A morte de Vitória, a “boa viúva de Windsor”

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: A 23 de janeiro de 1901, o DN escrevia a propósito da morte da rainha Vitória que “a sua cabeça imperial não tinha o privilégio da inmortalidade”. Numa primeira página ilustrada com uma gravura que mostrava a monarca britânica em várias fases da vida, o jornal explicava ainda que o sucessor de Vitória, Eduardo VII, o mais velho dos seus nove filhos, “gosa d’uma grande popularidade”. O seu funeral foi ocasião para a Europa mostrar uma união prestes a terminar

O trono inglês pertence hoje a uma trineta de Vitória, Isabel II, que foi coroada em 1952 e está apenas a um ano de ultrapassar o recorde de 63 anos de reinado da sua famosa antepassada. Mas o império britânico, o tal com fama de nele o Sol nunca se pôr, há muito é uma sombra de si próprio e na atualidade só restam alguns confetti, como Gibraltar, as Malvinas ou Pitcairn. Aliás, é esta pequena ilha no Pacífico que permite dizer que Isabel II, tal como a rainha Vitória, reina sobre territórios onde será sempre dia em algum momento. Mas se é verdade que a Índia, a Nigéria ou o Quénia deixaram de ser colónias britânicas, ainda há países que, mesmo desde há muito independentes, continuam a ter a monarca inglesa como chefe de Estado, casos do Canadá, da Austrália ou da Nova Zelândia.

O trono inglês pertence hoje a uma trineta de Vitória, Isabel II, que foi coroada em 1952 e está apenas a um ano de ultrapassar o recorde de 63 anos de reinado da sua famosa antepassada. Mas o império britânico, o tal com fama de nele o Sol nunca se pôr, há muito é uma sombra de si próprio e na atualidade só restam alguns confetti, como Gibraltar, as Malvinas ou Pitcairn. Aliás, é esta pequena ilha no Pacífico que permite dizer que Isabel II, tal como a rainha Vitória, reina sobre territórios onde será sempre dia em algum momento. Mas se é verdade que a Índia, a Nigéria ou o Quénia deixaram de ser colónias britânicas, ainda há países que, mesmo desde há muito independentes, continuam a ter a monarca inglesa como chefe de Estado, casos do Canadá, da Austrália ou da Nova Zelândia.

Sob o título “Assumptos do Dia”, o DN de 23 de janeiro de 1901 escrevia que “pela natural successão das cousas a morte da rainha Victoria não podia surpreender. A sua cabeça imperial não tinha o privilégio da inmortalidade. O peso dos annos abaten-a, como abate as árvores gigantes que dominam a floresta. Com mais de oitenta annos, a eminente princeza não podia lograr a esperança de conservar-se por muito mais tempo no throno”. Era num português de época que o jornal relatava – naquele início de século XX e numa primeira página ilustrada com uma gravura de Roque Gameiro em que a monarca britânica surge em “diferentes épocas da sua vida” – a morte da mulher que marcou o século XIX e deu nome a uma era, a vitoriana.

“O seu reinado foi um dos mais longos e um dos mais prósperos  da Gran Bretanha”, lembrava o jornal referindo-se àquela a quem chamou a “boa viúva de Windsor”. Nos seus 63 anos e sete meses como rainha – recorde que se mantém até hoje, mas que a sua trineta Isabel II ameaça bater já em 2015 – Vitória reinou sobre um império onde se costumava dizer que o Sol nunca se punha e ia do Canadá à Índia, da Austrália às Bermudas.

Ao DN, a morte da rainha Vitória chegou através de um telegrama do correspondente. “Londres, 22, às 7 h. tarde – Sua magestade a Rainha Victoria morreu às 6 h. e 45 m. da tarde no seu palácio de Osborne”, lia-se no texto reproduzido na primeira página daquele dia. A monarca já há meses se encontrava doente, sem apetite, perdera peso e apresentava uma figura frágil, a contrastar com a imagem a que habituara os súbditos e o resto do mundo. Com a sua morte, Eduardo, o mais velho dos nove filhos, tornava-se rei de Inglaterra com o nome de Eduardo VII. Segundo o DN, “o príncipe de Galles, apesar de todos os seus defeitos, inspira sympathias e gosa d’uma grande popularidade”. Mas “sobe ao throno n’uma ocasião bastante crítica e não é pequena a responsabilidade que lhe fica em herança”.

