Café Gelo: uma história de oposicionismo

A história do século XX português passa por este café, com quase 150 anos, que antes de ter o melhor pastel de nata da cidade, foi uma verdadeira “toca” de oposicionistas e poetas

Largas dezenas de pessoas juntam-se no Café Gelo, em julho de 1966, para ver na televisão um jogo do Mundial De futebol

Largas dezenas de pessoas juntam-se no Café Gelo, em julho de 1966, para ver na televisão um jogo do Mundial De futebol

No dia 2 de Fevereiro de 1908, pouco antes das 17.00, Manuel Buiça e Alfredo Costa saíram do café Gelo com as carabinas escondidas debaixo dos sobretudos e dirigiram-se para a praça do Comércio. Pouco depois das 17.00 mataram o Rei D. Carlos e o seu filho D. Luis Filipe. E só por isto o Gelo já tem garantida a eternidade do seu excêntrico nome na História de Portugal. Mas mais do que o local onde, na Lisboa do fim do século XIX e início do século XX, se reuniam os oposicionistas à monarquia, maçons, carbonários, anarquistas, este foi o primeiro estabelecimento comercial na cidade a ter… gelo.

Não se sabe exatamente o ano em que abriu portas, ali nos números 64 e 65 da praça do Rossio, sob o nome de Botequim Gonzaga, mas sabe-se que foi em meados do século XIX e que pouco depois foi transformado no Café Freitas. À entrada do século XX ganhou o o nome de Café do Gelo.
Nos anos 20 e 30 foi lugar de passagem de intelectuais e poetas como Fernando Pessoa ou Raul Leal. No anos 50 veio a primeira grande remodelação e a portas envidraçadas que davam para ver o exterior e uma clientela feita de empregados do comércio e jovens com pouco dinheiro. Passou a chamar-se apenas Café Gelo.

Quando em 2001, Fernando Jorge Gomes Ferreira da empresa Januário Mateus & Batista, (também proprietários dos centenários Café Nicola e Café Luso), comprou o espaço da hamburgaria Abracadabra, pouco sabia de toda esta história. “Soube do passado do café durante as negociações da compra do espaço. Fiquei tão impressionado que quis devolver essa história à cidade e resolvi, ali mesmo, recuperar o nome”, contou ao DN. E foi assim que, em 2003, o Gelo reabriu como pastelaria, mas com um mural ilustrado onde se conta o regicídio e as fotos de alguns poetas que voltariam a colocar o café na História.

Café Gelo nos dias de hoje

Café Gelo nos dias de hoje

Quem entra no Gelo hoje vê um espaço movimentado cheio de bolos apetitosos, turistas apressados e velhinhos tranquilos no seu chá da tarde.

São estes, o mais idosos, que conhecem o passado da casa e, por isso, ali continuam a ir. Os turistas nada sabem e o mural escrito apenas em língua portuguesa não ajuda a divulgar a história. E, apesar de as paredes ostentarem fotografias de Mário Cesariny, Luiz Pacheco, René Bertholo e Helder Macedo são cada vez menos os que sabem quem eles são… Até porque, atualmente, quem vai ao Gelo quer sobretudo comprar pasteis de nata. “São melhores do que os de Belém”, garante Fernando Jorge. “Por dia saem daqui cerca de mil pasteis. Mas agora que os franceses descobriram Lisboa há os que fazem encomendas de centenas de bolos para levar no regresso ou para vender nas suas Boulangeries”, diz o empresário, um português nascido em Angola, que cresceu no Brasil e veio para Portugal abrir um pequeno negócio que se transformou numa espécie de missão: “O que eu gostaria era de devolver ao Gelo a traça antiga e o mobiliário de época, como a Brasileira do Chiado, espero a pouco e pouco ir fazendo isso”, confessa antes de garantir ao DN que “há-de” lá colocar também a foto do poeta Herberto Helder.

Mas se o nome do Gelo sobrevive fora dos negócios da restauração e da pastelaria é devido ao grupo de poetas e pintores que ali assentou arraiais no fim dos anos 50: era a segunda vaga de oposicionistas.
Conta o escritor Helder Macedo que virando a esquina como quem vai para a estação de comboio dos restauradores havia umas águas furtadas que serviam de atelier aos pintores João Vieira, René Bertholo, Gonçalo Duarte e Lurdes Castro, que ao fim do dia se começaram a juntar no Gelo para “tomar uns copos”. Pouco a pouco estes pintores foram levando amigos e ao fim de alguns meses apareceu por lá o poeta Raul Leal com o seu amante boxeur e o Mário Cesariny dissidente do café ‘Herminius’, onde a sua homo “Estas duas figuras, já famosas, foram integradas e celebradas pelos jovens que eram os aspirantes a qualquer coisa que não fosse a realidade dos intelectuais e escritores do regime”, conta Helder Macedo que rejeita que se associe ao grupo do Gelo o epiteto de “surrealistas”.

Depois – ou antes – não interessa vieram outros, como Herberto Helder, Manuel de Castro, José Sebag, João Rodrigues, Manuel Simões, José Escada, António José Forte, Ernesto Sampaio, António Barahona. Esta tertúlia durou até 1962 quando houve confrontos com a PIDE e o café foi proibido de receber os poetas. Mas, entretanto, já muitos tinham deixado o País, e “O Gelo continuou fora de Portugal” diz Helder Macedo, lembrando os pintores que depois fundaram, em Paris, o grupo KWY.

Um dos mais comoventes testemunhos do que foi o Gelo foi-nos deixado pelo célebre editor Luiz Pacheco: “Na clientela do Café Gelo, nos anos 50-60, não teria homogeneidade etária, coexistiam tipos dos 8 aos 80, do José Carlos González, caco infantil, ao Raul Leal, do Orpheu, caquético total. Escassa identidade ideológica, dos fascistas à Goulart Nogueira aos anarcas como o Forte, o Henrique Tavares, o Saldanha da Gama. Prostitutas, bêbados e maricas. Maluquinhos como o António Gancho. Nenhuma programação estética. Dali não saiu revista, doutrina, escola que se aproveitasse. Então?! Havia, isso sim, um espaço de convívio em liberdade plena, feroz e mútua crítica, nenhuma contemplação pelo arrivismo…”

Joana Emídio Marques

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