José Maria da Fonseca: O visionário que foi para Azeitão revolucionar o negócio do vinho

O nome está gravado entre os mais célebres produtores de vinho: José Maria da Fonseca. Era filho de um comerciante do Cais do Sodré, que há 180 anos decidiu atravessar o Tejo rumo à margem sul para assentar arraiais em Azeitão. Foi por ali, nas encostas da serra da Arrábida que fez história ao lançar os alicerces daquele que é hoje um dos maiores impérios vinícola nacional.

Foi em 1834 que José Maria da Fonseca fundou um dos maiores impérios vinícolas nacional

Foi em 1834 que José Maria da Fonseca fundou um dos maiores impérios vinícolas nacional

Quando chegou a Azeitão pela primeira vez, José Maria da Fonseca estaria longe de imaginar o que vinha a seguir. Encontrou uma terra onde a produção de vinho tinto já era a principal atividade económica das gentes desta freguesia de Setúbal.

Na origem da visita estava o objetivo de conhecer os terrenos que tinham sido dados como garantia de dívida ao Contrato dos Tabacos, onde constavam vários nomes conhecidos de Lisboa. A sua execução havia de traduzir uma oportunidade de negócio e um momento de viragem para a família.

Cedo revolucionou os hábitos de produção. Inspirado pelos conhecimentos matemáticos passou a plantar as vinhas deixando mais espaço entre as fileiras. Ou seja, uma organização mais generosa para permitir a entrada das mulas na terra, substituindo os braços do homem e as enxadas. Um projeto visionário, afinal, que chegou a merecer elogios em Bordéus (França), onde produtores apontavam o exemplo português como uma espécie de “revolução nos campos”.

Seguiu-se mais um passo de gigante a partir do momento em que José Maria da Fonseca avançou para a exportação em garrafas. As vendas aumentaram da noite para o dia. O país conhecia apenas a venda de vinho a granel como o único caminho para colocar o produto no estrangeiro. Chegava depois a hora de lançar novas castas e dar maior visibilidade aos seus vinhos. Como? Criando marcas específicas: Moscatel de Setúbal, Periquita ou Palmela Superior. Já com aplicação de rótulos.

Sexta e sétima geração da família lideram a José Maria da Fonseca

Sexta e sétima geração da família lideram a José Maria da Fonseca

Com o negócio de vento-em-popa ao longo de décadas, onde se inscreve o êxito alcançado no Brasil, até à crise imposta pela revolução de Gertúlio Vargas (1930), e o sucesso nos Estados Unidos, resistindo mesmo à recessão económica mundial, a família conhecia dias cinzentos em 1985. Ainda os estilhaços do abril de 1974. A crise económica que varreu Portugal obrigou à venda dos 51% que a família detinha na empresa a um sócio americano para conseguir pagar o endividamento à banca.

Com os juros pagos à cabeça a 35% o negócio não tinha pernas para andar. Quando se levantavam 5 mil euros, o banco dava apenas 3250. 150 anos depois estava oficialmente interrompida a ligação familiar à empresa, que não baixou os braços.

Já sob a presidência de António Soares Franco – cargo que mantém até hoje – os descendentes de José Maria da Fonseca haviam de comprar umas adegas e reequipar outras, regressando ao mercado. Chegaram a adquirir instalações, ganhando novo fôlego.

Até que 11 anos volvidos surge a hipótese mais desejada. O grupo britânico IDV, agora o detentor das instalações, propôs a sua venda. A família não pensou duas vezes e garante ter feito aí o grande negócio da vida, como reconhece António Soares Franco. Não é de estranhar o orgulho que depositam naquelas letras garrafais a toda a largura da fachada do edifício, à entrada de Vila Nogueira de Azeitão, a anunciar que é ali a sua casa, onde se produzem hoje mais de 30 marcas de vinho para o mundo. Com direito a museu, no centro da vila assente numa casa apalaçada, que guarda religiosamente o legado.

É o diretor de marketing e vendas, Miguel Remédio, que atesta o efeito do peso dos 180 anos de experiência nos dias hoje. “A empresa tem sabido sobreviver renovando-se, para permanecer atual no mercado”, diz, destacando a oferta que tem sido possível criar perante a concorrência desenfreada imposta pelo mercado. “Sobretudo nos últimos 15 anos tem havido grande competitividade”, precisa o mesmo representante, destacando, de resto, estar no ADN da empresa a procura incessante de novos produtos.

“Fomos nós que lançámos o vinho de mesa engarrafado e a primeira marca de vinho, como o Periquita. 175 anos depois fomos os primeiros a lançar vinho sem álcool”, recorda para sublinhar o instituto inovador, reportando-se à polémica em torno do Lancers Rose Free que desafiou as normas da União Europeia, justamente por possuir apenas meio grau de alcoolemia – para ser vinho tem de chegar aos sete – recorrendo o laboratório a um processo de mecânico que retira álcool ao vinho. “Se não fossemos uma empresa familiar, com uma bagagem de 180 anos, talvez as coisas não saíssem de uma forma tão natural”, admite Miguel Remédio.

Os resultados da mais recente aposta no enoturismo também já não passam despercebidos. Mais de 35 mil pessoas visitaram as instalações em 2013, o que permitiu uma receita de meio milhão de euros. Segundo Sofia Soares Franco, responsável por esta área, visitaram o museu pessoas de 74 países, encontrando-se os portugueses no topo da tabela. “O enoturismo é umas das nossas melhores ferramentas de marketing”, resume.

Roberto Dores

Existem 2 comentários

  1. Luiz Ferraz

    Estas viagens ao passado, com ramificações no presente, são um elixir para a Alma.
    Como alguém disse, não há nações sem memória. Por isso fomos, somos e seremos, sempre, uma grande nação.

  2. AMADEU

    ENQUANTO PORTUGAL “EXPORTA” PRODUTOS AGRÍCOLAS E VINHO, O BRASIL EXPORTA AVIÕES…..ESSE PAÍS PORTUGAL, CARECE DE UMA BURGUESIA INDUSTRIAL, MERCADO EMPREENDEDOR, DINAMISMO, POR ISSO É TÃO VULNERÁVEL A CRISES….E EXPORTA O SEU BEM MAIS PRECIOSO…SUA JUVENTUDE !!!

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