Que Jorge V, o kaiser Guilherme II e a czarina Alexandra fossem primos não impediu que Inglaterra, Alemanha e Rússia estivessem entre os beligerantes de 1914-1918. Os três eram netos da rainha Vitória, que os conheceu bem, até porque Jorge era filho de Eduardo, o seu herdeiro, e Guilherme, filho de Vicky, foi o primeiro a nascer, tinha a avó 40 anos. A Primeira Guerra Mundial acabou por ser trágica para dois deles: Guilherme foi deposto, Alexandra foi morta pelos bolcheviques com o czar Nicolau II e os filhos.

Que Jorge V, o kaiser Guilherme II e a czarina Alexandra fossem primos não impediu que Inglaterra, Alemanha e Rússia estivessem entre os beligerantes de 1914-1918. Os três eram netos da rainha Vitória, que os conheceu bem, até porque Jorge era filho de Eduardo, o seu herdeiro, e Guilherme, filho de Vicky, foi o primeiro a nascer, tinha a avó 40 anos. A Primeira Guerra Mundial acabou por ser trágica para dois deles: Guilherme foi deposto, Alexandra foi morta pelos bolcheviques com o czar Nicolau II e os filhos.

Em Portugal, também se sentiu a morte da rainha Vitória. “A corte portuguesa tomará luto por um mês, sendo os primeiros 15 dias de luto carregado e os restantes de luto aliviado”. Afinal, o rei D. Carlos era ainda familiar da monarca britânica, sendo ambos descendentes de Francisco, duque de Saxe-Coburgo. Uma relação que o DN explica na sua edição de 24 de janeiro, publicando mesmo uma árvore genealógica para ajudar o leitor a perceber as várias ramificações da família.

Nesse mesmo dia, o DN dava ainda conta da partida próxima do rei D. Carlos para Inglaterra, onde ia participar nas cerimónias fúnebres da rainha. “Sua magestade el-rei resolveu partir no próximo sabbado em comboio especial que partirá da estação do Rocio ás 8 horas da manhã”, podia ler-se na notícia que partilhava a primeira página com o anuário comercial.

A morte da rainha Vitória, as cerimónias fúnebres e o consequente desfile de figuras públicas e cabeças coroadas que fizeram questão de prestar a última homenagem à monarca que deixou descendentes em todas as casas reais europeias continuaram a merecer destaque no DN nos dias seguintes e até ao funeral. No dia 25, a primeira página do jornal apresentava dois desenhos: num deles via-se a “rainha Victória almoçando nos jardins de Osborne”, o seu palácio na ilha de Wight, onde viria a morrer; no outro, “a rainha Victoria com os netos” também nos jardins desta sua residência.

A 4 de fevereiro, um dia depois de o caixão da monarca britânica ter percorrido as ruas de Londres antes de ser colocado no mausoléu real de Frogmore ao lado do seu amado Alberto, o DN escrevia: “No percurso do cortejo fúnebre estavam postados sem alas 33 000 homens de tropas, sendo assim mantida a ordem. Não se pode calcular o espantoso número de pessoas que desde muito cedo estacionava nas ruas da cidade para ver o prestilo. O tempo conservou-se ennevoado mas secco. Quando atravessava as praças o reparo da peça com o ataúde ouvia-se o gemido da multidão.” Acrescentando: “Seguia-se o corpo da rainha, logo depois o estandarte real e, destacando-se entre todos, o rei Eduardo que dava a direita ao imperador Guilherme e a esquerda a seu irmão o duque de Connaught”. E rematava: “O imperador da Alemanha estreou o uniforme de marechal do exército inglez.” Uma imagem de união da Europa que a guerra viria em breve desfazer.

HELENA TECEDEIRO

Sem comentários

  1. Anónimo

    O Czar Nicolau II também era primo direito de Jorge V. Ambos eram netos de Christian IX da Dinamarca e de Luísa de Hesse, as suas mães eram irmãs. Já a Czarina Alexandra Feodorovna da Rússia, de seu nome verdadeiro Alix, era de facto neta da Rainha Vitória, mas era filha do Grão-Duque de Hesse, Luís, e portanto prima em segundo grau do seu marido.
    Aliás a semelhança física de Jorge V e do Czar Nicolau II era muito grande, pareciam quase irmãos gémeos.

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