Eva Perón andou na rua P do Bairro da Encarnação

O DIA EM QUE O DN CONTOU: Em junho de 1947, a senhora dos “descamisados” argentinos esteve em Lisboa. Evita encantou em banquetes oficiais, onde jantou com Carmona e Salazar, insistiu em visitar o Bairro da Encarnação e a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), experiências sociais do salazarismo, e, por último, terá cumprido o seu objetivo principal na visita europeia: fazer que parte do ouro nazi, entretanto ido para a Argentina, fosse guardado em bancos suíços

O diplomata português Pinto de Lemos, escolhido pelo MNE para acompanhar a primeira-dama argentina (mais tarde, foi embaixador em Berna), conhecia a conversa popular de Evita, que se apresentava como “descamisada”. Das joias que ela usava, desculpava-se não serem suas: “Me las están siempre regalando.” Ela quis ir a um bairro social e à FNAT. O embaixador argentino em Lisboa explicou: “É difícil falar-lhes a vocês, que tanto já realizaram, de coisas que nós só agora começámos.”

O diplomata português Pinto de Lemos, escolhido pelo MNE para acompanhar a primeira-dama argentina (mais tarde, foi embaixador em Berna), conhecia a conversa popular de Evita, que se apresentava como “descamisada”. Das joias que ela usava, desculpava-se não serem suas: “Me las están siempre regalando.” Ela quis ir a um bairro social e à FNAT. O embaixador argentino em Lisboa explicou: “É difícil falar-lhes a vocês, que tanto já realizaram, de coisas que nós só agora começámos.”

Vinda de Roma, Eva Perón desembarcou a 17 de julho de 1947, na Portela de Sacavém, e o repórter do DN começou pela bela aparência: “Elegantíssima no seu tailleur cinzento, um grande chapéu negro a emoldurar as louras madeixas do cabelo.” Ela iria morrer seis anos depois, em 1952, tornando-se um mito universal, mas, aos 28 anos, o charme e a elegância da primeira-dama argentina já eram famosos em todo o mundo. A sua beleza soltava a canetas dos jornalistas: “A senhora de Perón, elegante e distinta, num vestido com tonalidade quente de certas rosas vermelhas tingido de negro, uma pluma dessa mesma cor emergindo…”, escrevia o DN, relatando-a num dos banquetes oficiais a que foi na sua estada de cinco dias em Lisboa.

No dia anterior à chegada, o jornal apresentara-a aos leitores, respeitando até a terminologia cara à visitante: “D. Maria Eva Duarte de Perón é a digníssima companheira e camarada de luta do Presidente da República Argentina, mentor e condutor no seu país duma grande revolução política e social.” Em Lisboa, em breve roda de conversa com jornalistas, ela irá mostrar-se ingénua: “Nada sei de política internacional… Não! A minha viagem não tem objetivos políticos…” Repete, assim, a sua subserviência ao marido e líder, que ela sempre usou desde as charlas radiofónicas que a tornaram adorada em toda a Argentina: “Falo-vos somente como a vossa companheira Eva, camarada do primeiro trabalhador argentino…” O general Perón, eleito presidente no ano anterior, 1946, mandara-a para uma estranha viagem pela Europa – Espanha, Itália, Portugal, França e Suíça… -, que biografias e revelações sobre o ouro nazi, nos anos 90, sugeriam que ela viera traficar com tesouros dos dirigentes do recém-caído III Reich alemão. Um almoço no Guincho com o exilado rei Humberto de Itália pode ter sido o momento-chave dessa trama (ver caixa).

A argentina Alicia Dujovne Ortiz, autora de Eva Perón – La Biografia, e Shimon Samuels, investigador da organização judaica Centro Simon Wiesenthal, de Viena, dizem que ela veio à Europa para triangular, através de Portugal, o envio de importantes remessas de ouro e divisas para a Argentina. Esses temas, evidentemente, não foram tratados pelo DN, impossibilitado então de o saber pelo secretismo com que o affaire foi conduzido, e encantado também por sublinhar a simpatia da visitante. Não era o jornal o único a ser ingénuo: o diplomata português Pinto de Lemos, escolhido para acompanhar a primeira-dama argentina em Lisboa, deixou o relatório “Visita a Portugal de Madame Perón”, carimbado “confidencialíssimo”, que mostra não se ter apercebido daquela vertente da ilustre visita.

