A tragédia provocada pelas cheias de 1967

O DIA EM QUE O DN CONTOU: Nada fazia prever a tragédia que rondava a Grande Lisboa e os seus arredores quando, naquele sábado 25 de novembro de 1967, a chuva começou a cair por volta das 19 horas. Tudo indicava que seria mais uma noite de mau tempo, normal, tendo em conta a estação do ano. Mas a realidade seria diferente. A precipitação intensa e concentrada provocou inundações, destruição, caos, morte. Catástrofes que jornalistas do DN puderam comprovar nos locais

 

A chuva intensa e constante combinada com a subida da maré foram algumas das razões para o desastre. O nível da água aumentou de tal modo que cobriu passagens de nível.

A chuva intensa e constante combinada com a subida da maré foram algumas das razões para o desastre. O nível da água aumentou de tal modo que cobriu passagens de nível.

No dia 26 de novembro de 1967, toda a primeira página do Diário de Notícias era um retrato da tragédia que se vivia na região da Grande Lisboa. “Dilúvio de catástrofe” era o título que abarcava toda a capa do DN, que, às 12 horas desse dia, colocou nas bancas a sua terceira tiragem. As reportagens dão conta de como a chuva intensa, acompanhada de vento e concentrada provocou a tragédia, mas, ainda que de forma subtil – a censura estava no seu pleno -, denunciam também a situação em que viviam as populações mais afetadas pelo temporal que, segundo os especialistas, só deve ocorrer de 500 em 500 anos. Naquelas 12 horas teriam morrido mais de 700 pessoas e mais de mil ficaram desalojadas.
“Aldeia-mártir. Quintas/Oitenta Mortos” é o título da história que o DN põe na sua primeira página nesse triste domingo, 26 de novembro. Quintas fica em Castanheira do Ribatejo e, segundo o jornalista, não havia “palavras, nem imagens, que descrevam esta autêntica catástrofe. Vi corpos desfilarem em macas, corpos transportados em escadas. Vi rostos com a máscara do pavor, homens e mulheres, crianças e jovens. Vi famílias inteiras que marcaram encontro com a morte.”

E o jornalista explica como Quintas era um lugar de “gente pobre, de gente que na terra ganhava o seu pão”. Agora, é um cemitério de lama.

Ao longo de vários dias, os jornalistas do DN foram presença constante nos locais onde a tragédia aconteceu. Nas várias zonas de Lisboa, em Odivelas, Loures, Alenquer, Vila Franca de Xira, Alhandra... Traziam informação do terreno que, depois, transmitiam aos leitores através dos textos que escreviam e nos quais as suas assinaturas não constavam. Um deles afirma que, na noite de 25 para 26 de novembro, “os telefones na redação não paravam: eram pessoas a pedir informações do que estava a acontecer”. A solidariedade do DN não ficou por aqui: foi aberta uma subscrição de apoio às vítimas das cheias. Muitos - centenas - contribuíram para os milhares que perderam tudo.

Ao longo de vários dias, os jornalistas do DN foram presença constante nos locais onde a tragédia aconteceu. Nas várias zonas de Lisboa, em Odivelas, Loures, Alenquer, Vila Franca de Xira, Alhandra… Traziam informação do terreno que, depois, transmitiam aos leitores através dos textos que escreviam e nos quais as suas assinaturas não constavam. Um deles afirma que, na noite de 25 para 26 de novembro, “os telefones na redação não paravam: eram pessoas a pedir informações do que estava a acontecer”. A solidariedade do DN não ficou por aqui: foi aberta uma subscrição de apoio às vítimas das cheias. Muitos – centenas – contribuíram para os milhares que perderam tudo.

“Todos gritavam mas ninguém nos podia valer”, conta um dos cerca de 40 sobreviventes do lugar que a água surpreendeu de madrugada.
“Tudo começou ontem à noite. Chovia sempre mais e mais. Não havia nada que desse vazão a tanta água. E instalou-se o pânico. O imprevisto tolhera muita gente. E começou a tragédia”, afirma um dos textos do DN que dá conta como as chamadas telefónicas chegavam de todo o lado e a todo o lado. Aos quartéis dos bombeiros, à redação do DN. E as notícias não eram boas. “Eram comboios retidos em plena linha férrea, cheios de passageiros, bloqueados pela enxurrada. Eram casas que tinham abatido e onde se encontrava gente em perigo de vida. E troços de estradas que aluíram…”, prosseguia a narrativa do DN.

Naqueles dias, os títulos do jornal fazem lembrar listas de tragédias com os números das respetivas vítimas. Aqui e além surge uma boa notícia, um milagre, como as duas crianças que, num prédio da Estrada do Calhariz de Benfica, foram “salvas pelo postigo da porta”. Ou então, as “centenas de raparigas entre os 9 e os 18 anos “que “dormiram toda a noite em suas brancas camas. Nenhuma delas deu conta do perigo que a poucos metros rugia. A ribeira ao fundo da quinta subira cerca de dez metros, o muro rebentou em alguns pontos. Acorreram os moços e toda a noite, em bicos de pés, as mestras e funcionárias percorreram as camaratas receosas de que o clamor do perigo as acordasse e pusesse em pânico.” Tal não aconteceu e, no dia seguinte, as “meninas de Odivelas” acordaram completamente ignorantes do horror que fora a noite, durante a qual centenas de pessoas perderam a vida não longe do local onde dormiam.

