BES, o Novo Banco nascido de uma Caza de Câmbio

No dia 25 de abril de 1974, uma multidão acorreu a um dos balcões do então BESCL, no Porto. Em março de 1975, o banco seria nacionalizado, como toda a banca portuguesa. A reprivatização só chegaria em 1991

No dia 25 de abril de 1974, uma multidão acorreu a um dos balcões do então BESCL, no Porto. Em março de 1975, o banco seria nacionalizado, como toda a banca portuguesa. A reprivatização só chegaria em 1991

Aos 19 anos, José Maria dedicou-se ao “comércio de lotarias, câmbios e títulos”. A partir daí foi criando várias casas de comércio bancário que estiveram na origem do Banco Espírito Santo. Uma história de donos disto tudo.

A porta está fechada, os vidros das montras sujos e o correio acumula-se no chão à entrada da loja. Estamos no número 91 da Calçada do Combro, por onde o elétrico 28 passa a levar turistas acima e abaixo pelas colinas de Lisboa. Uma folha afixada na porta conta-nos que ali se fazia e vendia “encadernação, douração, material de encadernação, decoração, artesanato”, outro pequeno cartão identifica o nome da empresa. Não terá resistido aos anos de crise a Boutique A. Fernandes – em 2009, o Google Maps ainda fotografou a loja de portas abertas, mas vazia de clientes naquele instante e a funcionária na entrada a ver quem passava. Longe, muito longe do ano de 1869, ali naquele mesmo número, quando José Maria do Espírito Santo e Silva abriu a sua Caza de Câmbio, tinha 19 anos, para exercer diversas operações financeiras, dando início a um império que, depois de muitas denominações e empresas associadas, chegaria a 2014 como Banco Espírito Santo. Também não resistiu ao que se sabe: o BES é agora o Novo Banco.

No século XIX, José Maria começou por dedicar-se ao “comércio de lotarias, câmbios e títulos”, antes de fundar várias casas de comércio bancário – nem todas com o seu nome, mas sempre como sócio maioritário. Quando morreu em 1915 está à frente da J.M. Espírito Santo Silva & Cª., e já deixara há muito a “caza” da Calçada do Combro (desde 1880), no limite do Bairro Alto onde nasceu. Os seus herdeiros – com o filho José Ribeiro à cabeça – formam a Casa Bancária Espírito Santo Silva & Cª., em 1916, e quatro anos depois o Banco Espírito Santo. No mesmo dia 9 de abril de 1920 em que nasce este primeiro BES, abre também uma agência em Torres Vedras. Estava definido o objetivo de “levar cada vez mais perto dos clientes os serviços bancários”.

A empresa é, 50 anos depois de fundada, nos anos 1920, uma sólida instituição bancária, como descreve o próprio Centro de História do Banco Espírito Santo. Ninguém teria cunhado ainda a expressão “dono disto tudo”, que os portugueses descobriram como cognome de Ricardo Salgado. E que certamente poderia ter sido o cognome de Ricardo Ribeiro Espírito Santo, um dos filhos do jovem cambista da “caza” da Calçada do Combro. Ricardo sucedeu ao irmão José, em 1932, e cinco anos depois promoveu a fusão do seu banco com o Banco Comercial de Lisboa (fundado a 25 de fevereiro de 1875, com um capital de “2000 contos de réis”). Nascia assim o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL, denominação que se manteria até 1999). Nos anos 1950, Ricardo tornou-se “num conselheiro especial de Salazar para todos os assuntos relacionados com economia política, diplomacia e artes – e acabou por se tornar também um dos melhores amigos do presidente do Conselho”, como conta Pedro Jorge Castro no seu livro Salazar e os milionários (Quetzal, 2009).

A fachada do balcão do Saldanha com a nova imagem do Novo Banco para substituir o nome do Banco Espírito Santo (BES), uma mudança que se iniciou em setembro passado mas ainda não chegou a todas as agências

A fachada do balcão do Saldanha com a nova imagem do Novo Banco para substituir o nome do Banco Espírito Santo (BES), uma mudança que se iniciou em setembro passado mas ainda não chegou a todas as agências

Ricardo Espírito presidia ao BESCL, liderava a petrolífera Sacor (que esteve na origem da Galp), controlava a companhia de seguros Tranquilidade e duas sociedades agrícolas em Angola e Moçambique. Às oito da noite de domingo, o ditador recebia o banqueiro e falavam de tudo. Também das viagens que Ricardo fazia – e Salazar via o mundo também pelos olhos dele. “É difícil encontrar um grande investimento que não tenha sido escrutinado e, mais do que isso, aprovado nestes encontros rotineiros de domingo à noite”, lê-se no livro. Noutra ocasião, em março de 1953, o presidente do Conselho recebia o ministro dos Negócios Estrangeiros e o banqueiro para discutir a prenda que no dia seguinte António Salazar iria dar a Franco, num encontro com o ditador espanhol. Uma hora depois, saía o ministro e ficava o banqueiro para mais uma hora de conversa. Ricardo Ribeiro Espírito Santo era também um dono disto tudo. Até à sua morte em 1955.

Em 1972, o banco internacionaliza a sua atividade, criando em 1973 o Banco Inter-Unido em Angola. A atividade privada desta instituição é interrompida em 1975, quando os bancos são nacionalizados. O regresso do Grupo Espírito Santo a Portugal começa a ganhar forma ainda nos anos 1980, com a criação do Banco Internacional de Crédito (BIC) e, por fim, com a reprivatização do BESCL em 1991. O regresso ao nome mais curto de Banco Espírito Santo (BES) é no fim do século XX. Em maio de 2009, o presidente da Administração Ricardo Espírito Santo Salgado sublinhava – numa entrevista à newsletter interna do banco – que “a confiança é a trave mestra do sistema financeiro” e que, “quando há uma quebra de confiança, o sistema ressente-se imediatamente”. E Ricardo Salgado lembrava de passagem a falência do Lehman Brothers em 2008, nos EUA. O ex-dono disto tudo antecipava o seu próprio fim: em 2014, a confiança na sua presidência esboroou-se e o império finou-se, 145 depois da caza de câmbios na Calçada do Combro. Só o correio não se acumula no chão.
Do BES nasceu o Novo Banco. Hoje, a marca “equilibra elementos de património (como a cor verde) e de novidade”, explicou em setembro ao Dinheiro Vivo a sua diretora de marketing Rita Torres Baptista. “Potencia a familiaridade e proximidade dos seus clientes, ao mesmo tempo que incorpora o compromisso de renovação e superação para voltar a ocupar a posição de liderança que o mercado sempre lhe reconheceu.” Por quanto tempo mais, é a incógnita que se desenha.

MIGUEL MARUJO

Sem comentários

  1. Enriquecer a trabalhar?

    Na história do BES vão ficar dois vigaristas: o que o criou e o que o destruiu.

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