova, que conheceu o pintor catalão em Paris e vivia com ele desde 1929. Antes, Gala, que é dez anos mais velha, fora mulher de Paul Éluard, poeta francês e surrealista como Dalí.
Portugal está presente em toda a conversa. E não só por causa das raízes desse Velázquez que Dalí admira ao ponto de lhe ter copiado o bigode renascentista. O pintor passou pelo País durante a Segunda Guerra Mundial e não guarda boa memória. “Não gostei de estar em Portugal daquele modo. Hitler não nos deixava tranquilos”, responde a Quirino Teixeira, referindo-se à passagem por Lisboa a caminho da segurança na América. Contudo, um pormenor não é referido. Foi Aristides de Sousa Mendes, cônsul português em Bordéus, quem deu os vistos a Dalí e a Gala que lhes permitiu atravessar Espanha. Na época, o pintor não estava nas boas graças de Francisco Franco, apesar de anos mais tarde, quando regressou à Catalunha, ter sido criticado pelo que parecia ser o aval à ditadura. E autodescrever-se como anarquista mas aceitar, um dia, um título de nobreza das mãos do Rei Juan Carlos até nem parece bizarro num ícone do surrealismo.
Do povo português, Dalí aprecia ser “sempre comedido, sério, honesto”. E quando Quirino

É com uma bolsa do Estado espanhol que o lisboeta Quirino Teixeira se instala em 1958 em Madrid, para estudar na Escola Superior de Jornalismo. Acabará por mudar-se para Barcelona e é nessa altura que convive com nomes sonantes, como o escritor Camilo José Cela ou os artistas Salvador Dali, Juan Miró e Antoni Tàpies. Já colaborador do DN, a vida leva-o à Bélgica e à Holanda, e neste segundo país, onde vive uma década, trabalha como correspondente para vários jornais. Depois de passagens pela TAP, que o faz regressar a Lisboa, e pela delegação do turismo de Portugal nos Estados Unidos, muda-se para o Brasil. Dessa época nasce o livro Na Bahia com Jorge Amado.

É com uma bolsa do Estado espanhol que o lisboeta Quirino Teixeira se instala em 1958 em Madrid, para estudar na Escola Superior de Jornalismo. Acabará por mudar-se para Barcelona e é nessa altura que convive com nomes sonantes, como o escritor Camilo José Cela ou os artistas Salvador Dali, Juan Miró e Antoni Tàpies. Já colaborador do DN, a vida leva-o à Bélgica e à Holanda, e neste segundo país, onde vive uma década, trabalha como correspondente para vários jornais. Depois de passagens pela TAP, que o faz regressar a Lisboa, e pela delegação do turismo de Portugal nos Estados Unidos, muda-se para o Brasil. Dessa época nasce o livro Na Bahia com Jorge Amado.

Teixeira lhe cita um poema em que fala de “uma taça portuguesa qualquer”, Dalí responde que gosta muito das xícaras portuguesas, que “durante muito tempo as coisas, as pequenas coisas portuguesas, tiveram para mim grande importância”. Desafiado a explicar-se, prossegue :“As xícaras portuguesas são extraordinárias. E quando uma xícara não é portuguesa e só a asa, essa, sim, é portuguesa?! Sensacional! O cúmulo! É extraordinário isso…” O jornalista procura retomar o fio à meada dizendo que no Museu do Caramulo existe um desenho, “um cavalo”. Desta vez é o artista a corrigir: “Não. Um cavaleiro. Lembro-me muito bem.” Trata-se do quadro Cavaleiro Romano na Ibéria.

Dalí viveu mais de 50 anos com Gala, que lhe serviria de modelo em múltiplos quadros. Nascida na Rússia e de verdadeiro nome Elena Diakonova, Gala foi casada antes com Paul Éluard, poeta surrealista.

Dalí viveu mais de 50 anos com Gala, que lhe serviria de modelo em múltiplos quadros. Nascida na Rússia e de verdadeiro nome Elena Diakonova, Gala foi casada antes com Paul Éluard, poeta surrealista.

E “qual é o artista português que conhece?”, questiona o jornalista, “Nenhum”, é a resposta. Quirino Teixeira, surpreendido, lança o nome de Maria Helena Vieira da Silva, mas Dalí devolve “Quem é?” E o jornalista insiste, referindo que a pintora vive em Paris, tem quadros no Museu de Arte Moderna, que é abstrata. “Ah! Sim, abstrata. Sim, um abstrato retilíneo, digamos. Já me lembro, sim. É portuguesa, claro. Muito boa pintora.”

Na entrevista, o pintor fala também com carinho dos Estados Unidos (“Seria muito difícil que eu deixasse de ir, cada ano, três ou quatro meses à América. Sinto-me bem ali”), do entusiasmo com a corrida ao espaço (“Os foguetes interplanetários estão levando cada vez mais o homem no caminho de Deus”) e da falta de humildade dos artistas (“Quase todos os pintores atuais se creem génios”).
Naquele dia cinzento, “chovia” em Portlligat, conta o jornalista, Dalí começara a pintar um quadro. Quirino Teixeira pergunta se pode vê-lo. A resposta é não. “Mistério…”, insiste com delicadeza o entrevistador. “Mais tarde, quando o quadro já esteja adiantado, volte aqui que eu deixo-o ver. Mas em segredo. Nada para os jornais”, cede o pintor. “Muito obrigado”, diz o homem do DN. Não seria a última vez que se cruzaria com Dalí.

 

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Sem comentários

  1. Pedro Teixeira

    O senhor Quirino Teixeira era o meu pai, e queria saber is a maneira de comprar uma copia deste articlo? Faz favor de desculpar a minha ortographia, ja a mais de 30 anos que nao escrivo Portugues. Eu vivo agora no Estados Unidos.
    Muito obrigado por a sua ajuda.
    Pedro Teixeira

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