O cortejo histórico do Mundo Português

Quase uma página inteira para contar um cortejo “de minho a timor”. A dada altura, escreve o DN, o “povo que assiste mira-se, bicos de pés, ao espelho”. O espelho é o povo retratado pelos milhares de figurantes de traje típico que, entre Afonsos Henriques e feras, concorrem pela atenção do público.

Quase uma página inteira para contar um cortejo “de minho a timor”. A dada altura, escreve o DN, o “povo que assiste mira-se, bicos de pés, ao espelho”. O espelho é o povo retratado pelos milhares de figurantes de traje típico que, entre Afonsos Henriques e feras, concorrem pela atenção do público.

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: “Evocação maravilhosa de oito séculos de história pátria”, diz a manchete de 1 de julho de 1940 (em plena II Guerra Mundial) do cortejo com mascarados, zebras, leões e até um elefante. A 21 anos da perda da “Índia portuguesa” e do início da Guerra Colonial, é a última grande festa do Portugal “do Minho a Timor”

“Aqui repousavam carros de guerra e carros alegóricos. Mais longe trotavam cavaleiros com escudos e lanças, capas ao vento, elmos a brilhar. (…) A um lado ajaezava-se ricamente um elefante; mais longe atrelavam-se zebras ao carro que devia conduzir o rei do Congo; uma onça era amarrada à sela de um imponente caçador negro e um leão enorme, sujeito com correntes de ferro e fortes correias, a outro carro primitivo, de rodas baixas, ofegante de sede, de calor e de justificado espanto.”

Na escrita floreada e rendida do jornal que ao cimo, na primeira página, se ostenta “visado pela censura”, só falta dizer que a fera, como o oceano do hino, “ruge de amor”. Não: está só espantada de “justificado espanto” como todos os que vêm assistir ao “espectáculo empolgante e maravilhoso” cujos organizadores “ficarão marcados, não com pedra branca mas com sinal de ouro, nas festas comemorativas dos centenários”.

Centenários, pois: oito da fundação do Estado (1140) e três sobre a “Restauração” pós–domínio espanhol (1640), celebrados, por desígnio do executivo de Salazar, seguindo uma ideia lançada em 1929 por Alberto de Oliveira, numa exposição grandiosa, a cuja comissão nacional viria a presidir, com o ideólogo da propaganda António Ferro em adjunto. Na comissão executiva, um nome que Almada Negreiros tornou imortal: Júlio Dantas, o do “morra, pim”. Para idealizar os cerca de 560 mil metros quadrados entre o Tejo e os Jerónimos em que, além de muitas construções temporárias, se exibem o Padrão dos Descobrimentos e a Praça do Império (onde os famosos brasões jardinados representando as colónias ficaram até hoje, merecendo polémica recente). Com três milhões de visitantes estimados entre a inauguração, a 23 de junho, e o encerramento, a 2 de dezembro, é considerada a maior manifestação cultural do regime. Em plena Segunda Guerra Mundial, a primeira página do DN quase só tem olhos para ela e as suas várias “realizações” (nomeadamente o Congresso do Mundo Português, a inaugurar nesse dia no “Palácio da Assembleia Nacional”, ou seja, São Bento), com duas enormes fotos, uma do cortejo a passar “junto ao Pavilhão de Honra” (da autoria de Cristino da Silva, será um dos edifícios demolidos) e outra da grande atração do evento, o “elefante da Índia” que ecoa a memória da embaixada de D. Manuel I ao papa. Ainda assim, na metade inferior da primeira página, alerta-se, utilizando linguagem colorida – “os sovietes” – para o facto de os portos petroleiros russos do mar Negro estarem em estado de guerra e de poder estar iminente a invasão da Turquia (neutra durante todo o conflito). E se uma pequena notícia refere a possibilidade de “o Governo francês” – referindo o de Vichy (a França fora invadida pela Alemanha em maio e o armistício fora assinado a 22 de junho)- ter deixado Bordéus para se instalar em Clermont-Ferrand, o congresso que se iniciava nesse 1 de julho juntava oradores alemães, franceses e britânicos. Como se nada se passasse na Europa.

FERNANDA CÂNCIO

 

Existem 5 comentários

  1. ninguém

    Sendo esta esquerdalha a autora do texto não se estranha o habitual escárneo e momice do que era feito na grande PÁTRIA de então. Como diria o épico: desgraçada terra que tal filhos pariu.

  2. AMADEU

    Esse Portugal era um Estado fascista que mantinha uma pequena aristocracia nababesca vivendo de favores comerciais com a Inglaterra, enquanto os cidadãos portugueses em sua maioria analfabetos, pobres e famintos, viam como única solução de vida emigrarem para cá, Brasil.

  3. Testemunha da História

    Portugal foi grande na época dos descobrimentos! Muito depois veio o fascismo e logo a seguir algo ainda pior: a abrilada de esquerdalhos medíocres e oportunistas! Desde então mergulharam o país numa crise sem precedentes, mas antes disso fomos ao paraíso e voltamos, depois de termos aproveitado muito mal os dinheiros alheios da UE. Estamos agora a descobrir que éramos muito dependentes das colónias, a nossa economia sempre foi mal das pernas…

  4. Serge

    Pelo menos, ainda éramos alguma coisa. Havia orgulho na nossa história e tentávamos a todo o custo sermos NÓS. Hoje em dia não – Eventualmente e alegadamente somos governados (Governos) e geridos (pelas grandes empresas) por prostitutas. Volta Salazar, pois estás perdoado.

  5. Força, Coragem e Honra

    Esta muchacha da Sinistra, grande «admiradora» dum determinado pretenso filósofo muito chegado a questões materiais mas nada dado a essas coisas de relacionamentos, sente-se com as costas quentes e portanto impune neste miserável regime de traidores para assinar um texto que consegue ainda ser mais miserável que a sua autora. Nobre Pátria que tais filhos pariste…

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