Bertrand: Viúva vestida de seda preta geriu livraria no século XVIII

Certificada pelo ‘Guiness World Records’ como livraria mais antiga do mundo, a Bertrand foi fundada em 1732 por um francês e mantém-se na Rua Garrett, no coração de Lisboa, desde 1773. Vender livros continua a ser a principal função de um espaço que deu origem a uma rede nacional com 53 lojas que integra, formalmente, o Grupo Porto Editora.

Mal se instalou na Rua Garrett, a livraria “começou logo a furar por entre os prédios”, até se tornar no corredor que é atualmente.

Mal se instalou na Rua Garrett, a livraria “começou logo a furar por entre os prédios”, até se tornar no corredor que é atualmente.

Uma mulher a conduzir o destino de uma livraria no final do século XVIII não será o mais habitual na história literária, mas aconteceu em Lisboa, naquela que ostenta hoje o título de mais antiga do mundo. Invariavelmente vestida de seda preta, Marie Claire Rey Bertrand passou a liderar, sob a designação “Viúva Bertrand e Filho”, o negócio de família depois da morte do seu marido, Jean Joseph.

Em 1753, o francês formara com o seu irmão, Pierre, a sociedade “Irmãos Bertrand”, herdeira do estabelecimento fundado 21 anos antes por Pedro Faure na Rua Direita do Loreto, em Lisboa. Mais de 280 anos depois, a Bertrand mantém-se no Chiado – na Rua Garrett – e, garante o administrador do grupo que a detém, continua a cumprir a sua principal função: vender livros.

“Quem entra na Bertrand, entra para comprar um livro”, afirma Paulo Oliveira, do Grupo BertrandCírculo, quando questionado sobre um eventual aumento do fluxo de turistas desde que, em 2011, o espaço foi oficialmente distinguido pelo Guiness World Records (Recordes Mundiais do Guiness). Desde que ali abriu em 1773 – depois de a loja original ter sido destruída na sequência do terramoto de 1755 e de uma permanência de quase duas décadas junto à Capela de Nossa Senhora das Necessidades (Estrela) –, o estabelecimento “começou logo a furar por entre os prédios”, mas nem por isso um dos seus recantos mais emblemáticos deixou de resistir.

Com o Círculo de Leitores e a Porto Editora, a Bertrand forma hoje uma marca “fortíssima”, sem que tenha perdido o seu papel de livraria especializada.

Com o Círculo de Leitores e a Porto Editora, a Bertrand forma hoje uma marca “fortíssima”, sem que tenha perdido o seu papel de livraria especializada.

Na primeira sala do que é quase um longo corredor, uma placa assinala o “Cantinho do Aquilino”, uma homenagem ao escritor Aquilino Ribeiro, nascido em 1885, falecido em 1963 e frequentador assíduo da livraria. É ali, onde Fernando Namora, Urbano Tavares Rodrigues e José Cardoso Pires gostavam de estar sentados à conversa, que ainda hoje se realizam entrevistas e apresentações de livros. O que não significa que a Bertrand não tenha voado para além da Rua Garrett.

Atualmente, Livraria Bertrand é sinónimo de uma rede de 53 lojas por todo o País e integra, formalmente, o Grupo Porto Editora que, em 2010, adquirira o Direct Group, constituído pela Editora Bertrand, Distribuidora Bertrand, Livrarias Bertrand e Círculo de Leitores. Simultaneamente, nascera o Grupo BertrandCírculo. “Voltou a ser confiada a uma família, a Teixeira ”, sublinha Paulo Oliveira.

O negócio tornou também “fortíssima” uma marca que juntou três recheadas de história. A Bertrand, que existe “desde que há livros” em Portugal e se distingue pelos autores que publica e publicou; o Círculo de Leitores que, com a sua lógica de encomenda e entrega ao domicílio, “foi o grande massificador do livro e levou a casa das pessoas a cultura”; e a Porto Editora que, enquanto editora escolar, “formou quase toda a gente deste País”.

É, de resto, o legado que só o livro é capaz de deixar que leva Paulo Oliveira a acreditar que a Bertrand viverá pelo menos outros 282 anos. “O livro tem um papel fundamental na transmissão do saber. Quando nós sentimos que queremos passar algo, o livro será sempre o meio, tenha ele o formato que tiver [papel ou digital] ”, defende o administrador. Além disso, acrescenta, a Bertrand tem um espaço próprio no sector, por se tratar de um “dos maiores retalhistas especializado deste país”.

Com um catálogo em que não têm faltado, ao longo da sua vida, autores portugueses, foi, no entanto, com a importação de livros franceses que começou por se afirmar em Lisboa, na primeira metade do século XVIII. “Pode dizer-se que os franceses estavam nessa altura para o livro em Portugal como os ingleses haviam de estar, tempos depois, para o vinho do Porto”, afirmou o historiador António José Saraiva num estudo sobre a Bertrand. Isto numa época em que, salienta Paulo Oliveira, cada estabelecimento do ramo era em simultâneo livraria, editora e gráfica e a maioria da população nacional era analfabeta.

O panorama é bem distinto do traçado no Censo 2011, quando se verificou que cerca de 5% dos portugueses são analfabetos, numa evolução que evidencia a antiguidade da Bertrand. Afinal, desde 1732 já resistiu, em pleno coração de Lisboa, a um terramoto, a uma guerra civil, a nove reis, a um regicídio, a 16 presidentes, a 50 primeiros-ministros, a três repúblicas e a três intervenções do Fundo Monetário Internacional.

Inês Banha

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