Como Moçambique viveu a independência

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: O verão de 1975 viu nascer um país em África: Moçambique. A ex-colónia portuguesa, após a guerra de independência que pôs fim a 500 anos de colonização, tornava-se um Estado soberano. O DN esteve lá, foi testemunha da alegria do momento e como as tropas portuguesas partiram sem animosidade à noite

Estava-se em 1975, o mês de junho caminhava para o fim e Portugal preparava-se para a independência de uma das suas colónias. Neste caso, Moçambique. Dois jornalistas do DN fizeram a cobertura dos acontecimentos no terreno: João Guerin, enviado especial, e Solano de Almeida, o correspondente em Moçambique.

Na edição de quarta-feira, 25 de junho de 1975, é a crónica de Solano de Almeida que revela aos leitores do DN como foi esse momento em que um território deixa de ser colónia e adquire o estatuto de Estado soberano. Nesse dia, o título “Moçambique independente e livre/com o apoio e a amizade de Portugal” surgia a oito colunas no topo da capa do DN. Seguia-se-lhe, a três colunas, o editorial que afirma ser Moçambique “para seu bem, um país rico” materialmente, mas  a sua maior riqueza “está na irresistível corrente de energia, de vitalidade revolucionária, que varre o país”.

Ao lado do editorial, e a cinco colunas, uma fotografia mostra como Vasco Gonçalves e Joaquim Chissano (então primeiros--ministros de Portugal e Moçambique) se abraçam efusivamente. Segundo a legenda,   “no encontro caloroso” dos dois políticos está contido “todo o programa de uma descolonização que fica como afirmação exemplar da vontade de reconstruir no presente a amizade que se perdeu no passado”.

Ainda na capa do DN e sob o título “O içar de uma nova bandeira/pôs fim a 500 anos de colonialismo”, o texto do correspondente conta que “precisamente à meia-noite (23 horas de Lisboa) a bandeira portuguesa desceu do mastro no Estádio da Machava, sendo substituída pela bandeira da República Popular de Moçambique. Encerravam-se assim 500 anos de dominação portuguesa neste país do Índico”. E adianta: “Dezenas e dezenas de milhares de moçambicanos vieram para a rua e para as imediações do Estádio da Machava (que antigamente dava pelo nome de Estádio Salazar) festejar este dia que é único na história do povo moçambicano.”

Perante as autoridades do novo país, representantes do anterior poder e a multidão que acorreu ao Estádio da Machava, realiza--se a cerimónia que marca o assumir da soberania: a bandeira quadricolor de Moçambique é hasteada por militares nacionais, momentos depois de a bandeira de Portugal ter sido arreada e entregue a militares portugueses.

Perante as autoridades do novo país, representantes do anterior poder e a multidão que acorreu ao Estádio da Machava, realiza–se a cerimónia que marca o assumir da soberania: a bandeira quadricolor de Moçambique é hasteada por militares nacionais, momentos depois de a bandeira de Portugal ter sido arreada e entregue a militares portugueses.

“Danças e cantares preencheram o festival da independência, no estádio, desde as dez horas da noite. (…) cá fora, nas ruas, em toda a Lourenço Marques, em todo o Moçambique, a dança e os cantares generalizaram-se, exteriorizando a alegria de um povo pela sua libertação.”

“A bandeira de Moçambique (…) flutua já em milhares de mastros por todo o Moçambique. Foi no entanto necessário que soasse a meia-noite, que se entrasse no dia 25 de Junho de 1975, para que ela fosse mostrada em toda a liberdade.” E já no interior do jornal o correspondente narra como ao longo do dia chegaram delegações estrangeiras à cidade, onde “se viam carros enfeitados com bandeiras da Frelimo, dísticos revolucionários e fotografias de Samora Machel”, e “comboios foram postos à disposição da imensa multidão que quis assistir à cerimónia oficial do arrear da bandeira portuguesa e do içar da bandeira de Moçambique”.

