Portugal recebe o Rei dos Reis, o aliado africano

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: O imperador da Etiópia Hailé Selassié, chefe de um Estado africano com relações seculares com Portugal, veio a Lisboa em 1959 nas vésperas das guerras coloniais. Ainda na esperança de encontrar aliados num continente que tanto nos interessava, Selassié foi recebido à altura do seu título de Rei dos Reis

O Negus e o presidente Américo Tomás, no Terreiro do Paço

O Negus e o presidente Américo Tomás, no Terreiro do Paço

Portugal confirmava alianças. Entre ter recebido Isabel II (1957) e esperar a visita do presidente brasileiro Juscelino Kubitschek de Oliveira (1960), a ano e meio do começo da Guerra Colonial, Lisboa recebe com a maior das pompas Hailé Selassié (1892-1975). Na manhã de 26 de julho de 1959, um domingo, a fragata Nuno Tristão, escoltado por dois contratorpedeiros, entrou num Tejo com navios engalanados, entre os quais o veleiro Sagres. Uma vedeta foi até à fragata e voltou ao Cais das Colunas para desembarcar o descendente tradicional do rei Salomão e da rainha de Sabá, imperador do etíopes, Leão Conquistador da Tribo de Judá, enfim, o Rei dos Reis. O presidente português, Américo Tomás, adianta-se para receber Hailé Selassié, com ambos os chefes de Estado encimados por bicórnios com plumas.

Salazar e Hailé Selassié trocam presentes

Salazar e Hailé Selassié trocam presentes

A ausência de povo no Terreiro do Paço não exprimia a desconfiança nacional pela legitimidade de Tomás, eleito no ano anterior de forma polémica. Havia outra razão. Portugal mandara a fragata Nuno Tristão buscar o imperador a Biarritz, onde Selassié estava de férias (e de Lisboa partiria para Baden-Baden, Alemanha, continuando as férias), para lhe fazer demonstrações de força e de vontade de aliança. Sobretudo com um país africano, com o qual as relações eram antigas: “Consolida–se uma amizade de mais de cinco séculos”, titula o DN à largura da sua primeira página. Enchendo a praça mais emblemática do império português com 4500 soldados em guarda de honra e fazendo-a sobrevoar por 45 jatos, o regime inicia uma visita que será durante cinco dias pautada pelas mesmas duas vertentes: história comum antiga e mostra de poderia militar.

Na Tapada de Mafra, o imperador da Etiópia, com binóculo na mão, assiste a exercícios militares. Durante a estada ser-lhe-á dada a espada de general português

Na Tapada de Mafra, o imperador da Etiópia, com binóculo na mão, assiste a exercícios militares. Durante a estada ser-lhe-á dada a espada de general português

O Negus irá aos Jerónimos pôr uma coroa de bronze no túmulo de Vasco da Gama, pai do Cristóvão da Gama que morreu em 1542 a defender, contra os árabes, a independência da Abissínia, ao lado do antecessor de Selassié, o imperador Cláudio. Irá receber uma delegação da Covilhã, para homenagear Pero da Covilhã, que andara pelas terras do Preste João no século XV. Vai à tapada de Mafra e a Santa Margarida assistir a exercícios militares e é promovido a general português. Em Alcobaça, o Rei dos Reis passeia na Sala dos Reis e vê Afonso Henriques a ser coroado. Quando parte, leva saudades. Vai ser deposto em 1974, como o regime que tão bem o recebera quinze anos antes.

FERREIRA FERNANDES

Existem 7 comentários

  1. José Rodrigues

    Nessa altura estava na tropa, no Regimento de Artilharia Antiaérea fixa aquartelado no Palácio de Queluz e fui um dos militares que fizeram parte da recepção, apresentação de armas, em sua honra. Que saudades dos meus 22 anos!

  2. Força, Coragem e Honra

    Bons tempos, apesar da minha incompreensão e hostilidade. Nessa altura em que os chulos mimados filhos de papás dos Colégios Modernos que o Regime não teve coragem de os silenciar de vez e que se traduziriam uns anos mais tarde em pontas de lança das Internacionais Capitalistas com as suas diversas cores, éramos respeitados até pelos inimigos ao contrário dos dias de hoje em que não contamos para ninguém. Obrigado generais de Abril.

  3. jose

    um dos maiores ditadores de africa 44 anos a escravizar o seu povo morreu na cadeia cheio de vermes ,cá foi recebido por outro ditador tudo normal para a época ,o Mário soares também ca recebeu um grande ditador do Zaire Mobutu tudo normal .

  4. J.J.JEREMIAS

    Mário Soares recebeu um ditador de África? Qual a admiração, a descolonização dele “entronou” pelo menos 5 ditadores! Ele NUNCA foi um democrata verdadeiro…

  5. EMBUSTE...

    Só existe un rectângulo de pano de cores berrantes com um escudo no meio que se transformou num Euro que lá nem está . Esse país cujo símbolo é esse rectângulo de pano, já há mito que deixou de existir . Democracia, liberdade significarão responsabilidade? Não o creio . Não a vejo . Não a antevejo . Não a Presinto .Estamos a espera do Rei D. Sebastião mas Ele Não chega. Morreu com o País que tanto augurava aumentar. TRISTEZA ,MARTÍRIO ,DUREZA, DELÍRIO….

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