Em Alhandra (foto), como em outros locais, a força da água foi de tal ordem que conseguiu arrastar veículos, chapas de zinco - afinal tudo o que encontrou à sua frente - para a linha de caminho--de-ferro. Essa foi, aliás, uma das razões que levaram à paralisação dos comboios.

Em Alhandra (foto), como em outros locais, a força da água foi de tal ordem que conseguiu arrastar veículos, chapas de zinco – afinal tudo o que encontrou à sua frente – para a linha de caminho--de-ferro. Essa foi, aliás, uma das razões que levaram à paralisação dos comboios.

Tudo serviu para tentar socorrer as pessoas. Muito cedo na noite, os bombeiros perceberam que não conseguiam dar resposta a tudo sozinhos e lançaram apelo ao Exército e à Marinha. Botes de borracha – incluindo os de recreio que estavam no jardim do Campo Grande -, helicópteros, tudo foi utilizado, mas mesmo assim não chegou. Porque não bastavam transportes: eram de má construção as casas afetadas, na sua maioria eram mesmo barracas e muitas delas construídas em cima de leitos de ribeiras, o saneamento era mau ou mesmo inexistente. O Governo de então estava mais preocupado com África do que com a situação da população na dita metrópole.

Ao terceiro dia, o DN dá conta na primeira página da visita do chefe do Estado às “povoações martirizadas” e chamou-lhe “peregrinação dolorosa”. Américo Thomaz, “que tinha bem vincada no rosto a emoção”, inquiriu “a todos da tragédia que estavam a viver e procurou passar mensagens de esperança”, conta o DN, que noticia sobre o movimento de solidariedade que percorre o País, os telegramas de pesar que chegam de Governos estrangeiros e da ajuda de alguns. Londres, por exemplo, “enviou um donativo de mil libras” e de Bona [então capital da República Federal Alemã] chegaram “400 contos”.

Na edição de 1 de dezembro, Salazar e a questão africana dominavam a 1.ª página, que tinha uma nota sobre o “Regresso à normalidade” e que a subscrição que o jornal iniciara estava prestes a atingir os “6 mil contos”. Mantém-se o silêncio sobre a imensa ajuda e a disponibilidade dos estudantes universitários e suas associações (algumas ilegais) no terreno durante a catástrofe.

 

LUMENA RAPOSO

 

Existem 5 comentários

  1. JesusC

    Pois … e nem uma palavrinha sobre os Estudantes que foram dar trabalho voluntário. Claro … não foi publicado nada, porque a Censura não permitiu.

  2. Nem de propósito também será alguém que se chama M Jesus a dizer estive em Alenquer integrada num desses grupos de estudantes. A Igreja inteligentemente aproveitou essa disponibilidade. Quanto a Alenquer deixou-me naquele meio estado de bem acordada a

    Nem de propósito também será alguém que se chama M Jesus a dizer: estive em Alenquer integrada num desses grupos de estudantes. A Igreja inteligentemente aproveitou essa disponibilidade. Quanto a Alenquer deixou-me naquele meio estado de bem acordada até à letargia necessária para encarar as grandes catástrofes. Os 20 anos também ajudaram. A população estava abulica penso que mais do que tudo ajudamos aquela gente a perceber que ainda havia gente bonita e jovem que queria estar ao pé deles. O resto … é conversa

  3. JesusC

    Em Alenquer, os rapazes foram logo separados das raparigas. De entre os rapazes que estavam a limpar a margem do rio, alguns foram ajudar a desentulhar umas lojas. Aqui, logo apareceu o dono duma oficina a comandar : limpa aqui, limpa ali, atira para acolá … orientando os trabalhos que lhe interessavam, claro. As raparigas foram cair sob as ordens dumas freiras autoritárias, num hospital, hospício ou misericórdia, a lavar roupa á mão, mas disso nada sei. Em ambos os casos, os intervenientes queixaram-se da falta de civilidade dos ocasionais mandantes, talvez pouco habituados a receber ajuda de gente fina e educada, enterrada em lama até aos joelhos, mas sempre com ar de quem andava a brincar aos pobrezinhos.

  4. Joaquim Miguel V. de Sousa

    Tragedia gravada memoria com recoulha de cadáveres,animaise todaq ajuda possível aos vivos. Não e possível mais detalhe do acontecido dada as vivencias por mim passadas em Alenquer,Castanheira do Ribatejo, e Carregado,para não falar da aldeia de Castanheira. Não quero passar coisa igual em lado algum,um bem estar a todos que passaram por esta situação orrivel.

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