Bandeira em bandeja de prata

Na edição de 26 de junho e sob o título “Um novo dia/em Can Phumo”, João Guerin revela pormenores do momento da independência. “A bandeira portuguesa foi solenemente arreada do mastro simbólico no Estádio da Machava.Um marinheiro recolheu-a e depositou-a numa bandeja de prata, que um oficial do exército, ladeado por outro da força aérea, segurava. Os três representantes das Forças Armadas Portuguesas, passo cadenciado, abandonaram o recinto.”

“O povo, que enchia o estádio, explodiu numa manifestação imensa de alegria. Na tribuna de honra, Samora Machel, que entrara no local delirantemente aplaudido, fez continência. (…)”, narra o enviado que conta como “a chuva miudinha, que desde o fim da tarde começou a cair, não pára. Não perturba sequer as forças da Frelimo formadas no centro do campo, em apresentar armas, nem arrefece o entusiasmo popular. É antes considerada como um bom presságio, augúrio de um futuro promissor para o novo país”.

E a terminar o relato do dia: “Ao largo, na baía do Espírito Santo, há luzes que se afastam, progressivamente, no horizonte. São os navios que transportam para Portugal os últimos efectivos do Exército Português em serviço de soberania em Moçambique e que largaram pouco antes da meia-noite.”

LUMENA RAPOSO

Existem 17 comentários

  1. Dr Feelgood

    Li esta vergonha assim de repente para não ficar enojado. É EVIDENTE que este asco de prosa SÓ PODE ter sido escrita na vigência de Samarago, senão pró quê vão lá confirmar, está lá o nome do esbirro! Porque esta ode hossânica à tomada de posse oferecida pelos traidores tugas à Frelimo SEM registar os gravíssimos acontecimentos e os MILHARES de mortos que a precederam, só me merece uma palavra – NOJO! Beuurrgghh !!

    1. Filipe

      olha este asno levantou-se às 07h para beber um, dois, três copos de vinho… olhar para o velho e enferrugado crachã da pide… e escrever esta baboseira…
      ouve lá… vai-te tratar que ainda acabas com uma cirrose… a liberdade dos povos de toda a Africa a par da nossa propria liberdade foi o melhor que o 25 de Abril nos proporcionou… claro que para velhas carcaças fascistas como tu… … salazar, hitler, mussolini, franco… feelgood… todos o mesmo saco de…

      1. Dr Feelgood

        O 25 d’Abril NUNCA proporcionou a ” liberdade ” dos ” povos de toda a África “, seu MATUMBO! Nem a NOSSA! Estou cansado de sugerir filtros neste jornal para afastar IGNORANTES abstémios, karallo!

        1. FILIPE

          Meu caro Asno, numa coisa tens razão… obvio que não foi de toda a Africa, mas sim das nossas ex-colonias uma vez que essas sim se viram livres do nosso dominio. Qualquer pessoa com 2 dedos de testa entenderiam o que quis dizer, mas burro fui eu que me esqueci que estava a dar resposta a um Asno fascista como tu que so entende as coisas ao fim de 2 3 ou até mesmo 4 copos de vinho…
          eu se fosse a ti tinha cuidado com o que sugeres, falo em relação aos filtros claro, uma vez que muito provavelmente a instituição mental onde estas internado ficaria interdita a comentários, não por causa dos outros pacientes, nada contra eles, mas sim por tua causa… porco fascista

  2. Salazarento de Plantão

    Saí corrido de lá num pique, muita poesia e agora bebo vinho no meu alambique. Só não esqueci das neguinhas que eu papava e batia nas suas bundinhas moças e dava um pique.

  3. ninguém

    Acabaram 500 anos. Depois de terem transformado em país (grande) terras distribuídas por tribos que apenas se matavam entre si e arrebanhavam os derrotados para escravos, os portugueses saem sem glória nem proveito.

  4. K

    500 anos de colonização…..????? Atendendo que a colonização efectiva começou depois de 1870, significa que se irá estender até 2370……..

