Farmácia Barral: O negócio dos irmãos que criaram o mais famoso creme gordo

Quem entra na farmácia Barral, na Rua Augusta, questiona-se sobre duas coisas: esta farmácia terá alguma coisa a ver com o creme gordo? A segunda é contemplar um quadro informativo e duvidar: Esta farmácia tem quase 180 anos? Dúvidas legítimas mas ambas verdades. Quase absolutas.

A farmácia Barral na Rua do Ouro, a primeira casa fundada em 1835

A farmácia Barral na Rua do Ouro, a primeira casa fundada em 1835

A marca Barral é hoje incontornável e mantém-se um ícone e um sucesso de vendas inegável. E a farmácia, que já mudou do sítio original e de mãos, dá agora nome a uma rede de 12 farmácias. No entanto, nenhuma delas pertence à família Barral ou Alves Barata, que as detiveram durante mais de 150 anos.

José Barata é o último da família a poder contar a história de um grande negócio familiar, composto por farmácias, laboratórios, produtos farmacêuticos e dispositivos nesta área. Foi ele quem vendeu a marca dos cremes Barral à farmacêutica Angelini, em 2000, o alvará, e alugou o espaço da farmácia Barral a um outro grupo farmacêutico em 2006. “O negócio era de outro ramo da família, uns primos dos meus avós, mas depois ficou com o meu avô e mais três irmãos”.

A data de fundação é 1835. Os irmãos Barral eram prestigiados professores da Escola Médica e fundaram a farmácia que na altura ficava na Rua do Ouro. Foi lá que desenvolveram um dos maiores sucessos de venda na história portuguesa: o Creme Gordo Barral. “O prédio tinha vários andares, uma parte de laboratório onde era produzido o creme. Com o sucesso do produto, passou a ser feito em laboratório à parte. E a farmácia vendia-o. O meu avô, ainda no tempo da guerra, vendia ainda dispositivos para laboratórios que ia buscar à Alemanha.”

Da farmácia na Rua do Ouro, com uma entrada imponente com duas colunas, balcões e armários de madeira, passou-se para a Rua Augusta, após a compra da farmácia Avelar nos anos 50. Quem entra lá hoje, um espaço ultramoderno com duas entradas, tem dificuldade em recordar o passado. Só uns arcos recuperados e uns potes onde antes se depositavam os produtos parecem lembrar a história.

José Barata diz que “hoje o espaço até está mais pequeno. A estrutura é similar, apenas deixámos de fazer os manipulados e a ter outros andares de apoio, estantes e armários de madeira”. Assim deixou a farmácia com as obras de 2004. O estabelecimento foi vendido em 2006.

Nos anos 50, a farmácia muda-se para a Rua Augusta. Moderniza-se em 2004

Nos anos 50, a farmácia muda-se para a Rua Augusta. Moderniza-se em 2004

Das centenas de trabalhadores, o grupo passou a algumas dezenas na farmácia, conta agora um dos sócios do grupo batizado como Rede Barral. José Carmona diz que “toda a gente conhece a farmácia em Lisboa. É uma das três mais famosas, juntamente com a Estácio e a Azevedos”.

O local, em plena Baixa, é um luxo, e por isso a azáfama matinal é enorme, entre novos clientes e alguns mais antigos. “Acredito que haja clientes que vieram da antiga, que a conheciam do tempo dos pais ou avós”. Os funcionários atuais, que são apenas cerca de metade dos de 2010, não se recordam ou têm histórias desse tempo. A única com esse registo mental estava de férias.

“Quisemos manter o nome da  marca, que é tão icónico, que liga todo um grupo. É o ponto de sustentação da rede, porque é das farmácias que mais vende nesta fase de crise”. Já a marca dos cremes foi vendida antes à Angelini.”Todos usavam este produto nos seus filhos”.

Paula Ribeiro, a responsável de relações públicas da Angelini, fala da marca que adquiriram em 2000 e que atualmente é responsável por vendas de 7,5 milhões de euros por ano, dos quais 39% são imputáveis aos cremes gordos, moldados às necessidades atuais.

Quando os dois irmãos criaram o creme gordo este destinava-se à pele seca e descamativa, aos eczemas e eritemas. O seu uso entre os nobres, ao longo de gerações, trouxe provas de tamanha eficácia que vieram banalizar o uso na prevenção de estrias na gravidez.

“Quando comprámos a marca apenas havia quatro ou cinco referências e hoje são mais de 30”, diz Paula Ribeiro. O creme gordo continua a ser quase único e irrepetível, mas “foram criadas linhas novas para hidratação. Em 2009 lançámos uma linha bebé, Para a grávida criámos um creme com óleo de amêndoas doces, porque era tão espesso que tinha dificuldade em penetrar na pele”. O creme gordo, porém, “será sempre o produto estrela”, tão afamado que quase sem publicidade se tornou num estrondoso sucesso de vendas. Uma aposta ganha que chegou das farmácias para as grandes superfícies. Delas para muitas casas portuguesas. A internacionalização, além de Angola e Moçambique, está neste momento a ser estudada.

DIANA MENDES

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