Casa Christina: O café que há 210 anos dá aroma à Baixa do Porto

A Casa Christina é uma homenagem à mulher do comerciante que a fundou e ainda hoje faz lotes de café de mistura ao gosto dos clientes. Um luxo próprio de outros tempos, ameaçado pelas cápsulas e pastilhas que invadiram o mercado.

Quem há décadas passa pela Rua de Sá da Bandeira, junto à entrada poente do Mercado do Bolhão, ouve o barulho de máquinas a trabalhar e sente um intenso aroma a café vindo de um pequeno estabelecimento comercial que faz parte da história da cidade do Porto.

Lá dentro, agora há mesas e cadeiras para quem quiser entrar, mas mantêm-se misturadoras, moinhos e balanças para fazer as misturas que conservam o sabor de um café de outros tempos. Tal como se mantêm meia dezena de funcionárias, algumas com três e quatro décadas de serviço; mais do que suficiente para tratarem os clientes de sempre como se fossem da família.

A antiga fábrica da Rua do Bispo mudou-se para o número 401 da Rua de Sá da Bandeira, na década de 1920, onde ainda hoje está instalada

A antiga fábrica da Rua do Bispo mudou-se para o número 401 da Rua de Sá da Bandeira, na década de 1920, onde ainda hoje está instalada

A Casa Christina nasceu em 1804, pouco antes de o Porto se transformar num cenário de guerra para enfrentar as invasões francesas. A pequena fábrica de chocolate e torrefação de café foi montada no número 54 da antiga Rua do Bispo, graças ao espírito de iniciativa do comerciante José Iria Carvalhal que, em 1813, ano em que casou, passaria a designar o seu negócio como Casa Christina, em homenagem à esposa.

Mais de dois séculos depois, D. Christina Ribeiro continua a ter a homenagem que o marido lhe fez bem patente na Baixa do Porto (há também uma loja em Braga) e na marca de cafés que é distribuída por toda a região Norte. No entanto, quase tudo mudou desde então.

O casal de proprietários faleceu em meados do século XIX e a antiga fábrica da Rua do Bispo mudou-se para o número 401 da Rua de Sá da Bandeira, na década de 1920, tendo já em 1987 a Casa Christina sido adquirida pela Nestlé Portugal, que detém outras três marcas de café. Ainda assim, o essencial da tradição da loja que exala a fragrância de um bom café ali defronte para o Bolhão permanece intacta.

"Não conheço outro sítio em que as pessoas possam moer o seu próprio café e fazer a sua própria mistura para levar para casa", explica ao DN António Soares, responsável pelo estabelecimento Casa Christina

“Não conheço outro sítio em que as pessoas possam moer o seu próprio café e fazer a sua própria mistura para levar para casa”, explica ao DN António Soares, responsável pelo estabelecimento Casa Christina

“A Casa Christina continua a ser um espaço único e cheio de história. Não conheço outro sítio em que as pessoas entrem e possam moer o seu próprio café e fazer a sua própria mistura para levar para casa. Além disso, o facto de os grãos estarem constantemente a ser moídos dão um aroma característico a este local”, explica ao DN António Soares, responsável pelo estabelecimento Casa Christina, salientando que ao longo dos últimos anos teve de adaptar-se aos novos tempos: “A qualidade do café sempre nos permitiu ser uma referência em todo o Norte do País. Há clientes com 60 ou 70 anos que vinham em crianças comprar aqui o café de saco e escolherem as misturas com as mães e as avós. Eu também vinha cá com os meus pais quando era criança, muito antes de algum dia pensar que iria gerir este espaço. No entanto, o público mais jovem prefere cada vez mais o café de pastilhas ou de cápsulas… Hoje vendemos 500 quilos de café por mês, houve tempos em que vendíamos três ou quatro vezes mais…”

Os tempos são outros e precisamente para fazer face às necessidades do público a loja da Casa Christina passou em 2008 a ser também um espaço com mesas e cadeiras para serviço à mesa. Um espaço bem diferente de um café comum. Aqui, o cliente pode escolher entre a variedade de arábicas e robustas das mais diversas origens (Brasil, Angola, Timor…), com lotes entre os 11 e os 30 euros por quilo, ou fazer a sua própria mistura de café, chicória e cevada levando para casa o mais personalizado café de saco, rigorosamente ao seu gosto. Um luxo nos dias que correm e que, apesar da quebra de clientes tradicionais, leva cada vez mais curiosos de outras paragens a visitarem o espaço.

“Temos empresas ligadas ao turismo gastronómico que nos visitam. Os turistas ficam encantados com a história desta casa, pelo facto de manter o nome da mulher do comerciante que a fundou ainda antes das invasões napoleónicas, por exemplo…”, conta António Soares, que, apesar de o negócio não florescer como noutras eras, recorda a história da marca para sublinhar a confiança que tem no futuro: “Ao longo de mais de dois séculos, a Casa Christina ultrapassou muitas guerras, bem como a falta de café nas colónias, que obrigou a períodos de algum racionamento. Uma coisa foi sempre ponto assente:  Sempre houve café para abastecer os portuenses. Estou confiante de que assim continuará a ser por muitos e bons anos.”

SÉRGIO PIRES

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