  5. Força, Coragem e Honra

    Sem dúvida mais uma prova do excelso escritor que foi Saramago além de brilhante director de jornal. Eu sei que não foi ele que escreveu tais pérolas, escusam os Plantôes «anti – Salazarentos» (havia milhares de informadores e outros tantos da Legião que desapareceram sem deixar rasto, apesar de alguns passaritos me terem sussurrado ao ouvido que no dia 25 de Abril na sede de um determinado partido amigo dos operários no Barreiro as fichas de inscrição estarem esgotadas) virem para aqui tentarem fazer prova de democratas acima de qualquer suspeita. Mas não perdendo o fio à meada, dizia eu que essa tirada Solanista de que a maior riqueza está na inesgotável corrente de energia, de vitalidade revolucionária que varre o País»?????… era mesmo altamente. Por último quero saudar os brilhantes Oficiais dos 3 ramos que hoje estarão na sua bela reforma com a patente de generais pelo contributo que deram ao engrandecimento da nossa Pátria que como os Soares os Cunhais e os Alegres sabem, por desconhecimento de existência de empresas como Siderurgia, Lisnave, Setenave, CUF, Profabil, Cometna, Mague, MDF, Cimenteiras, Celulose, Vidreiras, Cerâmicas….., era um País atrasadíssimo em que o desemprego, a droga, a criminalidade, o vandalismo eram um flagelo sem paralelo. Em relação a Moçambique, não quero ser acusado de egoísta, sem dúvida que a «corrente de energia» deu muito mais luz do que alguém algum dia poderia supor. Um bem haja a todos, não vá algum escapar.

  6. J.J.JEREMIAS

    Uma descolonização para Portugal se envergonhar! Basta ver que daí nasceram ditaduras duradouras e falsas democracias. Os povos colonizados, continuam a ser explorados e sem liberdade de escolha. Claro, a esquerdalhada nojenta está orgulhosa…

  7. Algorítmico

    Os guerrilheiros que receberam o novo país independente foram os únicos que a ir armados para o hastear da nova bandeira? Revelador…

  8. Testemunha da História

    Vejam! O que aconteceu aos regimes marxistas das ex-colónias, herdados da Abrilada e filhotes bastardos do PCP? TODOS, TODOS, tornaram-se ditaduras “democráticas” e praticam hoje o mais selvagem dos capitalismos! Não sem antes morrerem mais de um milhão de pessoas, por conta de lutas internas e rusgas ideológicas marxistas. Foi a “descolonização exemplar”…

  9. Dr Feelgood

    Mas o melhor está para vir, aproximando-se o 11 de Novembro quero ver o quão lúgubre vai ser a reportagem alusiva ao facto que aqui irão colocar. Houve DEZENAS. Estou sentado à espera e a rir. Partindo do ” prencípio ” que o director-geral ou 1º secretário era o mesmo, esse de Samarago. Uma coisa é garantível – ou não colocam nada ou ao fazerem-no vai ser um Carnaval. Desde já me posiciono na linha da frente expectando encontrar ou Efe Efe ( o que duvido, é demasiada karga…) ou a bela (!!?) Câncias, aqui em wide open a intervenções dos leiteiros, perdão, leitores.

  10. Comunista

    A experiência independentista e socialista de Moçambique poderia ter sido um sucesso, se determinados responsáveis pela descolonização não fossem corruptos e não estivessem envolvidos com os EUA para que a experiência começasse mal desde o ínicio.

    1. JERÓNIMO DE SOUSA

      Olhe que o amigo está equivocado! Foi justamente a interferência e “ajuda” do nosso PCP e da ex-URSS, que desencadearam a mortandade que se seguiu à descolonização. Sei disso porque vivi aquela época e eu não consigo mentir…

  11. Clovis

    O socialismo libertou todas as colonias na Africa e pelo mundo, a democracia só ocorreu recentemente, más libertos.

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