O único ato não documentado da estada de Evita em Lisboa é o almoço íntimo com Humberto de Itália, no restaurante A Barraca de Pau, no Guincho (20 de julho). O diplomata português Pinto de Lemos, no seu relatório, queixou-se da tentativa de a comitiva argentina o despistar - acusa nomeadamente o banqueiro argentino Pedro Dodero. Quando a foi buscar, o português achou Eva Perón eufórica: “Sabe usted lo que el me a dicho? Me dijo: Usted es un churro.” O diplomata traduz o que o rei chamou a Evita: “Uma pêssega.” A atriz Eva Perón devia estar a desviar a conversa. Segundo o livro Eva Perón - La Biografia, o encontro da primeira-dama com o rei exilado em Cascais (que no almoço estava acompanhado pelos generais italianos Graziani e Cassiani) estava integrado no plano de retorno à Europa (para bancos suíços) do ouro nazi que tinha ido para a Argentina.

O único ato não documentado da estada de Evita em Lisboa é o almoço íntimo com Humberto de Itália, no restaurante A Barraca de Pau, no Guincho (20 de julho). O diplomata português Pinto de Lemos, no seu relatório, queixou-se da tentativa de a comitiva argentina o despistar – acusa nomeadamente o banqueiro argentino Pedro Dodero. Quando a foi buscar, o português achou Eva Perón eufórica: “Sabe usted lo que el me a dicho? Me dijo: Usted es un churro.” O diplomata traduz o que o rei chamou a Evita: “Uma pêssega.” A atriz Eva Perón devia estar a desviar a conversa. Segundo o livro Eva Perón – La Biografia, o encontro da primeira-dama com o rei exilado em Cascais (que no almoço estava acompanhado pelos generais italianos Graziani e Cassiani) estava integrado no plano de retorno à Europa (para bancos suíços) do ouro nazi que tinha ido para a Argentina.

Abílio Pinto de Lemos, que servira na nossa embaixada de Buenos Aires, até 1945, fora escolhido por já conhecer Evita. Sabia-a declamadora de rádio e artista de cinema, amante do então secretário de Estado do Trabalho, Juan Perón, depois mulher e maior apoiante do líder populista, mãe da pátria e senhora dos desprotegidos, dos “descamisados”. A viagem à Europa já a mostrou à vontade com os grandes. Dias antes, em Espanha, onde fora recebida em delírio, permitira-se ser soberba com Franco. Evita prometeu a Espanha um navio de trigo, Franco recusou, tinham-no suficiente, e a argentina respondeu: “Então porque não o põem no pão?” Mãe dos descamisados mas apreciadora de regalias, logo ao aterrar em Lisboa perguntou qual a marca do carro que a recebia. Pinto de Lemos mentiu dizendo que era um Packard de último modelo.

O jornal, por seu lado, relatava a paradoxal estada da primeira-dama da argentina, brilhando nos banquetes oficiais, com o presidente Carmona e o chefe do Governo, Salazar, e prosseguindo, também em Lisboa, a sua demanda pelas classes trabalhadoras. Ela fez um discurso na Emissora Nacional sobre a “revolución de los pobres” e a necessidade de “una distribución más equitativa de las riquezas”. E insistiu em visitar uma Lisboa “descamisada”, o Bairro da Encarnação, com casas sociais. Conta o DN: “A senhora Perón desceu a Rua P onde os moradores do bairro lhe fizeram carinhosa manifestação.” Os ciclistas locais fizeram questão em fazer de batedores. Depois, Evita foi à Calçada de Santana ver as cozinhas da salazarista Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT,) para se inspirar na cartilha interclassista comum. E partiu, via França, para a Suíça, onde se reuniu com 220 banqueiros.

FERREIRA FERNANDES

Imagem 8361699_19470719_01_001_L

 

Deixe o seu comentário