Imprensa Portuguesa: O único local onde se julgam os livros pela capa

As mãos de Domingos Dias da Silva já não têm, aos 85 anos, a mesma destreza. Mas foi com elas que o encadernador moldou alguns dos mais belos livros portugueses. Figuras como o Papa João Paulo II ou Barack Obama tiveram e têm na biblioteca obras de encadernação da Imprensa Portuguesa, fundada há 146 anos.

A fábrica Imprensa Portuguesa está situada na Lavra, perto de Vila do Conde. Esta é a terceira morada em 146 anos de história.

A fábrica Imprensa Portuguesa está situada na Lavra, perto de Vila do Conde. Esta é a terceira morada em 146 anos de história.

Encadernado a pele. Com motivos dourados e uma gravura de Luís de Camões enquanto salvava um livro de cair ao mar. Nos braços do poeta, o livro que a capa cobria: os Lusíadas. Foi guardado num estojo, também ele em pele, e enviado ao cônsul de Espanha, que de seguida o enviou para a embaixada em Lisboa. “Foi ideia da minha neta”, conta Domingos Silva. Os destinatários do presente eram os príncipes das Astúrias. Filipe de Bourbon e Letízia Ortiz casaram-se em maio de 2004 e a empresa Imprensa Portuguesa, fundada em 1868, decidiu agraciar os noivos com um presente bem português que quase nem chegou aos destino. “O embaixador espanhol gostou tanto que queria ficar com ele”, recorda Domingos.

A prenda acabou por chegar e os príncipes não tardaram a agradecer por carta. A missiva ainda hoje está emoldurada à entrada da Imprensa Portuguesa, que tem na Lavra, perto de Vila do Conde, a terceira morada em 146 anos de história.

Fundada por Anselmo de Morais na baixa do Porto, foi com Domingos Silva que se tornou um dos últimos bastiões da encadernação à antiga, feita com materiais nobres e manualmente. “Verdadeiras obras de arte”, suspira o antigo encadernador.

Domingos Dias da Silva, dono da empresa,  é um dos últimos bastiões da encadernação à antiga

Domingos Dias da Silva, dono da empresa, é um dos últimos bastiões da encadernação à antiga

Mas não foram apenas os príncipes a receber livros encadernados pela Imprensa Portuguesa. Entre as pontas do polegar e o indicador segura-se um objeto inusitado: o mais pequeno livro do mundo. Observando de perto, também ele tem a mesma encadernação em pele, gravuras feitas à mão e no interior um conto açoriano sobre dois carpinteiros que construíram um bote e tentaram chegar aos Estados Unidos. Naufragados, foram salvos por um barco norte-americano. Aquele pequeno volume é semelhante a um outro livro, bem maior, escrito em português e inglês. “É uma réplica de um livro em tamanho grande que oferecemos ao presidente norte-americano, Barack Obama, quando esteve cá em 2010”, afirma.

A encadernação sempre foi a paixão de Domingos Silva, desde que aos 14 anos se iniciou nesta arte. Na altura participava num grupo de teatro na terra natal – Labruge, em Vila do Conde –, que contava com encadernadores. “Queres vir para o Porto aprender?”, perguntaram-lhe, e Domingos logo disse que sim. Demorou oito anos a ter a licença de encadernador, e foi no dia do seu casamento que recebeu a cédula e falou com aquele que haveria de ser seu sócio na empresa Manuel Ferreira & Silva. Os dois iriam comprar, em 1981, a Imprensa Portuguesa para aumentar a produção da empresa de ambos, que se tinha tornado muito prestigiada do Porto e demasiado grande para a simples sala onde operavam.

Atualmente a Imprensa Portuguesa dedica-se apenas a encadernações, manuais ou em máquina, em pequena ou grande escala, trabalhando para as maiores gráficas do país, sem nunca perder o amor pela arte em si. Pelas mãos de Domingos Silva passou até um livro do século XV. “Só confiavam em mim para trabalhar em material tão delicado e sem preço. Desmanchei-o, limpei-o e fiz uma encadernação nova. Ficou impecável”, garante.

Além de ter agraciado presidentes da República portuguesa com livros, também o Papa João Paulo II recebeu um livro de Domingos Silva: um Alcorão, encadernado e gravado com uma representação de Maomé feita pela Imprensa Portuguesa.

Domingos Silva faz questão de usar os melhores materiais. Mostra-nos a frágil folha de ouro, as peles de animal usadas na encadernação – “As melhores são as de cabra e de carneiro. Quando mais pequeno o animal, melhor. Se não levar tinta ainda melhor” –  e os utensílios usados para dar forma à capa e fazer as ornamentações. Alguns deles levam uma camada de tinta de ouro de lei na lombada superior “para proteger do pó”.

Usar apenas o melhor foi um dos motes da Imprensa Portuguesa desde o seu início. Quando fundada logo se instalou naquele que era conhecido pelo Bairro dos Jornalistas, perto do atual Rivoli. Nas tipografia eram publicadas as páginas do folhetim “Atualidade”, onde escreveram, entre outros, Teófilo Braga ou Eça de Queirós. Também nela era impressa a Gazeta Literária do Porto, de Camilo Castelo Branco.

Bruno Abreu

Sem comentários

  1. Que desperdício !

    Além de Filipe de Bourbon e Letízia Ortiz (mesmo que saibam ler em português) não perceberem patavina do “substrato” inerente a “Os Lusíadas” , teria sido muito mais útil se lhes tivessem oferecido um livro sobra a história do Euskal Herria.

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