Prado-Cartolinas da Lousã: A fábrica mais antiga ‘dá’ papel aos cinco continentes

Tem 300 anos de história: nasceu no início do século XVIII para abastecer de papel a Universidade de Coimbra, serviu os órgãos mais importantes do País, e entretanto especializou-se em papel grosso (como a cartolina). É a Prado – Cartolinas da Lousã e exporta para todo o mundo.

 

Em julho de 1838, numa das primeiras exposições de produtos da indústria portuguesa, a Sociedade Promotora da Indústria Nacional elogiava

As imagens mais antiga das fábrica datam de finais do século XIX

As imagens mais antiga das fábrica datam de finais do século XIX

assim os espécimes que lhe tinham chegada da Fabrica de Papel da Lousã: “Apresentou três resmas de papel para o novo selo da Junta do Crédito Pública, uma para o Diário [do Governo], uma para o [jornal] Panorama, duas de papel de peso, duas de 1.ª e 2.ª qualidade branco. Estes papéis são perfeitos. E nota-se com satisfação que esta fábrica se acha em andamento de poder igualar em seus produtos o que há de bom em outros países”. Era as

sim há 176 anos. É assim hoje: a Prado – Cartolinas da Lousã (sucessora da histórica unidade lousanense) já igualou “o que há de bom em outros países”, exporta para os cinco continentes, e exibe o título de mais antiga fábrica de papel do país, em laboração contínua desde inícios do século XVIII.

A data efetiva da fundação é uma incógnita. Em finais do século XVII, já ali havia – no lugar do Penedo, nos arredores da vila da Lousã – um “engenho de papel”. E entre 1710 e 1715 (ou entre 1714 e 1716), o genovês José Maria Ottone, financiado pelo rei D. João V, terá lá instalado uma fábrica – necessária para abastecer de papel a vizinha Universidade de Coimbra. Durante séculos, foi de lá que saíram as folhas para documentos oficiais do País (como do Diário do Governo e da Junta do Crédito Pública, acima referidos). E entre 1875 e 2003 a fábrica lousanense viveu de braço dado com a congénere de Prado (Tomar), sob o nome de Companhia de Papel do Prado. Após a cisão, surgiu o nome atual, a marca que agora corre mundo: Prado – Cartolinas da Lousã.

O produto também já não é o mesmo. Agora, produz papel grosso (superior a 120 gramas por m2). Mas continua presente na vida das pessoas. “A Prado é uma marca conhecida. Está nas escolas, com as cartolinas, capas ou dossiers, nas empresas, com capas de relatórios e contas, cartões de visita, publicidade…”, enumera Cláudia Soares, responsável pelo serviço de qualidade e ambiente.
Graças a uma “boa rede de agentes”, essa presença estende-se aos cinco continentes. “Não nos limitamos a ter um mercado exclusivo. Exportamos diretamente 60% das vendas. E, indiretamente, chegamos aos 88%, porque um dos nossos grandes clientes nacionais exporta o que nos compra”, descreve Manuel Caetano Pedro, diretor da fábrica.

Atualmente, a Prado – Cartolinas da Lousã tem 127 funcionários e capacidade instalada para produzir até 25 mil toneladas de papel por ano.

Atualmente, a Prado – Cartolinas da Lousã tem 127 funcionários e capacidade instalada para produzir até 25 mil toneladas de papel por ano.

“Não ter uma dependência muito forte de um só cliente” tem ajudado a empresa a sobreviver nos últimos anos, aponta o diretor, descrevendo como contornaram perdas recentes na China conquistando novos mercados na América Latina, Oceânia e Magrebe. Contudo, esse não é o único motivo para o sucesso da Prado – Cartolinas da Lousã: “Apostámos na modernização, na qualificação das pessoas, na diversidade de produtos, na flexibilidade (de fazer o que o mercado está a pedir, sem dificuldade em inovar) e na rapidez do serviço (temos tudo em stock e em 48 horas conseguimos colocar uma palete em qualquer ponto da Europa Ocidental. E temos o fator diferenciador que é a qualidade”, diz Caetano Pedro.

É tudo isso, associado a uma forte ligação à comunidade (muitos filhos têm sucedido aos pais no lote de trabalhadores), que garante que a fábrica da Lousã não pare há cerca de 300 anos e tenha “uma capacidade instalada para produzir 22 a 25 mil toneladas de papel por ano”, insiste o diretor. É preciso “gastar muito dinheirinho” na manutenção constante das máquinas. E estar permanentemente atento ao mercado, a nível mundial: “a dimensão é essa, para quem fabrica cartolinas (e nós especializámo-nos nisso desde os anos 60, quando apareceram os grandes operadores de papel de escrita)”.

Para responder às exigências, a empresa não deixa de inovar. A última novidade é o “Prado Digital”, uma gama para impressoras digitais. “ Temos de responder aos gostos dos clientes: desenvolver produtos que se adaptam às novas máquinas de impressão, ao digital, novas cores e novas tendências”, explica Cláudia Soares. E, assim, nem temem a ameaça da crescente substituição do papel pelos dispositivos eletrónicos. “Lutamos todos os dias para que o papel dure muitos mais anos”, diz Manuel Caetano Pedro. “Pelo menos mais 300…”, remata Cláudia Soares.

 

RUI MARQUES SIMÕES

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