À sombra do Bocage, o Nicola atrai sobretudo turistas

Abriu as portas no século XVIII e começou por ser o Botequim do Nicola, o proprietário italiano. Logo se tornou um sucesso e espaço de tertúlia da elite lisboeta. Mas acabou por fechar algumas vezes e acolher atividades que não a restauração, como a venda de ouro e de livros. Já no século XX renasce como Nicola e com a marca do poeta setubalense que lhe tem garantido fama … até hoje.

Estabelecimento foi remodelado em 1935, o que lhe deu um ar mais moderno, estilo déco e geométrico, que ainda hoje se mantém

Estabelecimento foi remodelado em 1935, o que lhe deu um ar mais moderno, estilo déco e geométrico, que ainda hoje se mantém

“Quem é, o que faz e para onde vai”? Terá perguntado um polícia a Bocage quando o poeta saía do Café Nicola. Ao que este respondeu: “Eu sou Bocage/ venho do Nicola,/ vou p’ro outro mundo, /se dispara a pistola”.
O verso é obrigatório quando se fala no estabelecimento da praça D. Pedro IV, na baixa lisboeta, decorando, até, as paredes deste café/restaurante. E há painéis com a figura do poeta, uma estátua sua no meio da sala principal, tudo lembra Manuel Maria Barbosa du Bocage.

“Setenta por cento dos frequentadores são turistas e 60% do negócio deve-se ao Bocage, o poeta ainda continua a dar frutos. É o que nos distingue”, explica Rui Oliveira, o gerente, acrescentando: “Vêm propositadamente à procura do Café do Bocage que está divulgado em vários roteiros. Querem conhecer o espaço, as telas, pedem para tirar fotos…”.

O poeta foi um dos clientes mais emblemáticos e, pensa-se, mais assíduo, já que também por ali passaram Malhoa e Cassiano Branco, entre outros. E ainda hoje é frequentado por muitas figuras públicas, como Marcelo Rebelo de Sousa. Mas entre os 22 funcionários, um ou outro com mais de 30 anos de casa, ninguém quer falar desse património, tão pouco os proprietários, o grupo de restauração FRQB.

Chamaram ao espaço “Academia” por ser frequentado por artistas, escritores e profissionais de outros saberes, também políticos. Palco de tertúlias e que provocaram dissabores aos seus proprietários.

Inaugurado em 1787 pelo italiano Nicola Breteiro que o marcou com o seu nome, o Botequim do Nicola, o estabelecimento abriu e fechou várias vezes, teve diferentes proprietários, outras atividades, como ourivesaria e livraria.

Da decoração com que reabriu em 1929, nessa data já como Nicola, manteve-se a estátua de Bocage e a fachada

Da decoração com que reabriu em 1929, nessa data já como Nicola, manteve-se a estátua de Bocage e a fachada

As paredes estão decoradas com pinturas a óleo que Fernando Santos fez em 1935,  retratando o quotidiano do poeta e da época, numa remodelação sob as ordens do arquiteto Raul Tojal, que lhe deu um ar mais moderno, estilo déco e geométrico, que ainda hoje se mantém.

Os painéis de Fernando Santos substituíram as telas que fizera em 1929, quando o estabelecimento reabriu de novo como café e com o proprietário Joaquim Fonseca Albuquerque. Foi nesse ano que passou a chamar-se Nicola. Desse época ficou a  estátua de Bocage, esculpida por Marcelino Norte d’Almeida, e a fachada.

Tertúlias, conversas, encontros e amizades ainda nascem e renascem nas mesas do Nicola. Carlos Felgueiras, 83 anos, ex-empresário, e Gerardo Castro, 92, ex-inspetor de viação e examinador, ali marcam presença há quase uma década, todos os dias de semana. Sentam-se na mesa do canto, imperativamente às 15.00, e partem às 16.30, depois de tomar “o cafezinho” com quem aparece, no máximo oito amigos, vindos de várias zonas de Lisboa. “Começámos por nos encontrar um pouco por acaso, mas claro que o espaço também é importante. Conversamos, falamos de tudo: da política, da dívida, do futebol”, explicam.

Na tertúlia há simpatizantes sportinguistas, benfiquistas e da Académica de Coimbra, não se revelam os partidos políticos. Conhecem os frequentadores assíduos, como o grupo da TAP que ocupa duas mesas. Eles nunca almoçam, mas há quem o faça. Pedem o “bife à Nicola”, o prato de eleição.

Rui Oliveira, o gerente, lamenta que o negócio já tenha sido melhor, exemplifica com a sala da cave que fica muitas vezes fechada e que teve de se introduzir o fado ao vivo, às 5.ª, 6.ª, e sábados, para chamar clientes.

O encerramento do Tribunal da Boa Hora, na rua Nova do Almada, foi um golpe na  presença de portugueses ao almoço e cada vez mais o Nicola é frequentado por  estrangeiros. “O movimento na casa é muito inconstante, depende muito do turismo; das chegadas e partidas dos cruzeiros. Agora anda muito na moda o turismo de fim de semana; metem-se num voo charter e vêm a Portugal”.

Nicola é, também, nome de lote de café. Foi a família Albuquerque que patenteou a marca e que pôs Bocage a ilustrar os pacotes, mas esta área de negócio já nada tem a ver com o estabelecimento da baixa lisboeta.

Céu Neves

Existem 3 comentários

  1. sebstiao araujo

    Bravo. Assim se faz Historia e assim se fazem as sociedades que contam com gente civilizada. Aplaudo a inicitiva do DN na qual recorda factos e fotos de há 150 anos.Não perco nenhuma. É por isso também, que se distuingeum os Jornais dos Panfletos. Desejo e espero que a compra da maioria do capital da proprietaria do DN, a Control Invest por Angolanos ( eu também o sou) não o torne num orgão subserviente que se omite para ……não estragar os negocios.

  2. Zé Fernandes

    Velho “Café Nicola” onde me sentei tanta vez nos anos da minha juventude pelintra. Amava Lisboa onde nasci e onde o respeito e a ordem acompanhavam o asseio da nossa capital. Vi por lá muita gente famosa. Amália Rodrigues e Francisco José tomavam a sua “bica” em pé, ao balcão, com a modéstia que os caracterizava. Por um escudo saboreava-se no Nicola um rico cafezinho e essa pobre moeda incluía os dois miseráveis tostões que significavam a gorgeta. Que saudades dessa Lisboa! Hoje o Rossio é uma tristeza. Não quero descrever o que se vê por lá., Basta uma breve passagem e rápidas olhadelas para nos sentirmos enjoados e com pressa de desertar.
    Velho Nicola! Que se mantenha por longos anos para nos fazer regressar por momemtos ao saudoso passado da nossa juventude.

  3. Francisco Fernandes Filho

    O bom Nicola me traz sempre boas recordações das minhas viagens às minhas origens lusitanas. Bons e simpáticos garçons e uma deliciosa Sapateira para nos deliciar. Em breve estaremos aí de novo.

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